Pensei que Ia Estudar Literatura em Columbia. Estava Enganada.
Os departamentos de Inglês ensinam ideologia em vez de literatura
LIZA LIBES
4 de Maio de 2026
Quando me mudei para a cidade de Nova Iorque, o meu mundo inteiro ardeu até às cinzas.
Tinha dezoito anos, estava cheia de sonhos e ambição. Tinha acabado de concretizar o objectivo de toda uma vida: estudar literatura inglesa numa das melhores universidades do mundo — uma universidade da Ivy League famosa por homenagear os grandes feitos intelectuais da civilização ocidental — e mal podia esperar para passar os quatro anos seguintes mergulhada em discussões sobre epopeias homéricas, monólogos de Shakespeare e poesia modernista na Universidade de Columbia.
Frequentei uma escola secundária privada orientada para as áreas STEM. Os meus colegas, versados em matemática, química e economia, tinham passado os quatro anos anteriores a preparar-se para carreiras na banca, medicina e engenharia — os chamados empregos “lucrativos” do nosso tempo. Os seus pais abastados tinham-nos encaminhado para percursos mais “estáveis” por boas razões, mas, numa reviravolta invulgar, a minha família de imigrantes foi muito mais permissiva comigo — e sempre me incentivou a perseguir os meus sonhos.
Para mim, esses sonhos eram estudar literatura e tornar-me uma escritora famosa.
Não era totalmente imprática. Continuava a aplicar-me nas disciplinas de matemática e ciências e considerava os negócios e o direito como possíveis alternativas profissionais. Na universidade, inscrevi-me em cadeiras de psicologia e economia para ter um plano de reserva, mas sabia desde o início que o meu coração nunca esteve verdadeiramente em nenhum dos meus Planos B. Ia ser escritora custasse o que custasse — e não apenas escritora, mas também académica, versada na grande tradição humanista do estudo da literatura.
E quão extraordinário seria se, à semelhança de David Foster Wallace ou Toni Morrison, um dia pudesse ensinar os meus próprios romances à próxima geração de grandes pensadores?
Ser académica seria também a via rápida para aperfeiçoar a minha escrita. Afinal, a única forma de nos tornarmos grandes escritores é ler grande literatura — e, dedicando-me à academia, poderia certamente dar a minha própria contribuição para uma tradição secular de narrativa verbal.
Na minha perspectiva, literatura e tradição eram inseparáveis. Herdara esta forma de pensar do meu ídolo literário, o poeta modernista T. S. Eliot, que acreditava que a criação literária só era possível através do estabelecimento de um diálogo secular com os mestres do passado. Talvez os poetas modernistas americanos sempre tivessem querido “tornar tudo novo”, nas palavras de Ezra Pound, mas não poderia haver “novo” sem o antigo.
Eliot era bastante burkeano, e não é por acaso que Edmund Burke ficou na história não apenas por insistir que devemos respeitar a tradição dos nossos antepassados, mas também por sugerir que a experiência estética está intimamente ligada à beleza e ao sublime.
E era isso que a literatura sempre significara para mim — e a razão pela qual queria estudá-la tão ardentemente: era a coisa mais próxima de uma manifestação física da beleza na alma humana.
Assim, para mim, o estudo da literatura era, por natureza, uma actividade tradicional — uma disciplina que acreditava na preservação das coisas belas. Era um campo de estudo que nos permitia sondar as profundezas da nossa psique e examinar as questões que nos tornam humanos.
Podem imaginar o meu espanto quando descobri que, por uma qualquer perversão do destino, a literatura se tornara praticamente sinónimo de esquerdismo radical na academia literária contemporânea.
Só um ou dois anos depois consegui perceber exactamente o que estava errado, mas mesmo no primeiro dia da semana de acolhimento do primeiro ano senti que algo não estava bem.
Era o ano de 2015. Um avião acabara de se despenhar em Inglaterra e Trevor Noah acabara de assumir a apresentação do The Daily Show. As tensões aumentavam na Alemanha devido ao agravamento da crise dos refugiados sírios, e Donald Trump ainda era conhecido sobretudo como um magnata imobiliário bilionário. Os debates das primárias republicanas aproximavam-se e a nova palavra da moda no campus era “correcção política”.
Era assim que as coisas estavam naquela manhã quente de finais de Agosto. Ninguém tinha ainda ouvido a palavra “woke” no sentido em que hoje a entendemos — mas, sem que a Liza de dezoito anos o soubesse, a Universidade de Columbia era muito mais “woke” do que o resto da sociedade.
Sentados num círculo num relvado entre as duas famosas bibliotecas de Columbia — a agora desactivada Low Library e a infame Butler Library, onde todos chorávamos antes dos exames — estávamos cerca de quinze estudantes. Éramos caloiros nervosos vindos de todo o mundo para Nova Iorque, na esperança de nos tornarmos as grandes mentes do futuro, e passaríamos o resto da semana a participar juntos nas actividades de integração.
Supostamente, aqueles seriam os nossos primeiros amigos da universidade.
Não me recordo de uma única pessoa daquele grupo de orientação, mas posso dizer-vos que a monitora — uma estudante do terceiro ano, irritadiça, oriunda do Connecticut — não ficou muito satisfeita comigo durante a minha primeira semana no campus.
Lembro-me de cruzar o olhar com ela logo depois de ela ter lido as instruções para a nossa primeira actividade de quebra-gelo: devíamos dizer o nosso nome, de onde vínhamos, o curso que pretendíamos seguir e os nossos pronomes.
Pronomes?
Enquanto mordiscava o lábio inferior ressequido, senti imediatamente uma espécie de síndrome do impostor. Teria eu, futura estudante de Inglês e apaixonada pela gramática e pela palavra escrita, esquecido o que era um pronome?
Aquilo não fazia sentido naquele contexto.
Comecei a percorrer mentalmente as classes gramaticais, duvidando de tudo o que aprendera na escola. Os verbos eram palavras de acção. Os adjectivos descreviam características. As preposições indicavam tempo, lugar ou localização. Os pronomes... os pronomes...
Os pronomes eram palavras que substituíam nomes para evitar repetições desnecessárias no discurso ou na escrita. Eu não estava louca — até os tínhamos estudado nas aulas de francês: tu, il, elle, nous, vous.
Será que de repente estávamos a aprender línguas?
À medida que os meus colegas anunciavam as suas cidades natais e os cursos que pretendiam frequentar, a minha mente acelerava. Não fazia ideia do que deveria dizer.
Parecia que toda a gente estava simplesmente a declarar os pronomes da terceira pessoa que correspondiam ao seu sexo.
Mas porquê?
Ali estava eu, com rímel e um vestido azul-claro, a procurar numa pequena mala uma garrafa de água que tinha tirado do refeitório — e estavam a pedir-me que confirmasse se eu era mulher.
— Sou a Liza — gaguejei. — Sou de Chicago e vou estudar Inglês. Os meus pronomes...
Olhei para o vazio, ficando vermelha enquanto quinze pares de olhos me observavam à espera.
— Os meus pronomes são ela e dela.
Meus amigos, essa foi a primeira e a última vez que alguma vez declarei voluntariamente os meus “pronomes”.
Mas naquela altura ainda tentava integrar-me.
Ignorei o assunto até à reunião seguinte da orientação — a última actividade a que assistiria antes de fingir que tinha febre e faltar ao resto da semana.
Estávamos numa velha sala de aula do famoso Hamilton Hall de Columbia (o mesmo edifício ocupado por manifestantes pró-Palestina em 2024). A monitora dividira o quadro branco em sete colunas e pediu-nos que colocássemos notas autocolantes com cada um dos nossos “identificadores” nas respectivas categorias: sexo, género, estatuto socioeconómico, raça, etnia, orientação sexual e capacidade.
A Liza de dezoito anos — que nunca ouvira falar da categoria “capacidade” — escreveu “normal” no seu papel e afixou-o orgulhosamente no quadro.
No final da actividade, fui chamada à parte e recebi uma severa lição sobre “capacitismo”.
Não faz mal, pensei. As aulas vão começar em breve — e vou encontrar os meus pares mais tradicionais no departamento de Inglês.
Mas, no primeiro dia do seminário de Inglês do primeiro ano, deram-nos textos do chamado crítico literário Edward Said.
O capítulo em questão — retirado do seu famoso livro Culture and Imperialism — incidia sobre Mansfield Park, de Jane Austen.
Aquilo pareceu-me estranho. Porque estávamos a ler uma crítica a um livro sem primeiro termos lido o próprio livro?
Eu tinha lido Mansfield Park no secundário, pelo que conseguia acompanhar o argumento de Said: que o romance era sobre colonialismo e imperialismo.
Teríamos lido o mesmo romance? Ou, como muitos dos outros estudantes que estavam a ler crítica antes da obra original, teria Said simplesmente inventado uma interpretação sem nunca se ter confrontado seriamente com o texto?
Nessa noite, pediram-nos um pequeno comentário escrito sobre o capítulo de Said para preparar a discussão da quinta-feira seguinte.
«O argumento de que Mansfield Park só pode ser compreendido a partir de uma perspectiva colonial parece completamente descabido», escrevi. «A entrada de Fanny em sua casa como metáfora de uma força colonizadora é uma interpretação excessivamente forçada.»
A professora não ficou impressionada. Na sua opinião, eu não tinha compreendido adequadamente o argumento de Said e, além disso, pouco importava se Mansfield Park era ou não sobre imperialismo; o importante era que Jane Austen era cúmplice da expansão imperial britânica.
Hã?
Antes que me apercebesse, estava a ler Edward Said em praticamente todos os seminários de Inglês; os professores que ainda não tinham sucumbido à febre Said enchiam as listas de leitura com excertos de Karl Marx e Judith Butler — teóricos que definiam o currículo de Inglês, mas que pareciam ter pouco ou nada a ver com a própria literatura.
Com cada seminário que frequentava, o objectivo geral do departamento de Inglês de Columbia tornava-se cada vez mais claro: estes professores desejavam colectivamente usar a literatura como uma força de resistência contra as “forças iliberais”, para tornar a sociedade mais justa.
Mas para mim — alguém cujos pais tinham fugido da União Soviética — o marxismo estava longe de ser sinónimo de liberalismo.
Claro que não havia nada de errado em tentar tornar o mundo mais justo e equitativo — e muitos grandes escritores tinham trabalhado nesse sentido: Shelley, Ibsen, Orwell, entre outros. Mas a promoção da justiça social era apenas um dos possíveis resultados do envolvimento com a literatura, não o seu único objectivo.
No entanto, se perguntassem a alguém do meu departamento, literatura era inseparável de resistência e justiça.
Como tinha eu chegado, então, a uma conclusão tão radicalmente diferente?
Comecei a observar padrões nas listas de leitura das minhas disciplinas de Inglês. Havia sempre abundância de teoria literária — mas poucas obras literárias propriamente ditas. Tinham-nos entregue teoria literária no primeiro dia de aulas sem primeiro nos darem literatura para ler.
Os departamentos de Inglês tinham substituído lentamente a literatura pela teoria literária — e de forma tão subtil que quase ninguém parecia ter dado por isso.
A verdade é que, no departamento de Inglês de Columbia, o “cânone ocidental” era considerado “racista” e “eurocêntrico” — e, se um texto não fosse de uma mulher multicultural e bissexual, raramente era introduzido nas salas de aula. Sim, existia um seminário sobre Shakespeare, mas não sem um ou outro professor insistir que Shakespeare era homossexual ou até uma mulher, ou ensinar as suas peças através da lente do “desejo queer”.
Quando cheguei ao mestrado, a própria literatura tinha sido completamente relegada para segundo plano. Presumia-se que todos já tinham lido os clássicos importantes durante a licenciatura e que apenas restava estudá-los através de diferentes teorias. A única disciplina obrigatória para todos os estudantes do meu programa de mestrado consistia inteiramente em teoria e não incluía qualquer obra literária — num curso de literatura inglesa.
Tinha vindo para Columbia anos antes para estudar Inglês porque amava a tradição e a beleza. Para mim, a literatura é uma extensão de uma tradição milenar de contar histórias e, numa universidade cujo edifício neoclássico ostenta os nomes dos grandes escritores do Ocidente, esperava encontrar muitos outros amantes das humanidades que se agarrassem à beleza e à tradição com toda a alma.
Em vez disso, encontrei estudantes e professores que apenas queriam destruir tudo aquilo que eu amava, chamando a esse processo “literatura inglesa”.
Mas os verdadeiros estudiosos das humanidades sabem que a literatura trata da compreensão da beleza, da cultura, da arte e da sociedade — daqueles aspectos especiais que nos tornam singularmente humanos — e não de activismo político radical.
Chamamos a isto a tradição humanista — e é precisamente essa tradição que foi abandonada pelos departamentos de Inglês em todo o mundo.
Sei que não sou a única pessoa a abordar o estudo da literatura desta forma. Vim para Columbia para fazer parte de uma tradição duradoura, e as tradições não desaparecem apenas porque as instituições as abandonam. As tradições sobrevivem, e basta um ou dois crentes para as revitalizar completamente.
Ao regressarmos à estética e à beleza, podemos fazer a nossa parte para salvar a literatura e restaurá-la ao seu devido lugar na tradição humanista.
Porque, afinal de contas, a literatura continua a ser a nossa melhor esperança para compreender não apenas o mundo que nos rodeia, mas também a nós próprios.
Frequentei uma escola secundária privada orientada para as áreas STEM. Os meus colegas, versados em matemática, química e economia, tinham passado os quatro anos anteriores a preparar-se para carreiras na banca, medicina e engenharia — os chamados empregos “lucrativos” do nosso tempo. Os seus pais abastados tinham-nos encaminhado para percursos mais “estáveis” por boas razões, mas, numa reviravolta invulgar, a minha família de imigrantes foi muito mais permissiva comigo — e sempre me incentivou a perseguir os meus sonhos.
Para mim, esses sonhos eram estudar literatura e tornar-me uma escritora famosa.
Não era totalmente imprática. Continuava a aplicar-me nas disciplinas de matemática e ciências e considerava os negócios e o direito como possíveis alternativas profissionais. Na universidade, inscrevi-me em cadeiras de psicologia e economia para ter um plano de reserva, mas sabia desde o início que o meu coração nunca esteve verdadeiramente em nenhum dos meus Planos B. Ia ser escritora custasse o que custasse — e não apenas escritora, mas também académica, versada na grande tradição humanista do estudo da literatura.
E quão extraordinário seria se, à semelhança de David Foster Wallace ou Toni Morrison, um dia pudesse ensinar os meus próprios romances à próxima geração de grandes pensadores?
Ser académica seria também a via rápida para aperfeiçoar a minha escrita. Afinal, a única forma de nos tornarmos grandes escritores é ler grande literatura — e, dedicando-me à academia, poderia certamente dar a minha própria contribuição para uma tradição secular de narrativa verbal.
Na minha perspectiva, literatura e tradição eram inseparáveis. Herdara esta forma de pensar do meu ídolo literário, o poeta modernista T. S. Eliot, que acreditava que a criação literária só era possível através do estabelecimento de um diálogo secular com os mestres do passado. Talvez os poetas modernistas americanos sempre tivessem querido “tornar tudo novo”, nas palavras de Ezra Pound, mas não poderia haver “novo” sem o antigo.
Eliot era bastante burkeano, e não é por acaso que Edmund Burke ficou na história não apenas por insistir que devemos respeitar a tradição dos nossos antepassados, mas também por sugerir que a experiência estética está intimamente ligada à beleza e ao sublime.
E era isso que a literatura sempre significara para mim — e a razão pela qual queria estudá-la tão ardentemente: era a coisa mais próxima de uma manifestação física da beleza na alma humana.
Assim, para mim, o estudo da literatura era, por natureza, uma actividade tradicional — uma disciplina que acreditava na preservação das coisas belas. Era um campo de estudo que nos permitia sondar as profundezas da nossa psique e examinar as questões que nos tornam humanos.
Podem imaginar o meu espanto quando descobri que, por uma qualquer perversão do destino, a literatura se tornara praticamente sinónimo de esquerdismo radical na academia literária contemporânea.
Só um ou dois anos depois consegui perceber exactamente o que estava errado, mas mesmo no primeiro dia da semana de acolhimento do primeiro ano senti que algo não estava bem.
Era o ano de 2015. Um avião acabara de se despenhar em Inglaterra e Trevor Noah acabara de assumir a apresentação do The Daily Show. As tensões aumentavam na Alemanha devido ao agravamento da crise dos refugiados sírios, e Donald Trump ainda era conhecido sobretudo como um magnata imobiliário bilionário. Os debates das primárias republicanas aproximavam-se e a nova palavra da moda no campus era “correcção política”.
Era assim que as coisas estavam naquela manhã quente de finais de Agosto. Ninguém tinha ainda ouvido a palavra “woke” no sentido em que hoje a entendemos — mas, sem que a Liza de dezoito anos o soubesse, a Universidade de Columbia era muito mais “woke” do que o resto da sociedade.
Sentados num círculo num relvado entre as duas famosas bibliotecas de Columbia — a agora desactivada Low Library e a infame Butler Library, onde todos chorávamos antes dos exames — estávamos cerca de quinze estudantes. Éramos caloiros nervosos vindos de todo o mundo para Nova Iorque, na esperança de nos tornarmos as grandes mentes do futuro, e passaríamos o resto da semana a participar juntos nas actividades de integração.
Supostamente, aqueles seriam os nossos primeiros amigos da universidade.
Não me recordo de uma única pessoa daquele grupo de orientação, mas posso dizer-vos que a monitora — uma estudante do terceiro ano, irritadiça, oriunda do Connecticut — não ficou muito satisfeita comigo durante a minha primeira semana no campus.
Lembro-me de cruzar o olhar com ela logo depois de ela ter lido as instruções para a nossa primeira actividade de quebra-gelo: devíamos dizer o nosso nome, de onde vínhamos, o curso que pretendíamos seguir e os nossos pronomes.
Pronomes?
Enquanto mordiscava o lábio inferior ressequido, senti imediatamente uma espécie de síndrome do impostor. Teria eu, futura estudante de Inglês e apaixonada pela gramática e pela palavra escrita, esquecido o que era um pronome?
Aquilo não fazia sentido naquele contexto.
Comecei a percorrer mentalmente as classes gramaticais, duvidando de tudo o que aprendera na escola. Os verbos eram palavras de acção. Os adjectivos descreviam características. As preposições indicavam tempo, lugar ou localização. Os pronomes... os pronomes...
Os pronomes eram palavras que substituíam nomes para evitar repetições desnecessárias no discurso ou na escrita. Eu não estava louca — até os tínhamos estudado nas aulas de francês: tu, il, elle, nous, vous.
Será que de repente estávamos a aprender línguas?
À medida que os meus colegas anunciavam as suas cidades natais e os cursos que pretendiam frequentar, a minha mente acelerava. Não fazia ideia do que deveria dizer.
Parecia que toda a gente estava simplesmente a declarar os pronomes da terceira pessoa que correspondiam ao seu sexo.
Mas porquê?
Ali estava eu, com rímel e um vestido azul-claro, a procurar numa pequena mala uma garrafa de água que tinha tirado do refeitório — e estavam a pedir-me que confirmasse se eu era mulher.
— Sou a Liza — gaguejei. — Sou de Chicago e vou estudar Inglês. Os meus pronomes...
Olhei para o vazio, ficando vermelha enquanto quinze pares de olhos me observavam à espera.
— Os meus pronomes são ela e dela.
Meus amigos, essa foi a primeira e a última vez que alguma vez declarei voluntariamente os meus “pronomes”.
Mas naquela altura ainda tentava integrar-me.
Ignorei o assunto até à reunião seguinte da orientação — a última actividade a que assistiria antes de fingir que tinha febre e faltar ao resto da semana.
Estávamos numa velha sala de aula do famoso Hamilton Hall de Columbia (o mesmo edifício ocupado por manifestantes pró-Palestina em 2024). A monitora dividira o quadro branco em sete colunas e pediu-nos que colocássemos notas autocolantes com cada um dos nossos “identificadores” nas respectivas categorias: sexo, género, estatuto socioeconómico, raça, etnia, orientação sexual e capacidade.
A Liza de dezoito anos — que nunca ouvira falar da categoria “capacidade” — escreveu “normal” no seu papel e afixou-o orgulhosamente no quadro.
No final da actividade, fui chamada à parte e recebi uma severa lição sobre “capacitismo”.
Não faz mal, pensei. As aulas vão começar em breve — e vou encontrar os meus pares mais tradicionais no departamento de Inglês.
Mas, no primeiro dia do seminário de Inglês do primeiro ano, deram-nos textos do chamado crítico literário Edward Said.
O capítulo em questão — retirado do seu famoso livro Culture and Imperialism — incidia sobre Mansfield Park, de Jane Austen.
Aquilo pareceu-me estranho. Porque estávamos a ler uma crítica a um livro sem primeiro termos lido o próprio livro?
Eu tinha lido Mansfield Park no secundário, pelo que conseguia acompanhar o argumento de Said: que o romance era sobre colonialismo e imperialismo.
Teríamos lido o mesmo romance? Ou, como muitos dos outros estudantes que estavam a ler crítica antes da obra original, teria Said simplesmente inventado uma interpretação sem nunca se ter confrontado seriamente com o texto?
Nessa noite, pediram-nos um pequeno comentário escrito sobre o capítulo de Said para preparar a discussão da quinta-feira seguinte.
«O argumento de que Mansfield Park só pode ser compreendido a partir de uma perspectiva colonial parece completamente descabido», escrevi. «A entrada de Fanny em sua casa como metáfora de uma força colonizadora é uma interpretação excessivamente forçada.»
A professora não ficou impressionada. Na sua opinião, eu não tinha compreendido adequadamente o argumento de Said e, além disso, pouco importava se Mansfield Park era ou não sobre imperialismo; o importante era que Jane Austen era cúmplice da expansão imperial britânica.
Hã?
Antes que me apercebesse, estava a ler Edward Said em praticamente todos os seminários de Inglês; os professores que ainda não tinham sucumbido à febre Said enchiam as listas de leitura com excertos de Karl Marx e Judith Butler — teóricos que definiam o currículo de Inglês, mas que pareciam ter pouco ou nada a ver com a própria literatura.
Com cada seminário que frequentava, o objectivo geral do departamento de Inglês de Columbia tornava-se cada vez mais claro: estes professores desejavam colectivamente usar a literatura como uma força de resistência contra as “forças iliberais”, para tornar a sociedade mais justa.
Mas para mim — alguém cujos pais tinham fugido da União Soviética — o marxismo estava longe de ser sinónimo de liberalismo.
Claro que não havia nada de errado em tentar tornar o mundo mais justo e equitativo — e muitos grandes escritores tinham trabalhado nesse sentido: Shelley, Ibsen, Orwell, entre outros. Mas a promoção da justiça social era apenas um dos possíveis resultados do envolvimento com a literatura, não o seu único objectivo.
No entanto, se perguntassem a alguém do meu departamento, literatura era inseparável de resistência e justiça.
Como tinha eu chegado, então, a uma conclusão tão radicalmente diferente?
Comecei a observar padrões nas listas de leitura das minhas disciplinas de Inglês. Havia sempre abundância de teoria literária — mas poucas obras literárias propriamente ditas. Tinham-nos entregue teoria literária no primeiro dia de aulas sem primeiro nos darem literatura para ler.
Os departamentos de Inglês tinham substituído lentamente a literatura pela teoria literária — e de forma tão subtil que quase ninguém parecia ter dado por isso.
A verdade é que, no departamento de Inglês de Columbia, o “cânone ocidental” era considerado “racista” e “eurocêntrico” — e, se um texto não fosse de uma mulher multicultural e bissexual, raramente era introduzido nas salas de aula. Sim, existia um seminário sobre Shakespeare, mas não sem um ou outro professor insistir que Shakespeare era homossexual ou até uma mulher, ou ensinar as suas peças através da lente do “desejo queer”.
Quando cheguei ao mestrado, a própria literatura tinha sido completamente relegada para segundo plano. Presumia-se que todos já tinham lido os clássicos importantes durante a licenciatura e que apenas restava estudá-los através de diferentes teorias. A única disciplina obrigatória para todos os estudantes do meu programa de mestrado consistia inteiramente em teoria e não incluía qualquer obra literária — num curso de literatura inglesa.
Tinha vindo para Columbia anos antes para estudar Inglês porque amava a tradição e a beleza. Para mim, a literatura é uma extensão de uma tradição milenar de contar histórias e, numa universidade cujo edifício neoclássico ostenta os nomes dos grandes escritores do Ocidente, esperava encontrar muitos outros amantes das humanidades que se agarrassem à beleza e à tradição com toda a alma.
Em vez disso, encontrei estudantes e professores que apenas queriam destruir tudo aquilo que eu amava, chamando a esse processo “literatura inglesa”.
Mas os verdadeiros estudiosos das humanidades sabem que a literatura trata da compreensão da beleza, da cultura, da arte e da sociedade — daqueles aspectos especiais que nos tornam singularmente humanos — e não de activismo político radical.
Chamamos a isto a tradição humanista — e é precisamente essa tradição que foi abandonada pelos departamentos de Inglês em todo o mundo.
Sei que não sou a única pessoa a abordar o estudo da literatura desta forma. Vim para Columbia para fazer parte de uma tradição duradoura, e as tradições não desaparecem apenas porque as instituições as abandonam. As tradições sobrevivem, e basta um ou dois crentes para as revitalizar completamente.
Ao regressarmos à estética e à beleza, podemos fazer a nossa parte para salvar a literatura e restaurá-la ao seu devido lugar na tradição humanista.
Porque, afinal de contas, a literatura continua a ser a nossa melhor esperança para compreender não apenas o mundo que nos rodeia, mas também a nós próprios.