A paranoia das fusões no ministério: a alquimia de somar dois desastres
João Conde
Hoje, graças à gloriosa AI2, exige-se a um investigador que estuda os padrões migratórios do lince-ibérico que apresente um plano de negócios robusto e uma demonstração de retorno comercial a três anos para garantir financiamento. O desastre desta fusão não foi um acidente de percurso. É o corolário lógico de quem acha que juntar a fome à vontade de comer produz, por decreto, um banquete farto. Para gáudio das grandes consultoras, que faturavam milhões a traduzir aborrecidos relatórios de biologia molecular para a vibrante novilíngua do empreendedorismo, espera-se que o próximo passo seja extinguir as defesas de tese. No novo modelo abençoado pela AI2, o doutorando terá de provar o mérito da sua investigação num pitch de três minutos no palco principal do Web Summit, competindo por fundos públicos com uma start-up que acabou de inventar uma coleira com Wi-Fi para iguanas.
(...)
Não temos docentes suficientes para a estrutura atual, logo redefinimos a estrutura [a junção do 1º e 2º ciclos-parêntesis meu] para fingir que a escassez é uma “otimização de recursos partilhados”. É a gestão da miséria elevada à categoria de arte abstrata. Neste modelo maravilhoso de “escola do futuro”, as crianças do 1º ciclo, que precisam de estabilidade e de um professor titular de referência, passam a ser peões num gigantesco tetris de horários escolares. O cenário promete ser um glorioso estudo de sobrevivência darwiniana, com pré-adolescentes de 12 anos, imersos nos primeiros picos hormonais, a partilharem o mesmo exíguo ecossistema com crianças de 6 anos acabadas de chegar do jardim de infância. Tudo sob o pretexto de uma maravilhosa “verticalidade da articulação curricular” que, traduzida para português corrente, significa entregar aos raros assistentes operacionais sobreviventes a missão de atuarem como capacetes azuis da ONU para evitar que o recreio se transforme numa adaptação livre de “O Senhor das Moscas”.
Claro que, para o génio ministerial, isto é um detalhe. Se hoje os grupos de Português e Inglês do 2º ciclo já só conseguem assegurar a substituição de 37% dos pedidos das escolas, a solução é esticar os parcos sobreviventes para cobrir os dois ciclos. Os professores do 2º ciclo, já exaustos por carreiras congeladas e quotas de avaliação humilhantes, tornam-se tarefeiros polivalentes, prontos a tapar buracos onde quer que o algoritmo de contratação falhe.
Ao aniquilar as fronteiras do saber em nome dos famigerados “projetos transdisciplinares flexíveis”, o ministério não está a inovar, está a oficializar o desespero. O docente ideal desta “nova era fundida” deixou de ser um especialista para se metamorfosear num animador sociocultural em burnout crónico. Espera-se que lecione frações de manhã, debata a queda do Império Romano à tarde, preencha grelhas de avaliação socioemocional com 80 parâmetros intangíveis e, se possível, organize um peddy-paper com os pais para angariar fundos para o papel higiénico da escola. No fundo, o ministério descobriu o Santo Graal da administração pública. O segredo para resolver a falta de professores é passar a precisar legalmente de menos professores, operando um despedimento coletivo disfarçado de reforma pedagógica humanista.
Estamos entregues a uma máquina ministerial que desistiu de governar e passou a dedicar-se à arquitetura de fachadas. A este ritmo de fusões compulsivas para mascarar a falência dos serviços públicos, já só falta o derradeiro golpe de génio. Fundir o Ministério da Educação com o Ministério das Finanças, extinguir os recintos escolares para rentabilizar património imobiliário e passar a emitir os diplomas de final de curso diretamente na repartição de Finanças mais próxima. Ao menos poupava-se na hipocrisia.
https://expresso.pt/ (excertos)
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