Janet Murray
Ao princípio não percebia qual era o problema com a ideologia de género.
Sou liberal em relação à maioria das coisas. “Vive e deixar viver” tem sido, em geral, o meu lema. Acreditava que a inclusão era importante. Acreditava na importância de ser gentil. Em não usar linguagem que pudesse perturbar desnecessariamente as pessoas.
Conhecia pessoas que se identificavam como transgénero. Sabia que alguns adultos escolhiam tratamentos médicos ou cirurgias para se assemelharem ao sexo oposto. Isso parecia-me uma questão de autonomia pessoal. Os adultos podem fazer o que quiserem com os seus próprios corpos.
O que eu não tinha percebido — e sinto algum embaraço em admiti-lo — é que tinha compreendido mal o que estava a ser defendido.
Eu pensava que “transgénero” significava uma forma de auto-expressão. Um homem que gostava de usar roupas de mulher. Alguém que mudava de nome. Não conformidade de género.
O que eu não tinha compreendido era que os activistas não estavam apenas a pedir tolerância. Estavam a afirmar que declarar-se como pertencendo ao sexo oposto transformava a pessoa no sexo oposto. Não metaforicamente. Literalmente.
E que isto não era apenas uma questão cultural. Tinha consequências legais.
Significava que homens que diziam ser mulheres exigiam acesso ao desporto feminino, às prisões femininas, aos abrigos para vítimas de violações e violência doméstica e às enfermarias hospitalares destinadas a mulheres.
Significava reescrever a linguagem na área da saúde — “pessoas grávidas”, “corpos com colo do útero” — tudo para evitar dizer “mulheres”.
Significava que crianças com dificuldades de identidade seriam encaminhadas para percursos médicos com implicações de saúde graves para toda a vida.
E também implicava redefinir a atracção pelo mesmo sexo. Lésbicas serem chamadas de “preconceituosas” por não quererem relações com homens biológicos que se identificam como mulheres. Homens gays serem acusados de preconceito por dizerem que não se sentem atraídos por corpos femininos. Nada disto fazia qualquer sentido.
Mas também tinha ignorado até onde tudo isto já tinha chegado — às políticas de recursos humanos, às ordens profissionais, às escolas, aos partidos políticos e às instituições públicas.
E como facilmente a discordância era apresentada como crueldade. Falar parecia arriscado — porque víamos como outras pessoas eram humilhadas publicamente por fazê-lo.
Nada disto é abstracto porque o sexo é a base sobre a qual funcionam as medidas de protecção. Sobre a qual são recolhidos dados. Sobre a qual funcionam os programas de rastreio do cancro, as doenças próprias das mulheres e os dados que permitem agir sobre essas doenças. Sobre a qual dependem o desporto justo e os espaços separados por sexo. Está inscrito na lei — incluindo na Lei da Igualdade — porque as diferenças materiais importam.
Se o sexo se tornar um “sentimento” em vez de uma categoria biológica, essas protecções tornam-se instáveis e quando a realidade se torna negociável, tudo se torna instável.
Quando vi isto, já não consegui deixar de o ver. Porém, queria ter a certeza. Por isso li, livros, artigos de investigação, documentos de políticas públicas. Quando finalmente falei publicamente, houve reacções negativas de todos os lados.
Muitas mulheres agradeceram-me — tanto em privado como publicamente, mas algumas feministas criticaram-me por ter falado demasiado tarde.
Outras ficaram zangadas por causa de uma entrevista que tinha feito no passado com o pai de uma pessoa transgénero, acusando-me de promover dano.
É preciso coragem para mudar de opinião publicamente. É preciso coragem para falar quando sabemos que a nossa reputação, amizades ou sustento podem estar em risco — quando sabemos que levantar a voz pode pôr sob tensão ou até terminar relações que valorizamos.
Quando percebi o que estava em causa, ficar em silêncio deixou de ser uma opção. Perdi o meu sustento simplesmente por dizer que não gostava da expressão “pessoas grávidas”. Só isso já diz muito sobre o que está profundamente errado. Não deveria ser assim.
Nunca julgarei nenhuma mulher pelo momento em que encontra a sua voz porque cada voz acrescenta valor — sempre que se levanta.
E sei quão persuasiva esta ideologia pode ser. Sei como facilmente me passou ao lado. E sei quanta coragem é necessária para admitir, publicamente, que nos enganámos em relação a alguma coisa.
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