Aqui está uma pessoa chateada porque numa exposição de trabalhos escolares o filho dela não teve boa nota porque terá sido a única mãe a não fazer o trabalho do filho (é o que pensa, não o que sabe) e vem para um jornal nacional fazer queixinha da professora e dos outros pais.
Como se isso não chegasse, apesar de reconhecer que não percebe nada de educação (escolar) resolve dizer aos professores como devem trabalhar e que formações devem fazer, partindo da sua experiência "enquanto mãe e aluna", e que trabalhos de casa os alunos devem ter e aconselha a usar o ChatGPT porque em sua opinião, os pais fazerem os TPCs dos filhos é a mesma coisa que usar o ChatGPT. E fala em paradigmas da educação sem perceber um boi do que está a dizer e, portanto, diz disparates.
Imagine-se que eu, enquanto mãe e doente de muitos médicos, apesar de não perceber nada de medicina, fosse para um jornal queixar-me dos TPCs que os médicos me passam (rotinas de exercícios, medicação, etc.) ou passaram ao meu filho de cada vez que esteve doente, ou dizer aos médicos como tratar os doentes, que formação devem fazer, como mudar o paradigma da medicina, etc., ou ainda, como tratar doentes com cancro, pois tenho muita experiência dessa doença ou de outras que também tenho. Rídiculo, não?
Pois, só que em relação à educação escolar todos, porque já foram alunos e têm filhos e acham sempre que os seus filhos são vítimas, que os professores não vêem a sua excepcionalidade, pensam que a profissão de professor não é uma especialidade e qualquer um pode dizer como se deve trabalhar. E dizem isso aos filhos, o que lhes causa grande prejuízo, mas não percebem. É por isso que depois ficam admirados, como o ME, quando ouvem dizer que os professores são bons numa certa especialidade. Não estavam à espera, porque afinal, não só não deram grandes notas aos seus princípes como é uma profissão que qualquer um entende como fazer e pode fazer.
Há jornais que em nada diferem do pior das redes sociais. Estão no fundo da caverna. Continuem assim que vão bem.Urge formar professores e depois criar, nas diferentes disciplinas, módulos de literacia em inteligência artificial para que os alunos percebam como a usar criticamente — até porque, como bem sabemos, as alucinações do sistema não são propriamente raras. E depois, e isto é o mais importante, é preciso reformular o paradigma e alterar o tipo de trabalhos e exercícios pedidos. Há anos que o nosso ensino se baseia no “copiar / colar”. Porque mesmo sem ChatGPT, já tínhamos o Google e a Wikipédia e os trabalhos que são pedidos, e mesmo as perguntas nos testes, andam muito mais à volta do “escreva sobre” do que do “analise, reflicta ou dê uma opinião fundamentada”. Além disso, temos pouco o hábito de realizar avaliações orais e debates em ciclos menos avançados — e estes são exactamente os desafios onde não há inteligência artificial que valha.
Não sei muito de educação — na verdade, não sei nada. Mas sei, por experiência própria enquanto aluna e enquanto mãe, que o nosso ensino vive preso a uma lógica onde a repetição é valorizada em detrimento da compreensão e onde continua a pedir-se aos alunos que reproduzam informação em vez de a analisarem criticamente. É por isso que fico sempre surpreendida quando ouço especialistas que falam da inteligência artificial como se ela fosse a mãe de todos os males: é que trabalhos feitos sem reflexão, ausência de pensamento crítico e dependência de respostas fáceis já existiam muito antes do ChatGPT. A inteligência artificial não veio criar um problema, mas destapar um sistema de ensino que não acompanhou o mundo e que se tornou vulnerável.E pronto, já divaguei. Porque o meu objectivo inicial era só descarregar a indignação que senti depois de sair de uma exposição com trabalhos supostamente de crianças, mas que foram feitos por adultos.Carmen Garcia, https://www.publico.pt (excerto)
A educação escolar está minada de treinadores de bancada... a começar pelos pais. Uns não sabem acompanhar os filhos, outros não sabem os filhos que têm. Essa mulher não sabe lidar com a nota do filho e vem para os jornais fazer escândalo.
ReplyDeleteExacto.
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