O Portão do Gradil
Há um muro em Mafra com 21 quilómetros de extensão e seis portões: Mafra, Paz, Murgeira, Codeçal, Gradil, Vermelha. No Gradil, hoje, quase ninguém repara: é só mais um nome numa parede antiga.
Foi erguido para fechar animais selvagens lá dentro, para que os reis tivessem sempre caça à mão, sem terem de a procurar léguas a fio. Nada nesta pedra deixava adivinhar o que, séculos depois, aconteceria a poucos metros desse mesmo portão.
A muralha nasceu de uma vontade só. A 18 de julho de 1744, D. João V, a tratar em Caldas da Rainha da paralisia que o afligia desde 1742, mandou demarcar essas terras para seu real serviço, para lenha que aquecesse o palácio, e para criar fauna destinada aos «reais prazeres venatórios». Três semanas depois, a 7 de agosto, Gregório Coelho e Felício Nunes foram contratados para a obra: um muro de pedra e cal a fechar, ao longo dos 21 quilómetros, mais de 800 hectares de mato e monte. O sítio oficial da Tapada diz que foi «criada em 1747»; o decreto e o contrato da muralha são de três anos antes.
A primeira caçada real de que há memória teve lugar a 5 e 6 de outubro de 1750: D. José I e a corte perseguiram, dentro dos seis portões, uma caça que já não tinha por onde fugir. Ao longo de um século e meio, quase todos os monarcas de Bragança lá caçaram, de D. Maria I a D. Fernando II, mas foi com D. Luís I e o filho, D. Carlos, entusiasta caçador que ali ia com a rainha D. Amélia, que a Tapada viveu o período dourado, já perto do fim da monarquia.
Por volta de 1890, D. Carlos mandou construir um pavilhão no Celebredo, erguido sobre um palacete anterior atribuído a D. Maria I. O edifício sobreviveria à coroa que o mandara erguer: desde 1910, ano em que a monarquia caiu, o pavilhão nunca mais recebeu uma caçada real, servindo desde então apenas para eventos protocolares.
Com a República, a terra mudou de nome, passando a chamar-se Tapada Nacional de Mafra. A parte agrícola já estava, desde 1828, sob administração militar, e só nos anos 70 do século passado a floresta e o antigo terreno de caça se abriram ao público. Nos seus limites erguem-se ainda fortes da segunda linha das Linhas de Torres Vedras, de 1810: a mesma terra que fechava caça guardou, um dia, um exército invasor lá fora. Em 2019, o conjunto do Real Edifício de Mafra, tapada incluída, entrou para o Património Mundial da UNESCO.
Para lá do portão do Gradil, a poucos metros do muro, numa propriedade à parte com vedação própria, o Grupo Lobo, associação portuguesa sem fins lucrativos fundada em 1985, criou em 1987 o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. Ali vivem, em cativeiro, lobos que já não podem viver em liberdade: vítimas de armadilhas, de cativeiro ilegal, ou vindos de outros parques zoológicos. Um ano depois de o centro abrir portas, Portugal protegeu por lei o lobo ibérico, proibindo abatê-lo, capturá-lo ou destruir-lhe o habitat. Foi em 1988, seis anos antes de a legislação europeia o exigir.
A urgência não era retórica. No início do século XX, o lobo distribuía-se por quase todo o território continental; hoje ocupa cerca de 20% dessa área, com uma população nacional de cerca de 300 exemplares, concentrados sobretudo a norte do Douro. O Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal, de 2023, classifica-o, a nível nacional, como «Em Perigo». Os lobos do Gradil não são uma alcateia solta na Tapada: são os que o país decidiu, por lei, que valia a pena manter vivos.
O portão do Gradil já não fecha nada. De um lado, uma muralha que um rei mandou erguer para nunca faltar um tiro. Do outro, uma cerca que um país escreveu numa lei para que a espécie não desaparecesse de todo. A pedra não mudou de ideias. Quem mudou foi o país que a construiu.
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