August 05, 2026

A educação para os pobres

 


Este senhor relata muito bem os factos no que respeita à degradação da qualidade e exigência dos exames, nomeadamente nas Humanidades onde se substituiu o rigor objectivo dos conhecimento por opiniões de sentimentos sobre questões mundanas e dá exemplos das questões de exame, nos anos da passagem do milénio, relativamente às actuais. No entanto, falha no diagnóstico que relaciona com a com a formação sólida dos professores. 
Os professores que leccionavam esses programas exigentes para exames exigentes do final do século de que fala, são os mesmos que agora os leccionam. São professores com formação sólida que andam agora pelos cinquentas anos e em geral, as escolas mantêm as turmas de secundário com esses professores experientes. 
O que se passou foi a introdução de pedagogias da subjectividade, do prazer e da validação de sentimentos que infantilizaram os currículos e, consequentemente, os alunos. 
Leccionar com critérios de exigência tornou-se um crime onde os pais são os primeiros a queixar-se e a tutela intervém. Nesse últimos vinte anos, o assédio que a tutela, juntamente com os pais faz aos professores que não alinham na cartilha medíocre das aprendizagens mínimas e da substituição do conhecimento por opiniões estranhas aos conhecimentos aprendidos chegou ao ponto de haver escolas onde os professores que dão mais de 10% de negativas numa turma (3 em 30 alunos) são investigados pela escola, têm as aulas assistidas por um idiota qualquer até que claudiquem e passem todos. No ensino básico é praticamente proibido responsabilizar um aluno pelo seu estudo, pela sua assiduidade e pelo seu comportamento. E se um professor o faz aparece imediatamente a equipa da inclusão a acusar o professor de falta de empatia.
Este senhor queixa-se de nenhum professor analisar textos científicos. É uma mentira. Há imensos professores a fazê-lo, mas é cada vez mais difícil. A resistência não é só dos alunos, é também dos pais. Os alunos queixam-se logo de ser difícil  e muitos desistem logo à primeira dificuldade porque a norma nos dias de hoje é desistir se não há gratificação imediata - e os pais aparecem logo a queixar-se que o professor quer chumbar os filhos com coisas difíceis e que ainda por cima os alunos acham chato ter que ler frases difíceis e pensar. Porque é que o professor não diz logo as respostas para facilitar?
Entretanto, os alunos ficam em casa e faltam às aulas para jogar videojogos ou só ficar a dormir, com o apoio dos pais. Chegam às aulas sem saber ler e escrever e muito menos raciocinar porque vivem nos telemóveis e nas redes sociais desde a pré-primária e substituíram os conhecimentos escolares pelos do Tik Tok. Literalmente. 
Quem está de fora não percebe o alcance negativo dos telemóveis e redes sociais no desenvolvimento cognitivo dos alunos, para além do relacional. Pais e tutelas, professores e pedagogos do ensino superior foram grandes defensores desta catástrofe e durante quase vinte anos acusavam os professores, nos jornais, de serem atrasados por não trabalharem os conteúdos com recurso a telemóveis, porque "o conhecimento estava à distância de um clique e os alunos sabiam mais que os professores." 
Tem sido uma luta que não temos hipótese de ganhar porque os pais, o ME e os 'pedagogos' das universidades, todos lutam contra os professores.
É claro que nesta situação incentivada pelos pais (por preguiça e ignorância), pela tutela (porque só quer saber de estatísticas e de votos) e pelos idiotas, houve que baixar o nível do ensino e dos exames sob pena de ninguém passar.
Os professores que leccionavam antes os programas exigentes e leccionam agora os infantis, são os mesmos -mesmo com as reformas- e foram os primeiros a chamar a atenção da tutela para o facilitismo dos programas e da avaliação, a infantilização da didáctica, a inadequação dos exames, os perigos da educação parental ter sido substituída pelo telemóvel. Foram os mesmo que tentaram avisar os pais das consequências a médio e longo prazo. 
Porém quem fala sobre estes temas, tira-se a si mesmo e aos outros da equação e continua a culpar os professores, porque é fácil.
Continuem assim que vão bem.


A verdade dos factos e o que ninguém quer debater: a educação para os pobres (de espírito)

António Carlos Cortez

No debate sobre os exames, uma pergunta deveria ser feita: estamos a preparar bem os alunos do secundário para a universidade? A resposta é óbvia, mas dói ouvir.

Desde 2017 que a média nacional a Português vem descendo regular e consolidadamente. Literatura Portuguesa é a disciplina com a média mais baixa de todas. Neste ano de 2026, a média de negativas a Português foi de 29,7%. No caso de Literatura, tendo-se apresentado a exame nesta disciplina 900 alunos, a média é de 9,6 valores. Com efeito, se virmos igualmente as médias de outras disciplinas da área de Humanidades – Filosofia e História –, veremos que há, desde 2017, um padrão geral de abaixamento das competências de escrita e de leitura por parte dos alunos portugueses. Mesmo os melhores alunos portugueses de hoje, como confirmam o PIRLS e o PISA, têm problemas de literacia literária e, em bom rigor, não conseguiriam responder de forma proficiente a questionários dos exames destas disciplinas, e nomeadamente questionários de exames de Português, tais quais esses exames se apresentavam nos anos 90. Especialmente exigente era o Grupo III, o da dissertação.

Em 2026, nesse mesmo Grupo III, pede-se, nesta 2.ª fase, o seguinte: que o estudante, depois de 12 anos de escolaridade obrigatória, “defenda uma perspectiva pessoal sobre o contributo das experiências pessoais e dos conhecimentos adquiridos na escola para o enriquecimento da visão que cada indivíduo constrói do mundo”. Trata-se, a meu ver, da prova mais cabal de incompetência científica por parte de quem concebe este exame. Neste Grupo III, o que está em causa é avaliar a capacidade de argumentação perante um tema ou problema e, ao mesmo tempo, medir a literacia de escrita. Com questões deste género, que convidam ao discurso mais subjectivo e impressionista, opinativo e acrítico, o que se avalia? Que leituras e que competência de discurso argumentativo têm os alunos do 12.º de ter, se o que lhes é perguntado é de um primarismo e de uma infantilidade ímpares?

Comparemos e analisemos agora o exame nacional de 1997 com a idiotice de exames nesta disciplina que, de há uns bons dez, 15 anos a esta parte, têm condicionado a prática e a qualidade das aulas de muitos professores, infantilizando e facilitando processos de ensino-aprendizagem. Uma pergunta prévia, no debate sobre os exames, no seu todo, deveria ser feita: estamos a preparar bem os alunos do secundário para a universidade? A resposta é óbvia, mas dói ouvir: o que temos vindo a formar é toda uma geração de estudantes que, no fundo, sabem que para terem acesso ao ensino superior nada têm de ter lido e não têm de escrever, de facto, com proficiência. Vejamos o exame de 1997, 1.ª fase, Português A.

Constava de um poema de Fernando Pessoa, o ortónimo – “Bóiam leves, desatentos” –, texto de forte sugestão poética, pelas metáforas (“Bóiam leves, desatentos,/ Meus pensamentos de mágoa,/ Como, no sono dos ventos,/ As algas, cabelos lentos/ Do corpo morto das águas” (1.ª estrofe) e pela compreensão exigida quanto a questões de estilo. Para além da melopeia dos versos e da correspondência pensamentos/cabelos (de possível raiz baudelaireana e remetendo para o mito de Ofélia, tão do agrado da estesia simbolista-decadentista que o moderno Pessoa aproveita), há neste poema – e isso pedia-se no questionário de 1997 – uma associação entre pensamentos-sono-corpo morto-algas (águas paradas) e a existência dos próprios pensamentos que, fora do sujeito, bóiam “como folhas mortas/ À tona de águas paradas”. O poema escolhido para avaliar a competência de leitura era, em 1997, indiscutivelmente mais complexo que qualquer texto que hoje os fazedores desta miséria de exames escolhem. Veja-se: é o “sono de ser”, é o nada como problema moderno para um “eu” a braços com os seus pensamentos “de mágoa”, o problema que o estudante tinha de compreender. Isso subentende-se no que era pedido no Grupo I: “Elabore um comentário global do texto que acabou de ler, focando os seguintes tópicos: a) marcas de objectividade/ subjectividade na expressão lírica do “eu”; b) campos semânticos da fragmentação e do negativismo; c) recursos estilísticos e sua expressividade; d) construção da musicalidade; e) marcas características da poesia ortónima pessoana.” Que aluno conseguiria, hoje, em 2026, fazer semelhante comentário crítico? Nenhum –​ digo-o com lamento, mas sem receio.

Para além do mais, não havia quaisquer constrangimentos de limitação mínima ou máxima de palavras no grupo seguinte. E muito menos se propunha uma avaliação com escolhas múltiplas e V/F. O que se avaliava (e classificava) era mesmo a literacia escrita, as competências do ler um texto complexo e do escrever crítica e analiticamente. Hoje, no exame de Português, à saída de 12 anos de escola, que poema se escolheu? Um poema de Eugénio de Andrade que comparece já no 3.º ano do ciclo primário! E que dizer do questionário de 2026? Perguntas sobre o que é que, por detrás das palavras de um poema de Eugénio de Andrade e de um outro poema de Caeiro, o leitor pode adivinhar quanto a estados de alma. O que hoje se pede aos alunos é que escrevam textos de cariz personalista, absolutamente subjectivos, com a agravante de terem de recorrer a 350 palavras. Todos sabemos: esta é uma geração com uma tal falta de linguagem e de capacidades de análise de texto literário (mas também de qualquer tipo de texto) que, se tivessem de escrever sem limite imposto, provavelmente arriscávamo-nos a não termos nenhuma redacção para ler. Ao menos assim, com a indicação de 350 palavras, os estudantes sabem que têm de fazer o esforço por encher de palha o Grupo III.

Estudantes, filhos da pandemia, do TikTok, de uma vida de que estão ausentes a curiosidade e a sede de saber, o mistério e a imaginação, os alunos portugueses oscilam, como digo há mais de uma década, entre a letargia e a raiva, entre o estado amorfo das suas faculdades cognitivas e a explosão instintiva de frases sem nexo, sem verbos (“posso água?”), sem qualquer construção lógica e sem quaisquer referências culturais

Ninguém, na verdade – se for professor honesto, se for um aluno com o mínimo de consciência crítica, se for um pai minimamente exigente – pode considerar que estes exames nacionais avaliam (falo de Português, mas o mesmo podemos dizer de exames de História, de Filosofia ou de Geografia) seja o que for de competências de leitura e de escrita. Não há verdade nestes exames de Português, bem como de outras disciplinas, quando em mais de 70% do exame o estudante se limita a exercícios de adivinhação. As médias baixíssimas a Português e a Literatura espelham as consequências de mais de 15, 20 anos de políticas que puseram de parte a importância das Humanidades. Mesmo os alunos de ciências têm hoje dificuldades reais de expressão escrita e de compreensão dos textos nas suas áreas específicas. Tudo porque lêem pouco ou nada e porque – e disto igualmente ninguém fala –, na prática didáctica, perdeu-se o hábito de analisar cientificamente um texto. Estudantes, filhos da pandemia, do TikTok, de uma vida de que estão ausentes a curiosidade e a sede de saber, o mistério e a imaginação, os alunos portugueses oscilam, como digo há mais de uma década, entre a letargia e a raiva, entre o estado amorfo das suas faculdades cognitivas e a explosão instintiva de frases sem nexo, sem verbos (“posso água?”), sem qualquer construção lógica e sem quaisquer referências culturais.

Nota final: o que se pretendia no exame de 1997 no Grupo II, a 2.ª parte do dito momento de avaliação das competências? Isto: “Elabore uma dissertação em que aborde de forma desenvolvida e fundamentada as afirmações sobre a poesia de Cesário Verde aqui transcritas." E que texto era esse que o aluno de 1997 tinha de comentar? Este: “Na história da poesia da cidade, os poemas típicos de Cesário Verde são algo de inteiramente novo, pelo amor juvenil e constante à realidade concreta, vista com olhos de artista plástico, transposta em séries de instantâneos claros, exactos, flagrantes. Em 'Cristalizações', 'Num Bairro Moderno', 'O Sentimento dum Ocidental' descobrimos a figura integral de Lisboa.” Este ensaio de que livro era? Deste: Problemática da História Literária(Ática, 1961). Quem hoje é professor desta disciplina, saberá quem foi Jacinto do Prado Coelho? Leu e deu a ler a alunos seus ensaios desse grande professor e ensaísta maior da nossa cultura? Na formação de professores nesta área, conhece-se o essencial de A Educação do Sentimento Poético?

O grande debate sobre educação em Portugal está por fazer e prende-se com a formação sólida dos professores e sobre a real exigência dos exames de acesso. Esta reforma de Fernando Alexandre falha em toda a linha: desmantelou organismos do ministério; feriu de morte a fiabilidade e a justiça do processo de classificação; mecanizou e rebaixou os professores e estudantes à condição de animais mecânicos: uns a classificar, a etiquetar, outros a serem etiquetados. Exames perdidos, digitalização estupidificante, provincianismo e, conjuntamente com o seu secretário de Estado, Homem Cristo, um passa-culpas que revela a falta de honestidade de ambos. O essencial ficou por discutir: que estudantes temos hoje no superior, no secundário, no 3.º ciclo… Que Portugal teremos daqui a uns anos?
Público

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