August 22, 2021

Porque é que os jornais promovem artigos que defendem a obesidade?

 


Esta senhora goza com a legislação referente à alimentação nas escolas, mas faz mal. Fala no desconhecimento do que são os miúdos a comer, naquelas idades, longe dos pais e, também, de como os bares das escolas são autênticos indutores de obesidade.

Os miúdos, assim que entram na adolescência, comem que nem mulas. Todos os intervalos os vemos a devorar comida. Comem o que há. Se o que há são carcassas com presunto, é isso que comem; se o que há são paralelepípedos de uma massa castanha embalada em plástico a que chamam «wafles», é isso que comem. E não é porque o prefiram: é porque é o que há.

Na minha escola, por exemplo, até há poucos anos, quem fazia a comida que se vendia no bar eram funcionárias do bar da escola - isto era no tempo em que a escola tinha funcionários. De manhã, antes do bar abrir, faziam sandes de ovo mexido, de carne assada, de queijo e fiambre, de pasta de atum. As sandes tinham verduras, tomate, etc. O bar tinha sempre sopa, iogurtes, fruta. Marchava tudo. É claro que as sopas quem as comia eram os professores e funcionários da escola, mas o bar não é só para os alunos. Depois vendia uns chocolates, umas gomas e uns bolos, tipo queques, pastel de feijão, bolo de arroz, etc., sem natas e sem cremes. 

Agora, de há uns anos para cá, há um contrato com uma empresa local que fornece a comida para a escola e a serve. É só pães com queijo em barra, chocolates, batatas fritas, gomas, «wafles» de pseudo-chocolate, lasanhas, pizzas, etc. Até as máquinas automáticas só vendem porcarias. No primeiro ano ainda me queixei porque costumava comer fruta e iogurtes no bar. Responderam-me mal e disseram-me que não tinham fruta nem iogurtes porque os alunos não os comem. Pois, claro, se têm iogurtes ao lado de pizzas, que vão eles escolher? Enfim,  nunca mais fui ao bar. 

No entanto, o interessante é que os alunos mais velhos não comem aquelas porcarias. Saem da escola e vão a um café que há ali perto comprar baguetes de frango grelhado com verduras, pasta de atum com verduras, queijo mozarella com tomate, carne assada, etc.

Portanto, esta legislação é boa e só espero que com o tempo os miúdos se habituem a comer melhor. Temos um problema de obesidade no mundo ocidental que já chegou às crianças e adolescentes. É muito preocupante e se a escola é um local de educação, que se eduquem também os hábitos alimentares. 

É comum, nas escolas, os bares terem um poster da pirâmide /roda dos alimentos saudáveis enquanto vendem porcarias. É a total hipocrisia. A frase de abertura deste artigo, "Se os miúdos já não gostam de ir à escola" diz tudo, não? Se calhar o que faz os miúdos não gostarem de ir à escola, em grande parte, não é a comida, mas a atitude que os pais lhes transmitem do que é a escola e para que serve. Não para comer porcarias, evidentemente. 

Ah, mas compreendemos bem a lógica desta senhora: como nos dias que correm há a ideia que os alunos, nas escolas, têm de estar em permanente estado de prazer e felicidade, como se a escola fosse uma feira de diversões, também a comida deve ser um momento de prazer e de felicidade.


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Se os miúdos já não gostam de ir à escola, este regresso às aulas promete ser ainda mais especial. Num despacho publicado esta semana, foram apresentadas algumas restrições alimentares para entrar em vigor a partir do próximo mês nos bares das escolas públicas.

Vou apresentar alguns itens da lista-de-não-compras, não só para ficarem a par mas também para apontarem dicas para a operação biquíni do próximo ano.

Não se vendem mais salgados ou sandes de chouriço, mortadela e presunto. Isto como é para as crianças, não me choca particularmente até porque ninguém quer estar na aula de EVT sentado ao lado do puto que arrota a enchidos. Estamos a falar do bar da escola, não de um snack-bar em Chaves.

Proibidas as refeições rápidas, designadamente hambúrgueres, cachorros-quentes, pizas e lasanhas. É excelente porque assim evitam comer o mesmo duas refeições seguidas. Agora, para comer isso vão ter de esperar pelo jantar. Sim, sim, que eu bem vejo o nível de fanatismo que há com pizas e lasanhas do LIDL nas vossas casas.

É o fim dos rebuçados, caramelos, pastilhas elásticas com açúcar, chupas ou gomas. Ou seja, os bares da escola vão mesmo começar a ter troco para dar. Acabou-se aquela brincadeira de "pode ser o troco em pastilhas?". Não, não pode dona Arlete. Não quero receber 17 euros em Gorila.

Com estas diretrizes, as vitrinas e prateleiras dos bares ficaram com meia carcaça e uma cuvete de gelo para as entorses em educação física e foi por isso que foram apresentadas alternativas no despacho.

Pão com queijo meio-gordo ou magro, requeijão, ovo, fiambre pouco gordo, atum ou outros peixes de conserva com baixo teor de sal ou pão com pasta de produtos de origem vegetal à base de leguminosas. O Ministério da Educação sugere ainda acompanhar as sandes com produtos hortícolas, tais como alface, tomate, cenoura ralada e couve-roxa ripada.

Eu sinto que o Governo devia fazer o meu plano alimentar. Se alguém do executivo me estiver a ouvir, mande mensagem para marcar consulta, porque é deste rigor que eu preciso.

Os bares serão obrigados a ter garrafas de água, leite e iogurtes, ambos meio-gordo e magro.

Mas para não acharem que é tudo sem sabor, também haverá "tisanas e infusões de ervas" e "bebidas vegetais, em doses individuais", ambas sem adição de açúcar, assim como sumos de fruta e/ou vegetais naturais.

Sim, é isso que estão a pensar. Saudáveis, plenos, saborosos. Os bares da escola são os novos brunchs da moda. Eu até já comecei seguir o bar da C+S da Ramada no Zomato.

Isto é realmente importante porque temos uma percentagem de população obesa muito elevada, especialmente nos mais novos. O rendimento escolar não é o mesmo, a saúde a longo prazo também não, e isto poupa inclusivamente o nosso SNS.

4 comments:

  1. Não te preocupes por os teus herois xuxas não te ouvirem,eu faço o teu plano alimentar em pouquissimo tempo farei de ti uma das mulheres mais saudaveis e sexy do mundo.Dentro da visão patriarcal heteronormativa obviamente. É claro que não percebeste nada desta treta da nova alimentação escolar e aquela(entre muitas neste blog) tua acerca da imunidade de grupo tambem é obra de compilação mas lembra-te sempre que eu sou apenas um simples mortal,embora sempre muitissimo bem intencionado não sou mago e fazer de ti uma criatura ultra saudavel e ultra sexy estou longe de poder aumentar o teu engenho,tambem como tudo o que é bom na vida é gratis,nada te cobrarei.
    Ass:Basilio el Xuxa

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  2. Oh, meu deus! como é que vou sobreviver a uma crítica tão construtiva de um AI? Aqui neste blog parece-me que é a 2ª vez que tenho um comentador desse grupo dos AI (anónimos irados)

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  3. O episódio da comida nas cantinas é o ponto de partida do Cass Sunstein no famoso "Nudge". O problema teórico não é tanto a promoção utilitarista da satisfação das (preferências das) crianças (apesar de também ser esse), mas sobretudo a legitimidade de um paternalismo não neutral perante uma concepção do bem. Ou seja, o chamado problema do "framing" num contexto liberal (que vai desde as comidas na vitrine da cantina até aos algoritmos informáticos que canalizam a informação e as formas de entretenimento, como a Cambridge Analytica). Sunstein acha que isso é legítimo (embora com limites), e dá-lhe o nome de "paternalismo libertário".
    Que eu saiba, ninguém na literatura vê problemas com ser-se paternalista com crianças; porém, tendo em vista que os adolescentes são uma raça que já não é criança mas também não é ainda adulta, a coisa torna-se mais complicada.

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  4. Obrigada... eu tinha percebido, mas não respondo a críticas feitas naquele teor.

    Não sou a favor de paternalismo do Estado e parece-me que deixo isso muito claro aqui no blog, mas penso que não se pode pôr tudo no mesmo saco e misturar assuntos que são diferentes.

    Eu referia-me à parte que tem que ver com a comida nos bares das escolas, que é tema do artigo e não a outros assuntos.
    Não penso que tenha que ser toda restrita a iogurtes e alfaces, mas não estou de acordo que seja apenas de pães e pizzas. Uma comida reduzida a pães, pizzas e hamburgers não é uma comida de qualidade e sendo a escola pública, deve fomentar uma comida de qualidade.

    Os adolescentes mais velhos já têm capacidade de discernimentos, mas todos os outros, por regra, não têm e, se os deixassem alimentar-se só de pão, massa, hamburgers, batatas fritas, gelados, etc., era o que fariam.
    Se as 'preferências' das crianças e adolescentes são o que dita as regras, a educação formal desaparece porque é algo que eles 'não preferem'. Educar não é satisfazer todos os desejos das crianças e adolescentes.

    Isto não tem nada que ver com paternalismo a adultos, nem com algoritmos orwellianos, nem com punição ou vergonha social à maneira da China.

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