Ensinei um conto. A minha faculdade despediu-me por isso. A censura académica existe mesmo.
Vinita Prabhakar
A carta, datada de 12 de fevereiro, com o timbre do South Florida State College e entregue em mão pelo diretor dos Recursos Humanos, continha quatro frases.
Seria colocada em licença administrativa remunerada até ao final do meu contrato. O contrato não seria renovado. Seria imediatamente dispensada de todas as funções letivas. Uma frase final disponibilizava os contactos caso tivesse alguma dúvida.
Eu tinha muitas.
Naquela tarde, estávamos no gabinete do reitor: eu, o meu reitor, o director do departamento e o diretor dos Recursos Humanos. O meu director de departamento e o meu reitor — que, nos dias anteriores, tinham dado a cara por mim — pareciam estar em estado de choque.
Perguntei repetidamente ao director dos Recursos Humanos qual era a queixa. Não havia nenhuma. Disseram-me que um funcionário tinha apresentado uma «queixa verbal». Quando insisti e exigi saber o que tinha feito de errado, o diretor dos Recursos Humanos respondeu: «Ensinou um conto que não estava no manual.» O meu director de departamento observou imediatamente que os professores tinham autorização para utilizar recursos externos. A resposta foi: «O presidente tem a palavra final.»
O director dos Recursos Humanos disse-me que precisava das chaves do meu gabinete. As minhas contas de e-mail seriam bloqueadas.
Quando me acompanhou para ir buscar os meus pertences, parecia inesperadamente emocionado. Eu tinha ensinado a filha dele. Tinha-a visto radiante ao atravessar o palco na cerimónia de graduação.
De alguma maneira, consegui conduzir até casa.
Os meus pais chegariam no dia seguinte e eu não tinha a certeza de conseguir fingir que estava tudo bem diante deles. No início daquele ano, o vice-presidente da faculdade tinha-me convidado para exercer o cargo de presidente do Conselho do Corpo Docente no ano lectivo seguinte. Eles estavam tão orgulhosos.
Passei a maior parte da minha carreira a ensinar em pequenas instituições privadas de artes liberais no norte do estado de Nova Iorque. Em 2023, decidi mudar-me para o sul da Flórida, para ficar mais perto dos meus pais, que estão agora na casa dos oitenta. Deixei um lugar seguro no Ithaca College — o meu contrato tinha acabado de ser renovado por mais cinco anos — para vir trabalhar numa faculdade pública cujos valores declarados partilhava: «a livre troca de ideias num ambiente que abraça a honestidade, a justiça, a responsabilidade pessoal e a liderança ética».
Mudei-me para aqui de boa-fé, de coração e espírito abertos, e com esperança de que as coisas melhorassem. O meu processo de recrutamento foi memoravelmente caloroso, sem a dissimulação e a pretensão que por vezes caracterizam o mundo académico. Fred Hawkins ainda não tinha chegado como presidente. Por isso, na minha última entrevista, quando o vice-presidente me disse: «Somos uma comunidade; somos uma família e cuidamos uns dos outros», eu acreditei.
Talvez seja por isso que a ferida seja tão profunda.
O meu presente e o meu futuro tinham-me sido arrancados de repente. Em quatro frases. Por um presidente de faculdade sem qualquer experiência profissional na área da educação, que nunca tinha posto os pés na minha sala de aula. Por causa de um conto.
O conto que desencadeou tudo foi Bettering Myself, da escritora premiada Ottessa Moshfegh, um conto que eu ensinava há mais de uma década, incluindo nos seis semestres no SFSC que antecederam a minha remoção, em Fevereiro de 2026. A protagonista é a disfuncional ao extremo Ms. Mooney. A narrativa — com as suas referências pouco saudáveis a sexo, drogas e álcool — é uma espécie de retrato à Picasso que pergunta ao leitor se existe algum valor narrativo na descida sem filtros de uma personagem para um estado de degradação ainda maior do que aquele sugerido pelas cenas iniciais.
As discussões em torno do conto são sempre animadas. Começamos com uma lista das reações instintivas e ainda não processadas dos estudantes («Louca», «Real», «Vulgar», «Demasiada informação», «Que nojo», «Porquê? Porquê?») e depois avançamos para verdades mais profundas: será que o conto cumpre, em última análise, a promessa do seu título? Como se compara a voz narrativa desviante na primeira pessoa com narradores masculinos moralmente comprometidos de exemplos mais canónicos? Poderá a literatura colocar questões difíceis sem oferecer respostas confortáveis?
Tenho um enorme respeito pelos meus alunos enquanto grupo e, em particular, pela sua capacidade demonstrada de estar à altura do desafio e aprender com histórias que podem desafiá-los para além dos limites da sua própria experiência. Os meus alunos do South Florida State College fizeram-no consistentemente com curiosidade, abertura e riso e eram — sem comparação — a melhor parte do meu trabalho. Ter conversas difíceis na sala de aula é uma forma de não deixar que elas nos destruam fora dessas paredes.
Eu não estava a pedir aos meus alunos que gostassem do conto. Apenas que o enfrentassem. A literatura que nunca nos inquieta pode ser confortável, mas é incompleta — higienicamente livre de debate, fricção e descoberta.
Mas descobri que nem todos concordam.
No dia 6 de fevereiro, o meu director de departamento informou-me por mensagem de que um funcionário ou administrador tinha enviado o conto ao presidente Hawkins e que «isso não tinha corrido muito bem». Acrescentou: «Ninguém está metido em sarilhos, mas temos de tratar disto.» Não sei quem enviou o conto. Numa conversa com o meu director de departamento, fiquei apenas a saber que a pessoa o considerava simultaneamente ofensivo e inadequado.
Os limites impostos ao currículo no estado da Flórida vinham-se estreitando progressivamente. Diziam-nos que tínhamos de ter cuidado com a linguagem relativa à raça, ao género ou à diversidade nos nossos programas, mas também existia a sensação de que podíamos manter alguma autonomia relativamente aos conteúdos, desde que cumpríssemos os objectivos da disciplina e os resultados de aprendizagem dos estudantes, respeitando o currículo.
O que me aconteceu parece estar algures entre Good Night, and Good Luck e Footloose. Sim, aconteceu no âmbito da campanha política mais ampla da Flórida sobre aquilo que pode ser ensinado nas salas de aula universitárias. Mas houve também algo de puritano na própria reacção e na forma como estas duas forças convergiram: um clima político em que os administradores estão cada vez mais atentos à controvérsia ideológica e um pânico quase ofegante relativamente àquilo que os estudantes devem ou não ter autorização para encontrar.
No dia 9 de fevereiro, a pedido do meu director de departamento e do vice-presidente, apresentei uma justificação para a utilização de Bettering Myself na minha disciplina e recebi respostas positivas tanto do meu director como do reitor. No dia 10 de fevereiro, disseram-me que o presidente tinha envolvido funcionários do Estado e parecia determinado a despedir-me. O meu director, o reitor e o vice-presidente disseram-me que tinham respondido defendendo o meu historial de ensino, as avaliações de desempenho, o serviço prestado à faculdade e o meu compromisso com os estudantes, sublinhando que eu não era «uma agente política».
Na manhã de 11 de fevereiro, tive a minha reunião com o presidente Hawkins, um homem com quem nunca tinha interagido formalmente. Sabia que o meu director de departamento, o reitor e o vice-presidente estariam presentes. No início, eu continuava sem perceber claramente o que tinha feito de «errado», mas a esperança de que seria uma reunião colegial dissipou-se rapidamente com a presença adicional do director dos Recursos Humanos.
O presidente Hawkins evitou o contacto visual e ofereceu-me aquilo que vim a descobrir que se chama um aperto de mão de escuteira. A conversa informal sobre o cão dele, a mulher e o Dia dos Namorados contrastou fortemente com a sua abertura: «Ainda não decidi o que vou fazer relativamente à sua posição.»
Quando me deram a palavra, descrevi os meus vinte anos de ensino, a minha concentração nas ideias em vez da ideologia e o meu compromisso em ajudar os estudantes a desenvolver o seu próprio pensamento. Expliquei a minha decisão de deixar um lugar seguro no norte do estado de Nova Iorque para ficar mais perto dos meus pais e ensinar numa faculdade pública.
Ele ignorou praticamente tudo isto. Em vez disso, exigiu saber por que razão tinha escolhido o conto e por que motivo este fazia parte da lista de leituras apenas das minhas aulas presenciais e não das aulas online. Expliquei que os materiais difíceis merecem uma discussão presencial e remeti também para a justificação que tinha apresentado. Ele respondeu: «Nunca mais quero ver este conto, não gostaria que a minha filha o lesse», acrescentando que «isto é político» e que «a Flórida também tem restrições».
A reunião terminou pouco depois e eu e o meu director saímos, ambos à beira das lágrimas. No dia seguinte, 12 de fevereiro, recebi a minha carta de despedimento, com as suas luzes de néon a piscar: licença administrativa remunerada até ao final do contrato. O contrato não seria renovado. Dispensa imediata de todas as funções lectivas.
Eu sei tudo sobre restrições. Sou cidadã norte-americana há 18 anos. Mas, onde cresci, no Médio Oriente, assisti a uma forma diferente de intrusão da política na sala de aula. Era o Dubai no início dos anos 80. Antes das estâncias de esqui, dos hotéis nas ilhas e dos excessos.
Uma vez por ano lectivo, um representante do Ministério da Educação entrava na sala de aula, distribuía marcadores pretos e pedia-nos que abríssemos os nossos atlas. Mostravam-nos onde localizar Israel no mapa. Tínhamos de usar os marcadores para riscar a palavra. Depois, recebíamos a mesma instrução relativamente ao dicionário. No nosso livro de História, as páginas que cobriam partes da Segunda Guerra Mundial tinham sido coladas umas às outras. A cronologia saltava de Mein Kampf para as reparações pós-guerra. Alguns de nós tentámos «descozer a vapor» as páginas, abrindo-as sobre uma panela com água a ferver, e acabámos por fazer uma massa empapada e escaldante. Alguém precisou de pomada.
Quando perguntámos à nossa professora pelo conteúdo que faltava, ela disse baixinho: «Se falar sobre isso perco o emprego.» Décadas mais tarde, eu perderia o meu por ter feito uma escolha diferente.
Essas experiências tinham praticamente desaparecido nas brasas da memória. Mas, depois de Fevereiro deste ano, reacenderam-se.
Eu sei como é quando a política entra na sala de aula. Vivi e trabalhei nos dois extremos deste confronto. Mas a ironia é que nunca fui eu a origem do problema. Não tenho praticamente presença nas redes sociais e nunca publiquei nada na minha vida. Afinal, foi o presidente Hawkins quem afirmou: «Isto é político.» A sala de aula diz respeito aos meus alunos, não a mim.
E é por isso que, com a ajuda da Foundation for Individual Rights and Expression, apresentei uma ação judicial ao abrigo da Primeira Emenda, no dia 29 de julho, num tribunal federal. Espero que a minha história atravesse as divisões ideológicas. Enquanto faculdade pública estadual, o SFSC e os seus dirigentes devem respeitar a Constituição, e isso inclui não censurar literatura simplesmente porque o presidente não gosta dos seus temas ou conteúdos. E, se as ações de Hawkins não forem contestadas, não há como saber quantos outros professores poderão ser sumariamente despedidos simplesmente por pedirem aos seus alunos que enfrentem ideias difíceis.
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Vinita Prabhakar ensinou no Hobart & William Smith Colleges, no Ithaca College e, mais recentemente, no South Florida State College. Obteve um MFA em Escrita Criativa pela Universidade de Syracuse, onde concluiu The Half Light Dwellers, uma coletânea de contos. Vive em Avon Park, na Flórida.
O South Florida State College não respondeu ao pedido de comentário.
Espetacular!
ReplyDeletePor cá, já alguém pensou por que razão Torga aparece tão pouco nos programas e querem que saia como opção do 12.º ano?
Por cá, se o BE e o Livre pudessem, acabariam com muitos autores e texto hoje lidos e estudados.
Tudo aquilo que fazemos e dizemos é, de algum modo, ideológico. O que o professor não pode fazer é vender ideologia. Todo o mais é exposição e debate das questões.
Amei Saramago e li tudo dele em 5 ou 6 anos. Hoje, não o posso ver à frente, mas lecionou a sua obra no secundário, sem considerandos sobre a obra e o autor que sejam o reflexo do que sinto pela figura, pelo autor, pela escrita. Quando digo que o homem sabe ou jornalistas, apresento o facto, não a minha opinião ou sentimentos sobre a questão. Cabe aos alunos deterem espírito crítico para avaliar a ação, o contexto, etc. Se a discussão surgir na turma, sinto-me de dizer então o que penso se for questionado para tal.
As forças políticas extremistas -sempre entenderam a escola como local de formação de soldados da sua ideologia particular e não têm nenhuma intenção de ensino objectivo e imparcial, focado na qualidade. Pelo contrário. Querem soldados do seu lado a formar os novos recrutas.
DeleteAcresce que hoje-em-dia as universidades são geridas por administradores e gestores que nunca puseram os pés numa sala de aula nem sabem o que é isso e decidem questões pedagógicas a partir dos seus gostos pessoais.