A Farmácia Verde da Idade Média
Antes dos antibióticos, antes das salas de cirurgia, antes do hospital tal como o conhecemos – existia o jardim de ervas. Como monges, mulheres sábias e manuscritos antigos mantiveram a Europa viva durante mil anos.
THEMEDIEVALIST
Image of Circa instans (book of simple medicine) – a medical manual of herbs compiled in the 12th or 13th century and surviving in 240 copies meaning it was very popular. This image is a late 15th century French version. MS. 626, folios 207v–208r. Wellcome Images L0055259.
Imagine que acorda com febre na Inglaterra do século XII. Não há consultório médico ao virar da esquina, nem farmácia, nem paracetamol na prateleira. O que tem — se tiver sorte — é um monge na abadia próxima, um ramo de erva-de-são-joão seca e uma receita escrita em latim cuja origem remonta à Grécia antiga. Para a maioria das pessoas que viveram entre 500 e 1500 d.C., isto era medicina.
A fitoterapia não era uma prática marginal na Idade Média. Era a espinha dorsal dos cuidados de saúde em todos os níveis da sociedade, desde as cabanas dos camponeses até às cortes reais. Os monges cultivavam «jardins medicinais» repletos de dezenas de plantas medicinais. As mulheres transmitiam o conhecimento sobre as plantas de geração em geração, tratando as suas famílias com remédios aperfeiçoados ao longo de séculos. E os estudiosos nos mosteiros e nas primeiras universidades copiavam, traduziam e debatiam textos antigos que tinham viajado da Grécia para Roma, para o mundo árabe e de volta.
«Por que razão deveria um homem morrer quando a salva cresce no seu jardim?»
— Provérbio medieval
A história da fitoterapia remonta a muito antes da Idade Média. Evidências arqueológicas — vestígios de pólen encontrados em sepulturas neolíticas — sugerem que os povos pré-históricos enterravam deliberadamente os seus mortos com plantas medicinais, o que indica um conhecimento da cura à base de ervas que remonta a dezenas de milhares de anos. Na antiga Mesopotâmia, tabuinhas de argila com mais de 5.000 anos enumeram centenas de remédios à base de plantas. O Papiro de Ebers, do Egito, datado de cerca de 1550 a.C., catalogava mais de 850 medicamentos à base de ervas, incluindo alho, incenso e aloé vera, cujas qualidades terapêuticas ainda hoje reconhecemos.
Na era clássica, este conhecimento acumulado começou a passar da tradição oral para a forma escrita. Os médicos gregos trouxeram-lhe um novo rigor: Hipócrates despojou a cura dos seus encantamentos mágicos e argumentou que a doença tinha causas naturais, e não divinas. Os seus sucessores — Galeno, Plínio, o Velho, e, mais importante ainda, Pedânio Dioscórides — levaram a medicina à base de plantas ainda mais longe.
O livro que dominou a medicina durante quinze séculos
No século I d.C., Dioscórides, um médico grego ao serviço do exército romano, viajou extensivamente pelo império estudando as plantas locais. O resultado foi a De Materia Medica, uma enciclopédia em cinco volumes que descreve cerca de 600 espécies de plantas, a sua aparência, onde encontrá-las, quais as doenças que podiam tratar e quais eram perigosas. Durante mais de 1500 anos, permaneceu a referência central para a medicina herbal em toda a Europa e no mundo islâmico — copiada por monges, traduzida para árabe, persa e latim, e eventualmente impressa no início da Renascença.
O que a tornou tão duradoura foi a sua clareza e abrangência. Dioscórides não especulava — ele descrevia. Ele anotava quais as plantas que causavam dor, quais induziam o sono e quais paravam a hemorragia. Os curandeiros medievais podiam pegar numa cópia feita seis séculos após a sua morte e encontrar a mesma informação prática e útil que ele tinha compilado ao longo de uma vida de observação.
As ervas que mantiveram a Europa viva
Todos os dias, a medicina medieval dependia de plantas que podiam ser cultivadas num jardim ou colhidas de uma sebe. Estas não eram raridades exóticas — eram humildes, comuns e acessíveis a quase qualquer pessoa.
Os remédios assumiam a forma de infusões preparadas como chá, cataplasmas aplicadas sobre as feridas, pomadas esfregadas na pele e xaropes conservados em mel ou vinho. O próprio vinho era frequentemente a base para preparações à base de ervas — não apenas pelo sabor, mas porque os líquidos fermentados eram mais seguros do que a água e ajudavam a extrair os compostos activos da planta. Uma receita do século X para desconforto digestivo, por exemplo, pede sementes de erva-doce e hortelã fervidas em vinho, coadas e servidas quentes após as refeições — uma preparação não muito diferente das tisanas à base de ervas vendidas hoje em lojas de produtos naturais.
Para condições mais graves, os médicos medievais também empregavam drogas vegetais poderosas — e perigosas: papoila-do-ópio para o alívio da dor, mandrágora e meimendro como anestésicos, e beladona para dilatar as pupilas antes de uma cirurgia. Estas não eram utilizadas de ânimo leve. Uma poção cirúrgica para induzir o sono chamada dwale*, que combinava ópio, cicuta, meimendro e vinho, exigia uma dosagem cuidadosa; uma dose excessiva mataria o paciente.

Lembro-me que, em Tibães, ainda existe o jardim de plantas medicinais que serviram ao convento e a quem o procurava; facto visível no que foi a farmácia do mosteiro. Achei tão bonito! Quando visitei, andava por lá uma mulher com todo o ar de freira "à civil" (sem hábito) e que me fez uma visita guiada ao jardim: sabia o nome de todas as plantas e para que serviam. Gostaria de ter sido frade em Tibães:)
ReplyDeleteIsso não queria, mas não me importava nada de me reformar e ir viver para o campo, para um sítio propício à contemplação.
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