2020: A responsabilização está desaparecida em combate
AOC, Fauci e «Woke 1»
Garry Kasparov
Nunca digas nunca: concordo com Alexandria Ocasio-Cortez numa coisa!
Numa entrevista à ABC, há um par de semanas, a congressista nova-iorquina declarou, com evidente satisfação, que «a Woke 1 era louca».
A «Woke 1», como se tornou moda chamar ao pânico moral do início da década, era de facto louca.
Os reconhecimentos de terras ancestrais eram loucos — tentem reconhecer todos os que alguma vez viveram num pedaço de terra em literalmente qualquer outra parte do mundo.
Os despedimentos. O exílio social sem esperança de recuperação. O policiamento da linguagem. Isso era mais do que loucura: era destrutivo à escala de toda a sociedade.
Muitos progressistas arranjaram desculpas para comportamentos ilegais no contexto de vários assassinatos de afro-americanos pela polícia que receberam enorme atenção pública. E alimentaram nos americanos o apetite por um tipo diferente de ilegalidade: a repressão que vemos agora agentes federais descontrolados levar a cabo. As pessoas sabem que o ICE é mau e que as forças da ordem têm uma história problemática neste país. No entanto, quando vêem políticos democratas eleitos tratar os motins com luvas de veludo, acabam por preferir uma direita autoritária ao espectro da anarquia e do caos.
Alguns poderão melindrar-se com a minha referência às manifestações desse período como motins, mas a própria AOC usou essa palavra em 2019, quando declarou que grupos que são marginalizados e marginalizados e marginalizados […] não têm outra escolha senão revoltar-se.
O que falta na conversa sobre 2020 — o trumpismo, a Woke 1, as origens do coronavírus, e assim por diante — é verdadeira responsabilização. A responsabilização foi o ingrediente em falta na Woke 1, onde a prioridade, ao lidar com alegados dissidentes do pensamento dominante, era sempre o cancelamento; a punição em vez da reabilitação — isto quando, de facto, o acusado sequer tinha feito algo de errado.
Por isso, não pretendo cancelar AOC, embora concorde com ela em quase nada. A sua carreira eleitoral cabe aos eleitores decidir. O que gostaria de ver da parte da congressista é responsabilização: não que simplesmente renuncie às suas más ideias, mas que examine seriamente o que tornava essas ideias más.
O mesmo se pode dizer do Dr. Anthony Fauci, que tem sido alvo de uma caça às bruxas conduzida pelos republicanos durante a maior parte da última década, mas que também foi um líder profundamente falível.
Antes de prosseguir, porque compreendo que criticar o Dr. Fauci é um tema explosivo em muitas conversas, deixem-me ser claro: oponho-me veementemente ao negacionismo vacinal ao estilo de RFK Jr. e à pseudo-ciência barata que o próprio presidente promoveu durante o seu primeiro mandato. Vacinei-me. Toda a minha família foi vacinada. O meu único arrependimento é que a minha mãe — que ainda estava em Moscovo — não tenha conseguido tomar a vacina; morreu no dia de Natal de 2020, antes de a vacina estar amplamente disponível. É possível perceber por que razão este tema é pessoal para mim.
Fauci encontrava-se numa posição impossível durante a pandemia, mas também era arrogante. Descartou com confiança teorias alternativas sobre a origem da pandemia, enquanto em privado considerava outras possibilidades. Falava em público com uma certeza absoluta que não tinha a portas fechadas. Partiu do princípio de que os americanos queriam falsas garantias, quando o que realmente queriam era honestidade.
Quem saía da linha enfrentava graves consequências profissionais e sociais. Meios de comunicação social de grande notoriedade construíram um espantalho profundamente desonesto de qualquer pessoa que questionasse a hipótese do mercado de animais vivos, chamando-lhe «racismo à moda antiga».
O jornalista Terry Moran afirma que a ABC censurou a sua reportagem sobre a teoria da fuga de laboratório depois de a submeter à apreciação de Fauci. E Moran, note-se, não é nenhum apoiante de Trump — foi despedido pela ABC por chamar, correctamente, «fanático» a Stephen Miller.
Luc Montagnier, o virologista francês que recebeu o Prémio Nobel da Medicina pelas suas descobertas revolucionárias sobre o VIH, foi transformado num pária por tentar demonstrar, através de análise científica, uma origem laboratorial. É claro que também tinha opiniões anti-vacinação — Newton interessava-se pela alquimia; ninguém é perfeito. Mas os vírus eram a especialidade de Montagnier e, no que respeita ao coronavírus, foi silenciado por se desviar da linha oficial. Pode-se concordar ou discordar dele, mas o seu sumário afastamento é contrário à livre troca de ideias.
Durante a pandemia, muitas carreiras e reputações foram destruídas. O espaço para uma investigação intelectual séria encolheu rapidamente em 2020.
Vale a pena confrontar Fauci com todos estes pontos no contexto de uma audiência no Congresso ponderada e bem fundamentada.
Mas os republicanos de hoje não são propriamente conhecidos pela ponderação e pelo raciocínio bem fundamentado e, por causa disso, pessoas como Rand Paul tornaram menos provável que alguma vez haja um verdadeiro ajuste de contas com Fauci pelos seus erros. Fauci está a invocar a Quinta Emenda vezes sem conta, porque ser franco agora expô-lo-ia a ainda mais abusos. Os republicanos transformaram a responsabilização num jogo de tudo ou nada: uma escolha entre uma detenção politizada ou fingir que nada correu mal.
Perante essas opções, a maioria das pessoas de orientação liberal escolheria a segunda, e não podemos censurá-las por isso, porque os erros de Fauci não são crimes e atirá-lo para a prisão seria um terrível erro judicial. Mas, do ponto de vista da verdade e da boa governação, esse continua a ser um resultado profundamente insatisfatório.
Ora, há figuras públicas cujas acções deveriam levá-las perante um juiz — consigo pensar em algumas na actual administração. AOC e Fauci não são dessas pessoas. O que precisamos, da parte dos defensores da Woke 1 ou daqueles que sufocaram o debate sobre a pandemia, é de responsabilização.
O problema é que a responsabilização é uma solução moderada. Os americanos, com o vosso espírito revolucionário, têm dificuldade com esse tipo de moderação; ela não proporciona nem o alívio da absolvição nem a satisfação de um castigo considerado justo. Mas aqueles que estão a afiar as lâminas deveriam lembrar-se de que nenhuma democracia foi alguma vez salva pela guilhotina.
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