May 31, 2026

O conhecimento é algo que se carregamos connosco; a informação é algo a que se busca quando é necessário



Um artigo acerca do que se perde na leitura digital relativamente à leitura de livros em papel.

--------

Num dia de Junho de 2018, vi uma pá carregadora despejar milhares de livros num grande contentor verde. Tinha aparecido durante a noite, estacionado atrás da biblioteca da universidade onde eu leccionava Inglês. Ouvi os livros antes de os ver; o terrível som dos embates chegou até ao meu gabinete na cave, sem ar condicionado, interrompendo o meu próprio trabalho no manuscrito do meu primeiro livro, que nessa altura estava quase concluído. Os volumes que enchiam o contentor estavam a ser «desafectados», como a prática é conhecida na ciência da informação. A biblioteca estava a ser renovada. Seriam criadas amplas áreas abertas de convívio. E, por isso, as estantes estavam a ser esvaziadas para criar espaço — não para mais livros, mas para o próprio espaço.

Alguns meses antes da chegada do contentor, tinha sido arrastada para uma amarga disputa em torno daqueles livros ameaçados. Tudo começara com uma folha de cálculo enviada pelos funcionários da biblioteca, listando vários milhares de títulos que seriam abatidos da colecção devido às baixas taxas de requisição. A mim e aos meus colegas foram dadas algumas semanas para identificarmos quaisquer livros que considerássemos dignos de ser preservados. O resultado foi, inicialmente, uma explosão de energia. Acrescentámos comentários. Escrevemos defesas apaixonadas dirigidas aos bibliotecários responsáveis pela triagem. Partilhámos a lista com os nossos estudantes, que requisitaram títulos destinados à remoção — uma última tentativa desesperada de aumentar a sua circulação. E concordámos em ficar nós próprios com alguns dos livros rejeitados, guardando-os nos nossos gabinetes, salas de aula ou espaços comuns do campus, uma vez que os bens de uma universidade pública, mesmo quando considerados lixo, não podem ser transferidos para particulares.

O meu envolvimento naquela luta era tão pessoal quanto profissional: o manuscrito em que trabalhava naquele dia de junho era sobre uma biblioteca — ou meia biblioteca. Os livros que ela continha tinham pertencido à escritora Edith Wharton. Metade dos volumes ainda existe hoje, mas a outra metade é um fantasma, com títulos como Eline Vere, o romance de Louis Couperus, talvez a principal fonte de inspiração para The House of Mirth de Wharton, reduzidos a meras entradas numa folha de cálculo. Enquanto observava o grande contentor verde encher-se de livros, vi outra biblioteca fantasma a começar a formar-se.

A minha obsessão pela biblioteca de Wharton surgira cinco anos antes, e de forma algo acidental. Como estudante de doutoramento em Inglês, recebi uma bolsa para trabalhar em The Mount, a casa de Wharton em Lenox, Massachusetts, onde me convenci de que, para a conhecer e compreender como escritora, tinha de a compreender como leitora. Ao folhear quase três mil livros da sua biblioteca, vi-a dialogar com eles, discordar deles, questioná-los, antagonizá-los e debater-se com eles. Num deles, escreveu a lápis a palavra succotash — o equivalente oitocentista de «disparate»; na folha de guarda de outro, oferecido ao seu amante William Morton Fullerton, compôs um poema de quatro estrofes que não existe em mais lado nenhum escrito pela sua própria mão. Estes vestígios físicos permitiram-me perceber como ela lera os seus livros, mas também me mostraram onde sucumbira ao poder de outro escritor. Os seus sublinhados, pontos de exclamação e linhas onduladas transformaram-se num atlas através do qual consegui discernir tanto a sua evolução como escritora como as suas lutas, enquanto leitora, para compreender textos escritos em seis línguas diferentes.

Passei cinco verões a trabalhar em The Mount, catalogando e digitalizando a biblioteca de Wharton e, ao mesmo tempo, aprendendo com ela. As histórias que contava não eram apenas sobre Edith Wharton. Eram também sobre o que significa tentar conhecer alguma coisa — chegar ao conhecimento, procurar alcançá-lo com a ajuda dos livros. Embora Wharton se tenha tornado conhecida como escritora de ficção, era leitora de tudo: os seus livros abrangiam não apenas várias línguas, mas também assuntos que iam da botânica à Roma Antiga. Um deles, The Week-End Book, de Francis Meynell, continha instruções para jogos de relvado e uma receita de sanduíches de manteiga de amendoim com azeitonas.

Mas eu tinha de continuar a lembrar-me de que os volumes que via nas estantes constituíam apenas metade da sua coleção. Houve momentos em que a metade desaparecida parecia falar mais alto do que os livros que eu segurava nas mãos. Quando Wharton morreu, em 1937, sem deixar filhos, o seu testamento legou a sua biblioteca aos filhos de dois amigos seus. O primeiro, William Royall Tyler, Jr., guardou a sua metade num armazém nos arredores de Londres. A outra metade foi para Colin Clark, que deixou os livros apodrecerem durante décadas no castelo da sua família, em Kent, até que dificuldades financeiras levaram o seu irmão a começar a vender parcelas da coleção a vários comerciantes de livros raros. A metade de Clark foi recuperada com enorme cuidado e devolvida a The Mount, mas a outra metade foi destruída em 1941, durante a Blitz de Londres.

À medida que investigava a forma como a biblioteca tinha surgido e todas as muitas maneiras como Wharton a utilizara, as questões sobre a outra metade persistiam. Na sua correspondência, agradecia a um amigo a oferta de um volume que eu não conseguia retirar de nenhuma estante. Mantinha longas listas de publicações a serem transportadas entre as suas várias residências em Massachusetts, na Provença e nos subúrbios de Paris, e eu examinava minuciosamente esses pequenos inventários, vislumbrando uma biblioteca que nunca chegaria a ver. Porque, mesmo que pudesse reconstruir a metade fantasma através desses documentos, não conseguiria aceder ao envolvimento de Wharton com ela: todas aquelas perguntas escritas a lápis, comentários e linhas onduladas — todo o registo das suas interações, que iluminara para mim as páginas dos livros sobreviventes — continuariam perdidos para sempre.

(...)

O escritor escreve, segundo Jacques Derrida, para descobrir aquilo que pensa, incluindo o que pensa sobre aquilo que leu. Esse mesmo escritor procura depois transmitir essas ideias a um novo leitor, que lê para descobrir o que pensa acerca do que o escritor pensa. Mas tanto o escritor como o leitor estão a jogar (outra das palavras favoritas de Derrida). Ambos participam num jogo que não tem fim, e o texto é o campo, o terreno ou o recinto onde esse jogo se desenrola. Derrida chama a esse jogo desconstrução.
(...)
A desconstrução não é algo que alguém faz a um texto; é algo que o próprio texto faz a si mesmo. É uma característica inerente a processos altamente voláteis e uma das razões pelas quais os livros físicos se transformam em objectos de fantasia. Os livros existem para impor sonhos de estabilidade e de ordem aos processos de leitura e escrita que lhes estão associados. O autor pode estar vivo ou morto. Em qualquer dos casos, o livro contém o acontecimento que é — ou foi — o texto, para o manter vivo e dar-lhe coerência. Ou, dito de outro modo, o texto é o fantasma, enquanto o livro é o médium através do qual esse fantasma fala. Sem o médium, a ligação entre quem fala e quem escuta quebra-se, e a linha fica muda.

É por isso que, diz Jacques Derrida, não existe história sem linguagem. Nós, seres humanos, comunicamos o conhecimento acerca do passado através da linguagem — por meio da conversa, da narrativa, da educação e, sim, sobretudo da escrita, que cria um registo semi-coerente e semi-ancorado dessa linguagem. Apresentamos esse registo sob a forma de um livro, algo a que se pode regressar e consultar repetidamente. E depois, por fim, guardamos esse livro num lugar onde possamos aceder-lhe: uma biblioteca. Para alguém como Edith Wharton, isso pode significar uma biblioteca pessoal, preenchida com os vestígios do seu próprio envolvimento com esses textos. Mas, como poucos de nós podem dar-se ao luxo de construir uma biblioteca pessoal de três mil volumes, existem também bibliotecas partilhadas, as bibliotecas públicas das nossas cidades e escolas.

É assim que uma biblioteca se torna a etapa final e crucial de uma cadeia de acessibilidade que permite o contacto com o texto. Existem, naturalmente, outras formas de aceder ao texto: livrarias, salas de aula e ficheiros PDF que podem ser descarregados, legalmente ou não, da internet. Mas essas outras formas colocam barreiras — muitas vezes financeiras, por vezes técnicas, por vezes físicas — entre o leitor e o texto. Introduzem atrito. 

Ler um PDF pirateado não é o mesmo que ler um livro impresso. Há vinte anos, investigadores da experiência do utilizador (UX) já observavam que, na leitura online, grandes secções de um texto são ignoradas ou percorridas rapidamente, de acordo com os hábitos de deslocação do ecrã. O olhar, por exemplo, tende a seguir um padrão em forma de F ao longo da página. Em 2023, investigadores da Universidade de Valência publicaram os resultados de um estudo que mostrava que a leitura em papel, durante períodos prolongados, pode produzir um aumento da compreensão entre seis e oito vezes superior. A partir destes exemplos, e de inúmeros outros semelhantes, sabemos que ler textos digitais não reproduz simplesmente a experiência de ler textos impressos. Ainda assim, continuamos a desvalorizar as ferramentas que aprofundam a compreensão em favor daquelas que oferecem maior conveniência.
(...)
A maioria dos estudantes de licenciatura nas minhas aulas de escrita não lê muito bem. Percorrem um romance de Nathaniel Hawthorne ou um conto de Edith Wharton seguindo o padrão de leitura em forma de F, deslizando rapidamente pelo texto. Não os culpo; as circunstâncias conspiraram contra eles. Hoje é muito mais difícil ler do que era há uma geração, devido à omnipresença das distrações digitais e a situação continua a agravar-se. Os nossos dispositivos mantêm-nos ocupados a enviar mensagens, publicar conteúdos e distribuir «gostos», consumindo assim as nossas vidas. Parece que estamos a ler, mas, na realidade, os níveis de literacia encontram-se em queda livre.

Um dos factores mais importantes por detrás desta tendência poderá muito bem ser o afastamento dos livros. Na universidade onde agora lecciono, somos incentivados a adotar Recursos Educativos Abertos (Open Educational Resources — OER), isto é, textos com licenças abertas, geralmente acessíveis em formato digital, numa iniciativa que supostamente visa poupar dinheiro aos estudantes. O princípio subjacente é meritório, mas, ao mesmo tempo, transmite uma mensagem que diminui a importância da sua aprendizagem. Ensina os estudantes a desvalorizar os instrumentos da sua educação e, do mesmo modo, os produtos dessa educação: aquilo que escrevem e pensam em resposta ao que leram.

Que valor pode esse trabalho ter se os próprios livros foram considerados desprovidos de valor?
(...)
O declínio dos livros — do seu valor, da sua ubiquidade ou da sua disponibilidade — é o declínio do esforço para pôr ideias em circulação e fazer com que o conhecimento tenha importância. Deixei a universidade onde ensinava Jacques Derrida em 2020 e agora leciono noutra instituição, onde estou constantemente sob pressão para abandonar a tecnologia do livro — para desistir dela.

Quando comecei o meu novo emprego, foi-me atribuído um gabinete sem estantes. O edifício era novo, certificado segundo os padrões LEED, e disseram-me que os arquitectos que o conceberam partiram do princípio de que os professores já não necessitam nem utilizam livros. Eu tinha acabado de atravessar o país com quase três mil livros e não conseguia acomodá-los todos no meu apartamento. Por isso, fiz o que tinha de fazer: usei o meu próprio dinheiro para comprar estantes baratas de aglomerado e montei-as eu mesma.

Não consigo pensar sem os meus livros, mas, mais importante ainda, não gostaria sequer de tentar. É isso que procuro transmitir aos estudantes que me visitam no gabinete, aqueles que me perguntam: «Já leu realmente todos esses livros?» A resposta é não, não os li a todos, mas essa não é a questão. Os livros estão ali para me recordar o meu próprio desejo de mais conhecimento.

Sheila Liming in What happened when a dumpster arrived behind my university's library https://yalereview.org/article/sheila-liming-the-end-of-books (excerto)

No comments:

Post a Comment