April 09, 2026

O Mago do Kremlin (The Wizard of the Kremlin)

 


Fui ver este filme, apesar de ter lido críticas negativas nos jornais e sites ingleses. Estava muito interessada no tema. O filme é uma adaptação do do romance original de Giuliano da Empoli com o mesmo nome. 

Escritor e analista político ítalo-suíço, formado em Direito (La Sapienza) e Ciência Política (Sciences Po), foi assessor do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, vice-prefeito de Florença e membro do conselho da Bienal de Veneza. Conhecedor profundo dos meandros do poder e investigador político, este assessor escreveu este livro inspirado em outro assessor, Vladislav Surkov, o chamado Cardeal Cinzento - um intelectual, dramaturgo, escritor, homem da comunicação e da propaganda que decidiu servir Putin, a partir do final da década de 90. (Expresso)

Gostei do filme e é um filme que deve ver-se no cinema. Penso que foi filmado em Latvia. O enquadramento da acção nas paisagens, exteriores e interiores deve ver-se em tela grande. Logo o início do filme é uma cena entre bosques de neve, abetos e pinheiros, na casa de Vadim Boranov - que representa o tal assessor de comunicação de Putin, Vladislav Surkov. Vemos logo que a cenografia do filme vai ser boa. 

O filme é enorme. Abrange a época da Rússia que vai desde Yeltsin até invasão da Crimeia. É em inglês, o que se percebe, mas tira-lhe um bocadinho de força. No entanto, é um filme para consumo ocidental, para que se perceba um pouco do que foi essa época de transição e caos até à caída em nova ditadura. Portanto, é um filme sobre a ascensão de Putin vista e, em parte, orquestrada, pelo seu assessor.

O filme está de acordo com a visão que tenho, do que leio, dos anos de excessos libertários de Yeltsin, de como alguns se aproveitaram dessa nova liberdade para enriquecer, de como ninguém exercia controlo sobre coisa alguma e de como Putin foi escolhido por oligarcas, muito ingénua e estupidamente, para ser um testa de ferro manipulável ao serviço dos oligarcas. Devorou-os a todos.

Uma coisa fica clara no filme, embora nunca seja abordada, sequer: a Rússia não tem, nem nunca teve instituições, com excepção do KGB. É a única força estruturada, com uma hierarquia estável e contínua no tempo. Não há intermédios entre o homem do poder e o povo. O poder é vácuo, não tem conteúdo e reduz-se à vontade do homem forte. No tempo dos czares o poder estava descentrado nos vários senhores feudais, a nobreza, mas também não tinha instituições que preservassem a lei e a ordem independentemente do chefe. Desde a revolução do horror vermelho de sangue, o poder passa de um facínora para outro sem nunca criar raízes em instituições que cuidem do povo. E é por isso que o povo não espera ser tratado como tendo direitos. Esperam ser tratados como crianças. E a única coisa que temem são os homens do KGB. Ora Putin é o quê? Um homem do KGB.

Quem faz de Putin é Jude Law. De início nem percebi que era ele. Está muito parecido com o Putin inicial do ano 2000. Ele faz bastante bem esse papel de homem habituado a saber tudo de toda a gente, a desprezar toda a gente por saber os seus pequenos pecadilhos e usá-los para humilhar e para a vingança, um homem poderoso mas parado na pobreza inicial da sua vida. Muito complexado por isso. Um indivíduo calculista e narcísico que foi piorando ou reforçando o que já tinha de mau, à medida que crescia em poder. Uma pessoa que não se importa de atirar a Rússia para o inferno por ganância de poder. Um tipo raivoso, cheio de paranóias, desejos de vingança e hábitos de fazer desaparecer quem não gosta. Sem lealdade a ninguém.

Paul Dano é o assessor. Um liberal dos anos 90 que não gosta do estudo e se habitua ao poder. Um Maquiavel dos tempos actuais. Grande parte do filme somos nós a acompanhar os meandros dos seus raciocínios maquiavélicos sobre como manipular tudo e todos para criar um caos sem estrutura nem ordem, onde só o medo do ditador impera.

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