E chama ao artigo, O bege e a habitação (Henrique Raposo). Uma lenga-lenga para dizer que actualmente as pessoas compram as casas para revenda como se todos os compradores fossem especuladores imobiliários. O que é falso. A maioria dos portugueses -mais de 70%- tem casa própria e os jovens querem casa para morar. Raposo fala como se todo o país fosse especulador. Quem não consegue alugar ou comprar uma casa são os jovens (não falo no milhão de imigrantes que importaram num par de anos sabendo que não tínhamos estruturas para tanta gente. O PS, o BE e o PCP que respondam por isso). É certo que os jovens têm salários baixos e empregos precários (isso é o pior), mas também é verdade que não se fixam em nenhum trabalho e não investem o seu esforço para melhorar. Quando comprei uma casa foi nos anos 80, no meio de uma grande crise com o país endivido ao FMI e quando as condições de vida eram 1500 vezes piores que hoje. Havia racionamento de leite. Todos os serviços eram mil vezes pior e a vida era difícil. Ninguém nos resolvia nada. Tinha um salário de professora, sem nenhum benefício - só muito depois tivemos alguns. Não estava à espera que o Estado me desse uma casa. Não me passava pela cabeça exigir uma casa ao Estado. Não era sozinha, éramos dois com dois salários, mas trabalhávamos estupidamente. Durante uns anos foi difícil. Levantar às 5 da manhã para ir trabalhar todos os dias e voltar às 8 da noite. Um horário brutal longe daqui. Durante dois anos o que havia aqui em casa era uma mesa e umas cadeiras, um sofá pequeno, uma cama, uma TV, pratos para comer e pouco mais. Tenho seis irmãos, somos sete e por essa altura o meu pai já tinha morrido, a minha mãe tinha ficado sozinha uns anos antes, com sete filhos em idade de estudar, e desde então não havia dinheiro para dar coisas aos filhos. As coisas foram-se comprando aos poucos. Também não ia de férias para fora do país. Poupava-se muito para pagar o empréstimo ao banco. Muitos dos meus amigos e conhecidos fizeram o mesmo. Não vejo os jovens nos dias de hoje estarem dispostos a isso. Não querem estudar, mas querem as notas, não querem trabalhar mas querem o emprego. Despedem-se por dá cá aquela palha. Rejeitam imensos empregos, porque têm muitas exigências. Querem os benefícios do fim do caminho mas não querem dar os passos para lá chegar. Não têm iniciativa. Tal qual como na escola ficam à espera que lhes dêem as notas sem ter que trabalhar, também depois ficam à espera que o Estado lhes arranje soluções. A energia que gastam a organizar arruadas e acampadas, podiam canalizá-la para fins mais úteis à sua própria vida. Os mais ignorantes e fúteis vêm para a rua partir coisas e dizer que é preciso uma revolução violenta. Dá vontade de os pôr na Ucrânia ou no Irão, para acordarem para a vida. Esta semana ouvi uma representante de estudantes em França (uma Alice de Brito) falar. Perguntaram-lhe quais as reivindicações. Primeira coisa que diz: 'acabamos o liceu e vamos à plataforma para inscrever para a universidade e não temos vaga porque as vagas são para quem tem melhores notas. Não é justo. Queremos que haja lugar para todos'. Perco logo o respeito por ela e pelo grupo que representa. São pessoas sem cabeça e sem seriedade. É como o outro que parte as lojas dos chineses porque os chineses têm boas casas e ele acha injusto. Mas só parte coisas, não está para trabalhar para as conseguir. Hoje-em-dia as pessoas vivem fora da realidade porque alguém lhes disse que têm direito a tudo.
Já reparou que o mundo está mais feio? Sim, hediondo. Mas esta fealdade não vem do lado do pérfido, da pobreza, da pústula, mas sim do exato oposto: a mesmice burguesa bem-comportada, a ausência de marcas individuais nas casas e roupas, a repetição do mesmo padrão bege. Sim, bege. Não suporto mais casas bege, padarias bege, pessoas bege. Alguém, talvez uma entidade superior, talvez Íris, embora me contente com Baco, tem de derramar neste mundo um arco-íris.(...)
(...) a ortodoxia castanha e bege que colonizou as cidades neste século. Os edifícios de hoje são mais caixas do que edifícios, caixas lisas de metal e vidro. Todos os cafés parecem iguais, têm um aspeto de boutique onde não se pode estar, só visitar. As casas, por dentro, também são palimpsestos umas das outras. Parece que o bom gosto passou a ser o mesmo que não ter gosto. Eu prefiro um mundo kitch e de mau gosto do que esta terraplanagem do insonso, do monocórdico, do ódio ao ornamento. Como dizia o saudoso George Steiner, esta é uma sociedade obcecada com o design, que é em si mesmo uma obsessão com o útil; ora, sucede que a beleza vem do inútil, do excêntrico, do caos criativo. Uma parede às riscas é inútil mas é bela. Uma cornija é inútil e elegante. Uma estátua de uma gárgula é inútil e misteriosa. Um entalhe é inútil e gracioso. E este ponto leva-me de novo ao mercado e à forma como a casa passou a ser um investimento e não um lar.
(...)
É por isso que a casa não vai ter as marcas peculiares, as cores diferentes, os móveis esquisitos, a desordem, as camadas e camadas de humanidade que vão acamando nos móveis. Nada disso: vai ser um espaço clean, destituído de cor e humanidade, porque vai ser revendido, e revendido, e revendido. Claro que isto corta os laços de comunidade.
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Em suma, transformaram a habitação na Bolsa de valores, o que reforça, pelo lado do mercado libertário, uma das marcas da tal pós-modernidade: a ausência de vínculos, de casa, de raízes, de filhos, de futuro. Neste quadro, como é que querem que as pessoas tenham filhos? Como é que os jovens podem começar a vida adulta se tudo à sua volta é líquido, fluido, temporário? Querem apaziguar a malaise crescente? Criem as condições para que a habitação seja um lar, e não um investimento. Se o statu quo não mudar, corremos o risco de ver esta geração a queimar tudo, de uma maneira ou de outra, porque não tem uma ideia de lar. Pode queimar através do fogo (violência) ou através do gelo (ausência de filhos).
Vão já chamar-te fascista. #Nena
ReplyDeleteRala-me muito. Estão na AR, no lugar de mudar as coisas mas só sabem andar a gritar na rua e a chamar fascista.
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