August 29, 2026

A perda da fonte original não é um problema?

 

(...) A questão não é saber qual será o meio que prevalecerá, mas que tipo de cultura emerge quando as fronteiras entre os meios se tornam cada vez mais permeáveis — e quando a atenção, o juízo e a agência humanas têm de navegar numa ecologia em que o significado já não é produzido, preservado ou interpretado 
através de um único modo de comunicação 

Nenhum texto existe isoladamente, porque nenhum acto de escrita ou de leitura parte de um espaço linguístico vazio. Cada texto entra num campo constituído por textos anteriores, línguas, convenções, memórias, pressupostos e interpretações(...) 

-Dr. Faridul Alam (End of reading? A post-literate society in the making)

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A questão, no que me respeita, ainda é outra. O que acontecerá quando desaparecerem as obras originais, em pergaminho ou papel, como se está a prenunciar devido à sua destruição física por parte das empresas donas dos modelos de linguagem (IA)? 

Temos preservado o mais possível, ao longo de milénios, os textos originais de filósofos, escritores, dramaturgos, poetas, historiadores. Fazemos um esforço para traduzi-los o mais possível perto do que seria o seu significado original pela razão de reconhecermos que entre os humanos sempre houve pessoas de extraordinária visão, sabedoria, conhecimento, arte. Voltamos a essas fontes originais, uma e outra vez porque são mananciais para  abertura de novos conceitos, novas perspectivas significativas de abordagem ou solução de problemas humanos.

O que acontecerá quando tiverem destruído essas fontes e ficarmos à mercê da 'ética' da IA (que pode modificá-los, pervertê-los, adulterá-los) para lhes aceder? Não tendo já o documento original como fonte mas qualquer coisa que a IA apresenta? Já não é apenas a perda da capacidade de nos demorarmos intelectualmente no que é difícil ou estranho, a perda da linguagem complexa, mas também a perda de um corpo de ideias, conhecimento, testemunhos originais, substituídos por sucedâneos e falsas fontes.

Cada texto entra num campo constituído por textos anteriores, línguas, convenções, memórias, pressupostos e interpretações. 

Porém, faz muita diferença podermos ir para além de pressupostos e interpretações se pudermos confrontá-los com as fontes originais seguindo métodos de objectividade aceites como válidos pela comunidade.

Qualquer dia o 'documento puro', preservado na sua forma original vai ser uma espécie de Graal - isto, enquanto houver alguém interessado no conhecimento.


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