June 24, 2026

A poética do espaço





Mies van der Rohe - Farnsworth House
Plano, Illinois - 1951

 










9 comments:

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    1. Para um outro arquitecto, num certo extremo oposto de Mies van der Rohe (que se usou o less is more quase como lema) "less is bore".

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    2. Isso tem piada mas não era esse o sentido que estava a pensar. Esta casa parece idílica para descansar o corpo e a mente, para deixar a vida para trás, mas não para viver a vida. Faltam-lhe os objectos da vida. É uma casa impessoal, que tanto serve para um como para outro qualquer.
      Outro dia li que as pessoas que vão para casas ou lares seniores ou lá como chamam a isso, em média duram lá 4 meses até morrer e acho que é porque deixam a vida para trás: os objectos que convocam memórias e por vezes os locais onde se reconheciam.

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    3. Talvez essa ideia da impessoalidade seja uma consequência do "less" (is more). No fundo, quanto menos mobília, mais probabilidade de satisfazer toda a gente, porque o risco estético diminui. A ideia de Mies van der Rohe talvez não fosse a impessoalidade, mas a depuração levada ao extremo, um pouco como Miguel Ângelo que dizia que olhava para um bloco de mármore e se limitava a tirar tudo o que estava a mais.
      Tendo a concordar com a sua ideia dos lares: é a perda das memórias, da autonomia, o confronto com uma vida repetida todos os dias.

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    4. Sim, eu percebo muito bem que a ideia dele é a depuração, este é um ambiente convidativo à introspecção e contemplação, mas a vida não é só osso.

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    5. Faz lembrar a lógica do eremitério ou daquelas ordens religiosas de reclusão e silêncio, excepto que aqui há ainda um conforto que não existe nesses conventos onde toda a mobília é espartana. Mas há a imersão numa paisagem de Natureza contemplativa que apela ao isolamento do mundo e da vida saturada de estímulos que ficou pra trás.

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    6. A casa, segundo sei, foi concebido como casa de fim de semana para uma médica que teria uma vida muito stressante. Talvez daí venha a necessidade de ter uma casa "clean", depurada, propícia ao descanso do corpo e da mente, ao - como disse - "isolamento do mundo e da vida saturada de estímulos".
      Os eremitérios têm um pouco dessa lógica, mas a depuração advém também dos votos de pobreza e da necessidade de concentração do que leva homens e mulheres à contemplação e oração a Deus. Como se o silêncio fosse uma fuga ao ruído mundano para melhor ouvirem a voz de Deus.

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    7. Isso é o que eles dizem... eu acho que é uma fuga aos problemas do mundo. Difícil é lidar com as pessoas do mundo, no mundo, e não perder a fé.

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