Acordei cedo, liguei a TV e estava a passar o filme, Men de Alex Garland. Não conhecia o filme. Nenhuma mulher vê o filme, penso, sem se reconhecer, mesmo que em doses diferentes e é muito refrescante saber que há homens, como este realizador, que têm noção de como o comportamento de um grande número de homens é assustador para as raparigas e para as mulheres e transforma o mundo num lugar percebido e sendo, extremamente perigoso para elas.
O filme é sobre uma mulher que fica viúva e vai para o campo para descansar. No meio de uma paisagem idílica, começa a ser perseguida por homens que a certa altura aparecem todos com a mesma cara, indistinguíveis uns dos outros. Os homens são monstros que aparecem nus, cobertos de espinhos agressivos, sempre direccionados para o controlo e a violência sexual, incapazes de vê-la como uma pessoa e de respeitar a sua existência como indivíduo livre, com vontade própria. Ela, na sua imaginação, defende-se com facas.
A dado momento percebemos que as visões dela referem-se ao marido que morreu e que teria sido um tipo violento e controlador. Mas o filme universaliza o comportamento do marido, não como facto objectivo, quer dizer, não como se todos os homens fossem assim, mas como impressão subjectiva das mulheres, dado tantos e tantos e tantos homens serem assim com as raparigas e com as mulheres, sejam conhecidos ou estranhos na rua: perseguem, dizem coisas ordinárias que soam como planos de acção, encostam-se, esfregam-se, olham fixamente com olhares assustadores e lascivos, fazem gestos, importunam, são abusivos, controladores, invasivos e narcisistas violentos nas relações com mulheres.
No filme, o indivíduo que a persegue, a certa altura transforma-se num ser que dá à luz outro homem que por sua vez dá à luz outro e assim por diante e essa sucessão de partos é um modo de o filme nos mostrar que os homens educam-se uns aos outros para serem monstros para as mulheres, mas também que cada 'renascimento' onde esses homens narcísicos e abusivos juram que mudaram e já não vão ser como eram e agora é que vai ser diferente não passa de um parto contínuo de imposturas.
Vemos o homem que a persegue, depois de uma cena ameaçadora, dizer-lhe, transformado em adolescente, 'magoaste-me, vês o que me obrigas a fazer?' - uma frase típica dos abusadores. No fim do filme o marido aparece e senta-se ao lado dela e diz, 'só queria ser amado'. Portanto, para esses homens, as mulheres só existem em relação a si e não por si mesmas e o seu fim na vida é cumprir a exigência de amor/prazer dos homens.
Vê-se o filme e imediatamente vem à memória a sensação que tivemos e nunca mais nos abandonou completamente, ao entrar na adolescência, de o mundo, de repente, se ter tornado extremamente perigoso por causa dos homens: de como uma simples ida para a escola, uma ida à casa-de-banho na escola ou num restaurante, uma viagem em transportes públicos, uma espera numa fila, uma entrada numa loja, num elevador, são momentos sentidos como ameaçadores a precisar de estratégia prévia, seja de reconhecimento de pontos de fuga, seja de reconhecimento dos homens que ali parecem ser mais perigosos e como afastar-nos deles e não atrair atenção. É por isso que as raparigas não vão a casas-de-banho e outros sítios de vulnerabilidade, sozinhas. E é por isso que a ideia de ter homens a poder entrar e andar no meio das raparigas e das mulheres nas casa-de-banho, vestiários, etc., mesmo quando dizem sentir-se mulheres, é perigosa e assustadora. Muitos desses indivíduos são ameaçadores e todos os que não aceitam não como resposta são assustadores e perigosos.
De maneira que é refrescante ver um realizador perceber como tantos homens transformam o mundo num lugar perigoso e ameaçador para as raparigas e para as mulheres e como tentam anular e calar as mulheres e reduzi-las a objectos de controlo e prazer. Não deve ter sido fácil, sobretudo no que respeita ao juízo dos outros homens sobre si.
Agora que temos na Europa uma quantidade imensa de imigrantes homens que trazem consigo a violência e a degradação sistémica das raparigas e das mulheres, damo-nos conta de como a educação importa porque, apesar de tudo, vê-se a diferença que fez mais de meio século de educação para os direitos universais humanos -que incluíram as mulheres- dos europeus e a educação para o controlo dos machos da religião que esses imigrantes trazem consigo.
Apesar de serem de países que também assinaram a Carta dos Direitos Humanos, nunca usaram a educação para promover os diretos humanos e continuaram a educar tendo como guia a religião e códigos culturais locais que perpetuam o controlo e a degradação das mulheres pelos machos.
Não significa que nas sociedades ocidentais não haja violência dos homens contra as mulheres -este filme mostra-o-, mas é uma violência individual e não estatal. É condenada e combatida pelo Estado e não induzida pelo próprio Estado. Não é incorporada na educação pública como um bem. E, na realidade, embora com avanços e atrasos, teve efeitos positivos na diminuição do sexismo, na melhoria da vida das mulheres enquanto seres autónomos e livres e no comportamento e mentalidade dos homens.
As mulheres têm acesso a uma vida de liberdade e de oportunidades aqui na Europa e nos países para onde exportou estes valores que em muitas sociedades do mundo nem sonham e são mortas por tentarem lutar por eles.
Enquanto nas sociedades de valores ocidentais se considera que os direitos humanos universais estão acima das questões culturais, as sociedades de valores locais, a maioria teocráticas, consideram que os valores culturais sobrepõem-se aos valores universais. Daí a sua intolerância e recusa de integração em sociedades que respeitam valores universais.
Qual o significado desta diferença? Enquanto nós consideramos que as mulheres devem ser tratadas com o respeito universal que se deve a TODOS os seres humanos, as sociedades que defendem o relativismo cultural absoluto (paradoxo), consideram que as mulheres devem ser tratadas de acordo com a sua cultura e não podem ter acesso a direitos universais.
Portanto, se és mulher os teus direitos variam consoante a cultura: se nasceste aqui, assume-se que tens direito aos mesmos direitos universais que os homens, mas se nasceste no Irão ou em outro país islamita, assume-se que não estás protegida pelos direitos humanos universais porque na tua cultura não se respeitam as mulheres.
E se nós, mulheres e homens desta sociedade que te respeita, dizemos que as sociedades governadas por uma religião misógina (não o são todas?) não te respeita, somos acusados de islamófobos ou de complexo de superioridade europeia em nome de um culto ao relativismo cultural intocável dos valores locais, mesmo quando violam grosseiramente os valores universais.
Já se és homem, em todo o mundo tens direito a ser protegido pelos Direitos Universais.
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