O desaparecimento gradual dos tempos verbais (subjuntivo, pretérito simples, pretérito imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado…) conduz a um processo de pensamento ancorado no presente, confinado ao instante, incapaz de se projetar no tempo.
O uso generalizado da forma informal «tu», o desaparecimento das maiúsculas e da pontuação, são golpes fatais para a subtileza da expressão.
A eliminação da palavra «mademoiselle» não é apenas uma renúncia ao encanto estético de uma palavra, mas também uma promoção da ideia de que não há nada entre uma menina e uma mulher.
Menos palavras e menos verbos conjugados significam menos capacidades para expressar emoções e menos possibilidades de elaborar o pensamento.
Estudos demonstraram que uma parte da violência nas esferas pública e privada decorre diretamente da incapacidade de traduzir emoções em palavras. Sem palavras para construir o raciocínio, o pensamento complexo tão caro a Edgar Morin é dificultado, tornado impossível.
Quanto mais pobre for a língua, menos pensamento existe.
A história está repleta de exemplos, e abundam os escritos — desde George Orwell em *1984* a Ray Bradbury em *Fahrenheit 451* — que relatam como ditaduras de todos os tipos obstruíram o pensamento ao reduzir e distorcer o número e o significado das palavras.
Não há pensamento crítico sem pensamento. E não há pensamento sem palavras. Como se pode construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o domínio do condicional? Como se pode imaginar o futuro sem a conjugação do tempo futuro? Como se pode compreender a temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo — sejam eles passados ou futuros — e a sua duração relativa, sem uma língua que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderá vir a acontecer e o que será depois de o que poderá vir a acontecer ter ocorrido? Se hoje fosse necessário ouvir um grito de guerra, seria este, dirigido a pais e professores: façam os vossos filhos, os vossos alunos, os vossos discípulos falar, ler e escrever.
Ensinem e pratiquem a língua nas suas formas mais variadas, mesmo que pareça complicado, especialmente se for complicado. Porque nesse esforço reside a liberdade. Aqueles que explicam incessantemente que a ortografia deve ser simplificada, que a língua deve ser expurgada das suas «falhas», que os géneros, os tempos verbais e as nuances devem ser abolidos — tudo o que cria complexidade — são os coveiros do espírito humano. Não há liberdade sem exigências. Não há beleza sem o pensamento da beleza.
Christophe Clavé
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Esta semana, dois alunos diferentes em turmas diferentes perguntaram-me, 'o que é valham?' Disse-lhes que é uma forma de conjugar o verbo valer e perguntei se nunca tinham ouvido expressões como, 'Valha-me Deus'? Não.
Numa turma, a propósito do consequencialismo de Stuart Mill, às tantas, disse, 'de boas intenções está o inferno cheio'. 'O quê? O que é isso?' Nunca tinham ouvido este dito popular e não o perceberam. Conheciam a palavra inferno embora nem todos soubessem dizer a que se refere mas, mesmo depois de explicar essa referência, não conseguiram perceber o sentido daquele ditado popular. Tive que explicá-lo.
Nunca terem ouvido estas expressões diz-me que não se dão com os pais ou outros adultos que são quem usa este tipo de expressões. Depois, estava a contar isto a umas amigas e uma delas disse-me que se enerva quando vai a casa dos filhos e vê os netos sempre agarrados a ecrãs, cada um no seu quarto, sem falar com os pais. Estamos a falar de pessoas com formação superior e carreiras de sucesso...
Cada vez têm menos referências em comum com os pais, os avós. Vejo isso nas aulas. Até há relativamente pouco tempo, podíamos falar numa banda ou num filme que os alunos conheciam. Agora? Nada. As referências culturais deles são influencers, personagens de jogos da PSP, músicas do Tik Tok.
É claro que se lessem alguma coisa com mais de um ou dois anos de idade, já tinham lido aquelas expressões.
O, não admirável, mundo novo.
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