June 22, 2026

"O problema da máfia em Itália tem um novo rosto, e não é italiano "

 

Problemas que decorrem da imigração ilegal e desregrada.


O problema da máfia em Itália tem um novo rosto, e não é italiano

Novos grupos criminosos estão a entrar no ensolarado submundo do crime do país

Alessia Peretti, Euractiv

MILÃO – Um homicídio na Calábria revelou como as redes criminosas paquistanesas estão, discretamente, a assumir o controlo de um dos sistemas de exploração laboral mais enraizados da Itália.

Na noite de 1 de junho, quatro trabalhadores agrícolas migrantes foram trancados dentro de uma carrinha num posto de abastecimento em Amendolara, uma pequena localidade no sul da Calábria. Os suspeitos deitaram um líquido inflamável no veículo, atearam-lhe fogo e bloquearam as portas para impedir a fuga.

Três homens afegãos e um paquistanês morreram queimados. O único sobrevivente contou aos investigadores que as vítimas tinham estado a trabalhar em campos de morangos sem receber qualquer salário e que o ataque foi levado a cabo pelos seus próprios capatazes, depois de os trabalhadores terem exigido o pagamento. Ambos os homens detidos eram cidadãos paquistaneses.

A primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que os homicídios «chocaram» a nação, mas para quem está atento ao submundo agrícola italiano, o que aconteceu em Amendolara foi menos um choque do que uma confirmação.

Um sistema com raízes profundas
O «caporalato», termo italiano para designar o sistema de caporais, é uma das formas mais persistentes de exploração laboral do sul da Europa.
Intermediários criminosos, conhecidos como caporali, recrutam migrantes vulneráveis e colocam-nos a trabalhar em campos, armazéns ou estaleiros de construção por salários que podem ser inferiores a dois ou três euros por hora, sem contratos, sem proteções e sem qualquer recurso. Os trabalhadores são normalmente alojados em acampamentos improvisados e mantidos na linha através de dívidas, ameaças e isolamento.

Durante décadas, o sistema esteve associado aos grupos de crime organizado endémicos da Itália – a Camorra, a ’Ndrangheta e a Sacra Corona Unita. Algo mudou. O sobrevivente descreveu os seus agressores como membros de uma «grande máfia paquistanesa» que opera na região.

Os especialistas afirmam que o caso não é isolado e reflete uma transformação mais ampla do próprio sistema do caporalato.

O modelo criminoso paquistanês
«O crime organizado paquistanês opera principalmente através de grupos criminosos fluidos, mas muito agressivos, baseados em laços familiares, ligações clânicas e afiliações étnico-religiosas», afirmou Vincenzo Musacchio, professor de estratégias de combate ao crime organizado transnacional na Universidade Rutgers, em Newark, ao Euractiv.

O que torna estas redes difíceis de desmantelar é o seu alcance transnacional. O controlo começa frequentemente nas aldeias paquistanesas, onde as famílias contraem dívidas para garantir vistos ou autorizações de trabalho, muitas vezes através do regime italiano do decreto flussi, que os intermediários criminosos exploram prontamente. 

Uma vez em Itália, os migrantes vêem-se presos em empregos mal remunerados, com os familiares no país de origem a servirem de pressão contra qualquer resistência.

Fundamentalmente, não se trata de uma história de substituição, mas sim de divisão de tarefas: as máfias italianas mantêm o controlo do território e das finanças, enquanto as redes paquistanesas fornecem a força operacional.

«Para o crime organizado italiano, é particularmente conveniente delegar o trabalho sujo a redes estrangeiras», afirma Musacchio, acrescentando que as barreiras linguísticas e culturais criam um silêncio funcional que protege toda a cadeia de comando.

Como consequência, estas redes expandiram-se muito para além dos campos de morangos do sul, estendendo-se à logística, ao embalamento, à construção naval e à indústria gráfica no norte de Itália.

O seu veículo preferido é a cadeia de sub-contratação: grandes empresas italianas sub-contratam mão-de-obra a cooperativas de fachada que evadem impostos, privam os trabalhadores de todos os direitos e se dissolvem antes da chegada dos inspectores, apenas para reaparecerem com um novo nome.

«Isto é escravatura moderna», afirmou Musacchio ao Euractiv. «O controlo do capataz sobre a pessoa é total, ao ponto de determinar a sua própria existência. Na maioria dos casos, a vítima não tem alternativas reais: ou aceita a exploração, ou enfrenta consequências que podem ser fatais.»

Resposta limitada
Na sequência do caso Amendolara, a ministra do Trabalho, Marina Calderone, anunciou uma campanha abrangente de inspeções extraordinárias em todo o sector agrícola italiano, que se prolongará ao longo do Verão.

A Inspecção Nacional do Trabalho italiana já registou irregularidades em 74% de todas as inspeções realizadas em 2025, um número que parece menos uma prova de uma acção eficaz e mais um retrato de um sistema em que o trabalho ilegal é a norma.

A legislação italiana permite que os procuradores visem não só os capatazes, mas também as empresas italianas que lucram com os seus serviços. No entanto, Musacchio argumenta que, enquanto os canais de migração se mantiverem rígidos e facilmente contornáveis, as redes transnacionais manterão a sua vantagem estrutural.

Nível da UE
A natureza sistémica do problema, argumenta Musacchio, exige uma resposta que vá além de Roma. Como a UE assenta no princípio das competências atribuídas, o direito penal permanece nas mãos dos tribunais nacionais: Bruxelas não pode processar um único «caporale», mas pode, nas suas palavras, «asfixiar economicamente» o sistema.

As explorações agrícolas que recebem subsídios agrícolas da UE estão sujeitas a regras de «condicionalidade social» que exigem o cumprimento dos direitos laborais e das normas de segurança; quem for apanhado a explorar trabalhadores pode perder totalmente os fundos, o que, para muitas grandes empresas agrícolas, significaria a falência.

Bruxelas também tem influência mais a montante na cadeia de abastecimento, onde se encontram, de facto, as raízes do caporalato.

Os grandes retalhistas compram produtos agrícolas a preços extremamente baixos, reduzindo as margens dos pequenos produtores, que, por sua vez, transferem essa pressão para os trabalhadores nos seus campos. A negociação decorre frequentemente numa zona cinzenta de práticas comerciais desleais. 

Antes do final do ano, espera-se que a Comissão apresente uma revisão da directiva sobre esta matéria.

A Directiva da UE relativa à devida diligência em matéria de sustentabilidade empresarial exige que as grandes empresas monitorizem as suas cadeias de abastecimento quanto a violações dos direitos laborais, com multas indexadas ao volume de negócios global.

Uma diretiva separada sobre sanções aos empregadores obriga os Estados a punir as empresas que contratam trabalhadores em situação irregular, através da exclusão de contratos públicos e do encerramento de instalações.

«A UE tem o poder de agir sobre o perfil financeiro e as regras de mercado, tornando a exploração laboral um risco económico que as empresas já não podem suportar», concluiu Musacchio.

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