Ontem fui ver a ópera Carmen ao CCB. É uma ópera de Bizet que estreou em 1875, em Paris, pouco antes de ele morrer.
Não vou dizer aqui do que gostei e do que não gostei. Vou só dizer que a meio da ópera, numa cena passada na montanha, aparece um tipo que desfralda um cartaz que pendura lá num adereço do cenário onde se lê, 'menos Franco e mais pão Branco' (a minha irmã que já não vê bem ao logo, leu, 'menos frango'). Passado um bocado apareceram bandeirinhas portuguesas e espanholas e fizeram subir uma bandeira com a cruz suástica...
O que é que Bizet e a ópera Carmen têm que ver com Franco ou com o nazismo? Estavam quase a 100 anos de aparecer. Sim, há na ópera uma referência a grupos marginalizados, neste caso os ciganos, que se descrevem como boémios e livres.
É uma história sobre liberdade intrínseca. A liberdade de amar quem se quer e a liberdade das mulheres não se submeterem a nenhum homem. Carmen, que trabalha com as amigas numa fábrica cigarreira, faz parte de um bando de ciganos que contrabandeiam álcool e tabaco. Não são oprimidos por nazis e é abusivo fazer essa ligação. E se a ideia era educar o público na opressão de forças totalitárias, porque não puseram a bandeira com a foice e o martelo estalinista, ao lado da nazi?
A ópera é uma obra sobre a violência masculina, a incapacidade dos homens aceitarem a rejeição e a forma como se transformam em seres violentos. A Carmen é assassinada pelo ex-amante porque se apaixonou por outro. Que tem isto que ver com o nazismo e com Franco?
Há uma certa pseudo-elite que transforma todos os eventos culturais em homilias identitárias para fazer avançar a sua ideologia. Acreditam mesmo que são moralmente superiores e que têm a missão de evangelizar o povo para o socialismo/comunismo. São fanáticos. Não apreciam nada per si. Tudo tem de ser utilitário. Se estamos a admirar uma obra de arte, põem um texto ao lado a dizer que o pintor era opressor ou oprimido ou que tinha privilégios ou que votou na direita.
Misturam tudo sem nenhum interesse pelo rigor e são obcecados em obrigar toda a gente a ter a sua visão de túnel pobre, enviesada e adulterada para converter os outros à sua ideologia. São como um culto religioso fanático. Evangelistas radicais em versão secular.
Não se pode interpretar o final do século XIX em França e em Espanha com os movimentos anarcas à luz do nazismo ou do franquismo. Uma desonestidade intelectual.
Temos que estar sempre a levar com as sua homílias unineuronais.
Muitos destes indivíduos da nova-esquerda dão aulas em universidades. As suas aulas devem ser insuportáveis. Uma catequese constante de slogans, uma revisão da história e dos grupos sociais para caberem nas suas narrativas unineuronais - como aquela que dá aulas aí num politécnico e que avalia os alunos nos testes pela sua capacidade de serem contra o Chega. Pessoas postiças. Nós vemos muito bem quando estamos a lidar com pessoas reais ou quando são pessoas postiças.
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