July 20, 2026

Prós e contras da digitalização dos exames

 

O ME e o PM dizem, com um ar de quem profere verdades eternas, que a digitalização tal como está pensada é um modo mais rigoroso e garante mais objectividade e mais justiça para todos os alunos. Discordo.

Em primeiro lugar o que tivemos não foram exames digitais a não ser no 9º ano. Os outros foram exames feitos em papel, transferidos para jpeg ou pdf, não sei, por pessoas que abrem pacotes de exames, tiram-nos, mexem neles e os põem numa máquina que tira uma fotografia que depois transfere para uma plataforma, separa por items, etc. Se a reforma é para tirar pessoas do processo, não tirou. Até acrescentou.

Pontos a favor da digitalização dos exames, se a plataforma for corrigida dos inúmeros erros grosseiros que se verificam nesta fase e se a digitalização significar os exames serem feitos numa plataforma digital:

- É bom para os professores que não têm que andar com pacotes de exames; não perdem dias inteiros com a burocracia de somar cotações parciais à mão, passar tudo a tinta, preencher cabeçalhos em duplicado ou triplicado, em numerário e extenso, assinar aquilo tudo, apagar o lápis... são burocracias que consomem 5, 6, 7 horas de trabalho. Portanto, é melhor para poupar os professores a trabalho burocrático, disso não há dúvida.

- É bom que os alunos tenham acesso às provas online e à sua classificação parcial sem terem de ir à escola pedir uma fotocópia do teste. É mais rápido.

- É mais rápido também a corrigir erros porque não é necessário procurar as provas físicas e os erros corrigem-se digitalmente, na hora - desde que o JNE atenda o telefone e ouça os professores.

- Em princípio será mais difícil a fraude das classificações, dado que quem faz o anonimato (o agrupamento de exames) não é quem distribui as provas pelos classificadores nem quem as digitaliza. 

Em geral, do ponto de vista técnico, é um processo mais expedito e melhor para os professores.

No entanto há contras do ponto de vista técnico:

- A mesma razão que leva a que o processo seja menos permeável à fraude -estar tudo numa plataforma digital-, é a mesma razão que leva a que seja mais permeável à fraude, isto é, há a possibilidade de pessoas de dentro do sistema acederem à plataforma e adulterarem notas ou de pessoas de fora, hackers, fazerem ataques à plataforma, como hoje-em-dia se faz amiúde a hospitais, bancos, instituições, etc., muitas vezes para pedir resgaste. Se isso acontecer, pode todo o trabalho ir por água abaixo, sem apelo nem agravo. 

- Quando o aluno tem acesso online à sua prova, o que lhe mostram é a sua prova digitalizada e não os items, tal como apareceram aos vários classificadores que a avaliaram. Quer dizer que, em caso de engano, isto é, de terem enviado aos classificadores, items que não correspondem ao número de identificação daquele aluno, ele não tem modo de saber que houve erro na digitalização ou na atribuição dos items da sua prova ou que faltaram folhas de continuação ou que houve folhas de continuação que não eram as suas. Logo, não pode pedir correção de erros que nem sabe que existiram.

Portanto, a digitalização não é o paraíso, não é a segunda vinda de Cristo à Terra, a solução dos iluminados contra os obscuros, etc. e o governo podia acabar com esse discurso parolo.

Ademais, a plataforma tem limitações, como por exemplo: 

- Quando é preciso rever questões já classificadas não é possível, tem que andar-se a ver tudo o que já se fez, o que podem ser 500 classificações e geralmente já não se consegue encontrar. Isto é um prejuízo para os alunos porque não permite ajustar classificações já atribuídas. O que é isto, na prática? Acontece quase sempre já termos classificado bastantes respostas e de repente, aparecer uma resposta de um nível absolutamente superior a todas as outras já vistas. Isso obriga a fazer ajustes na correção das respostas anteriores por uma questão de justiça relativa. Se não é possível aceder-lhes...

- A plataforma não permite ter janelas abertas para se poder aceder a vários aspectos da prova sem ter de andar constantemente para cima e para baixo no ecrã para aceder a aspectos diferentes. Quando tem que se classificar 500 respostas em vários parâmetros isto conta muito para o cansaço e diminuição de rendimento de trabalho.

Há outros contras do ponto de vista pedagógico, que para mim são mais importantes que os técnicos pois afectam o próprio processo educativo.

1. A digitalização da classificação tem como fim tirar o professor, o mais possível, do processo de avaliação dos alunos e substitui-lo por uma aplicação digital.
O fim último, tendo em conta que o guia do processo é a uniformização e rapidez, será reduzir a avaliação a escolhas múltiplas, pois aí garante-se que todos os alunos são classificados rapidamente e de modo igual.
Só que também se garante a mediocridade do sistema, na medida em que prejudica muito os bons alunos que não têm possibilidade de mostrar as suas qualidades, seja no domínio dos conhecimentos, seja no domínio das técnicas.
Mesmo que a avaliação não seja completamente reduzida a escolhas múltiplas, ela tende para a uniformização. Como se viu este ano, os professores receberam respostas já classificadas para re-classificar... há aqui controlo e possibilidade de manipulação das classificações. Suponhamos que uma prova tenha uma ou mais classificações de items muito díspares das outras todas, o que agora pode acontecer, dado que nenhum professor tem acesso à prova toda para poder ajuizar. O JNE ou quem coordena, envia esses items a outros classificadores até que estejam uniformes com a classificação dos outros items. Intervenciona. Há um par de anos, em França, a tutela resolveu subir a nota um valor a todos os alunos para melhorar a estatística. É claro que se soube, porque os exames em papel existiam com as classificações lá escritas, mas com este sistema dificilmente se saberia dessas... coisas.

2. A classificação por items não é mais objetiva nem mais justa para o aluno. Imaginemos que o classificador tem respostas para classificar referentes ao item 2.4 de uma tal prova. Há aqui duas questões:

1ª - O classificador não avalia todos as respostas que existem do item 2.4 de todo o país para garantir que todos são classificados com o mesmo critério. Dão-lhe um certo número de items, vamos supor 150 em em 20.000 respostas no total a esse item. Portanto, se derem 150 respostas a cada professor, serão mais ou menos 133 professores. Ora, esses 133 professores têm critérios de exigência muito diferentes uns dos outros. Por conseguinte, não há mais objectividade na classificação, o que é há é a retirada do juízo do professor da totalidade da prova.
É como se, num julgamento, em vez do caso ser decidido por um juiz que tem acesso a todos os elementos para decidir, o fosse por 7 juízes em separado, cada um a apreciar apenas uma parte do processo -ou as testemunhas de defesa ou as de acusação, ou a perícia médica, ou a prova balística, etc. (com o argumento de cada juiz se treinar como especialista na sua parte) e no fim cada um deles desse uma nota à sua parte/item e uma plataforma digital fizesse a soma das notas dadas e anunciasse ao réu que a sentença corresponde, dada soma das cotações dos parâmetros, a x anos. Desvirtua o processo.

2º - Vamos supor que numa numa escola, há 120 provas de uma disciplina que foram enviadas para 10 classificadores diferentes. Então aqui o que temos são alunos da mesma escola, talvez de um só professor a serem avaliados separadamente por 10 avaliadores diferentes, cada um com o seu critério de exigência e sem possibilidade de ajustar o seu critério de exigência ao caso em apreço.
Deixem-me esclarecer. Um professor classificador geralmente recebe provas de uma escola, às vezes duas. Como sabemos? Os testes chegam-nos às mãos com 2 números atribuídos pelo Agrupamento de Exames quando fazem o anonimato: um é fixo e corresponde à escola e outro é diferente e sequencial e corresponde ao aluno. Por exemplo, do código 1040, que corresponde a uma escola que só o Agrupamento é capaz de identificar porque são quem faz o anonimato, temos os testes números, 120, 121, 122, etc., sendo estes números os que identificam os alunos que correspondem aos testes.
Então num pacote com 80 testes, por exemplo, vemos que 50 são de uma escola (a 1040) e 30 de outra (a 1125). 

Quando lemos as respostas dos testes da 1040 reparamos que as respostas são idênticas em vários aspectos: há certos exemplos que os alunos todos apresentam, certo tipo de explicações com certo tipo de linguagem estranha que não corresponde ao nosso modo de abordar a questão, mas vemos claramente que foi assim que o professor daqueles alunos o fez e levamos isso em conta a favor do aluno. Na Lógica, por exemplo, vemos processos de raciocínio que nunca faríamos na abordagem de um problema mas que se repetem em todas as provas da mesma escola e portanto, percebemos claramente foi assim que o professor abordou o problema e respeitamos o professor e levamos isso em conta - se estivermos a classificar uma resposta de cada escola, não é possível fazer esse juízo e isso é injusto para os alunos, quer dizer, estarem a ser classificados com critérios diferentes, sendo da mesma escola.

3- Sem ver o teste todo não conseguimos perceber aqueles alunos que têm, na maioria das respostas, um raciocínio fora da caixa, embora possam não ter estudado muito e faltarem-lhe conhecimentos. Há alunos extraordinariamente criativos e penso que isso deve ser levado em conta mas a ver um item não é possível.

Há muitas situações em que classificar o teste todo e não por items beneficia o aluno e evita injustiças. Classificar assim por items é válido para a avaliação dos alunos das nossas turmas. Quando fazemos um teste, avaliamos, corrigimos e classificamos questão a questão, mas isso é porque temos acesso à totalidade do teste e podemos fazer acertos. Uma pessoa leva 3 dias a ver uma turma de testes, por exemplo e nessas 3 vezes, não está no mesmo estado de espírito, de cansaço, de concentração, etc. Temos noção disso e por isso, no fim, temos que ir aos testes todos ver se houve discrepâncias na abordagem à avaliação das questões.

Enfim, há outros pontos, mas isto já vai grande. O que me parece é que a classificação por items desvirtua o carácter pedagógico da avaliação, anula o juízo do professor que é um especialista em avaliação escolar e não é mais justo para o aluno.

Não sei se a intenção é mesmo essa: desconfiar do professor e anular o juízo do professor para ganhos de rapidez e mediocridade sem contestação, o que aparece sempre com o nome de uniformidade e, acima de tudo, controlar os professores e as próprias classificações.


2 comments:

  1. A mim, desde que me tirem desse trabalho está tudo bem. Nem nos paga por ver exames. Nunca nos pagam por nada como se tudo fizesse parte do trabalho.

    ReplyDelete
    Replies
    1. É verdade. Na pandemia recebia emails no Domingo de Páscoa. Era dias, noites, férias. Nunca ninguém nos pagou um tostão. Era como se o nosso dever fosse trabalhar 24 horas por dia todos os dias da semana. Com os exames é o mesmo. Os outros têm horários de trabalho com horas extra pagas, os professores têm ofensas.

      Delete