November 05, 2026

«O objetivo não é ter mais informação, mas sim compreender melhor.» — Arthur C. Clarke




Ao contrário do que pensam os alunos, a maioria dos pais e os governantes, o acesso das crianças e jovens à internet não tornou os alunos mais inteligentes e tornou o ensino extremamente difícil. E não falo apenas dos malefícios psicológicos e relacionais das redes sociais, nem dos efeitos devastadores do consumo de pornografia ou da dependência de estarem sempre entretidos com excesso de imagens em velocidade e sons ruidosos. Falo do acesso a catadupas de informação errada.

Antes dos telemóveis com as redes sociais invadirem as vidas e as mentes de todos, os alunos vinham menos informados. Para terem acesso a informação sobre os avanços espaciais e a dinâmica dos planetas, por exemplo, teriam de chegar ao secundário ou, até, à universidade. Agora já viram imagens simuladas do funcionamento da mecânica e dinâmica celestes aos 5 anos de idade. 

O efeito perverso desse tsunami de informação que se abate sobre eles desde que lhes põem um telemóvel ou um tablet nas mãos, que é quase desde que nascem, com acesso à internet, está em que têm a sua caixa de correio mental atafulhada de falsas informações que carregam como verdade insofismáveis. E como os pais também confundem o excesso de informação com sabedoria e inteligência, constantemente reforçam essa ideia de que não precisam de autoridades epistémicas, nomeadamente professores, porque têm acesso a todo o conhecimento "à distância de um clique."

Entre dois males é preferível um aluno chegar com ignorância do que chegar com falsos conhecimentos já sedimentados. Porque a ignorância não é um mal em si e resolve-se com aprendizagem, mas os falsos conhecimentos já sedimentados são extremamente difíceis de desincrustar e é isso que tem de fazer-se antes de se poder construir seja o que for. Não só é extremamente difícil como eles resistem a abrir mão desses falsos conhecimentos. E chegam às aulas atafulhados de absurdidades e excesso de auto-confiança na certeza desses absurdos.

Para além de não pensarem, não saberem pensar e não saberem que não sabem pensar, vivem imersos no mundo da materialidade consumista. Vêem-se, não como produtores de cultura e de mundo, mas como consumidores do mundo e, desde logo, como consumidores de direitos. Como consumidores de direitos que pensam ser, vêem-se como clientes e aos outros todos como servidores dos seus direitos.

Uma frase que agora dizem muito é: 'não pedi para nascer e obrigam-me a vir à escola e eu venho mas não tenho que fazer nada. Os professores é que têm de tornar as aulas divertidas, fazer com que eu me interesse pelas matérias e explicar-me tudo o que não sei."

A maioria dos alunos actuais não tem respeito nem valoriza o conhecimento pela razão de o pensarem como algo que está ali à sua disposição, na internet, sem custos. Se não custa dinheiro é porque não tem valor. 

Uma, cada vez maior, percentagem de alunos, não percebe porque tem de ir à escola, a não ser para disciplinas como a matemática ou a física que não conseguem perceber sozinhos. Tudo o resto, pensam que já têm em quantidade suficiente e de fácil acesso na internet. "Mas eu vi na internet" é agora a resposta mais comum sempre que lhes dizemos, a propósito de qualquer absurdo que dizem, "isso é falso." Ou então, a propósito de algo que dizemos, 'já sabia isso, vi numa janela que se abriu no Tik Tok.'

O objectivo da aprendizagem, do conhecimento, não é ter mais informação per si, mas sim compreender melhor. Porém, cada vez mais alunos, quando chegam às minhas aulas já vêem adulterados com excesso de informação inútil e falsa que processaram como conhecimentos.

O conhecimento não é um direito. O acesso ao conhecimento, sim, é um direito. Daí a escola. No entanto, o acesso ao conhecimento não é uma garantia de conhecimento porque os conhecimentos não se 'dão', constroem-se. Exigem do aluno curiosidade, disponibilidade mental para caminhar em novos sentidos que requerem esforço mental, perseverança, capacidade de lidar com obstáculos, disciplina, respeito pelo conhecimento. Quem pensa que já sabe tudo não vai aprender nada.

Estive a ler por alto o novo documento da Educação Inclusiva. Em lado algum vi a palavra 'dever'. Só direitos. As obrigações são todas dos professores e da escola, algumas dos EE. Talvez as pessoas pensem que aquelas medida de inclusão se dirigem a alunos com problemas como autismo e outros problemas graves. Não, esses são 1 ou 2. 

Nos dias de hoje quase todos os alunos têm medidas de inclusão se quiserem e o número cresce tão depressa que há turmas do básico onde quase todos as têm. Há uma pressão muito grande da escola (há equipas para essas medidas a quem isso interessa) e dos pais para pôr os alunos com medidas de inclusão porque essas medidas resultam em os filhos terem condições especiais de facilidade. Assim, é muito comum alunos que não se interessam pelo estudo ou até que têm mau comportamento terem medidas de inclusão e, dessa maneira, terem interiorizado a ideia de que a escola lhes deve tudo e piorarem o seu comportamento de estudantes porque têm essa auto-desculpa de dizer que têm medidas e portanto, devemos ter uma paciência especial com eles.

Como diz aquele estudo da Universidade de Harvard, Leveled Reading, Leveled Lives: How Students' Reading Achievement Has Been Held Back and What We Can Do About It, diferenciar os alunos por baixo, na aprendizagem da língua, na prática, pô-los a aprender textos mais fáceis (medidas de inclusão baseadas na ideia de que cada aluno tem a sua maneira de aprender) tem prejudicado o desempenho em literacia nas escolas dos EUA ao longo de cinco décadas.

O documento da inclusão começa logo por dizer que todos os alunos têm capacidades de aprendizagem. Sim, é verdade, mas não é verdade que todos tenham as mesmas capacidades e que as tenham para tudo e que a equidade seja serem todos iguais. Porém, é isso que dão a entender no documento e é isso que os alunos e os pais absorvem. Não é a realidade. 

Nos extremos, há alunos com enorme talento natural para certas disciplinas, como a matemática ou a língua ou o desenho ou a atração e compreensão dos fenómenos da natureza ou o desporto ou a mecânica ou a filosofia, etc. e há alunos que não têm nenhum talento para uma dessa disciplinas ou várias. É claro que os alunos que não têm nenhum talento para uma certa área do saber e da vida também têm capacidade (maior ou menor) de aprendê-la, mas isso já não depende apenas do professor, da escola ou de medidas especiais, embora no início, na escola primária, dependa muito - daí a importância fundamental da qualidade dos professores primários. Vai depender do trabalho e esforço que o próprio aluno puser no desenvolvimento das suas capacidades à medida que cresce.

Ora, se desde sempre dizem aos alunos que todos podem ser tudo o que quiserem (aquela frase vazia que repetem à exaustão a Liberdade de Ser) e que a educação e o conhecimento são direitos sem nenhum dever ou esforço, é isso que eles interiorizam e depois exigem.

Apenas um exemplo ilustrativo. Há poucos anos um pai cujo filho tinha notas negativas e trabalhava zero para melhorar e até faltava aos apoios, no fim da reunião de EE do 3º período, veio ter comigo e disse, 'Bem, com estas notas (negativas em todas as disciplinas específicas e nas outras pouco melhor) se calhar é difícil o S. ir para medicina, não? É que ele queria muito'. Se fosse há uma dúzia de anos ficava sem palavras mas agora já me habituei a estas absurdidades. Disse-lhe que para ir para um curso de medicina é preciso ter médias de 18, pelo menos, e depois ir aos exames tirar 18, pelo menos. Resposta: 'Pois. Então se calhar terá de escolher uma engenharia'. Como se os cursos de engenharia fossem para alunos com negativa a matemática, física... Estamos nisto. E o que vejo é que vem aí mais do mesmo. 

Não tenho dúvida que a época áurea do conhecimento e do florescimento das ciências no Ocidente já passou. A ideia de que «o objetivo não é ter mais informação, mas sim compreender melhor» já passou.

2 comments:

  1. Esse caso desse pai parece uma anedota. Tens razão no que dizes mas ninguém liga nenhuma ao que dizem os professores. Têm lá as suas ideologias, os seus conselheiros e pedagogos com as suas narrativas que passam à frente de tudo. #Nena

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