Porque é que os desafios do colonialismo e do sexismo são tão semelhantes.
FRANZISKA DAVIES
Depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, tornei-me activista pela Ucrânia e, um pouco mais tarde, comecei a criticar o russocentrismo tão prevalente na academia ocidental.
Por diferentes razões, que talvez venha a discutir noutro ensaio, não vejo o papel de activista como incompatível com o papel de académica. Como disse recentemente o grande historiador Karl Schlögel no Café Kyiv, em Berlim, há algumas semanas, só se pode ser um bom historiador se se estiver desperto — se houver interesse não apenas pelo passado, mas também pelo presente e pelas interligações entre ambos.
Defender posições com base na sua especialização académica não diminui, ou pelo menos não deveria diminuir, de forma alguma, a credibilidade de alguém como investigador sério.
Foi uma coincidência ter-me tornado também activista numa outra esfera depois de 2022. No verão de 2023, tornou-se público que dois académicos (homens) da Universidade Humboldt de Berlim tinham assediado estudantes e pós-graduadas durante décadas com total impunidade.
Foi uma coincidência ter-me tornado também activista numa outra esfera depois de 2022. No verão de 2023, tornou-se público que dois académicos (homens) da Universidade Humboldt de Berlim tinham assediado estudantes e pós-graduadas durante décadas com total impunidade.
Juntamente com algumas académicas, fundei a rede #metoohistory, através da qual tentámos chamar a atenção para o problema estrutural do abuso de poder e do assédio sexual na academia. Com o tempo, comecei a notar que as minhas experiências em ambos os campos do meu “activismo” eram bastante semelhantes. Percebi rapidamente que isso não era, na verdade, surpreendente, porque em ambos os casos lidamos com certas estruturas tradicionais de poder.
O russocentrismo é o legado de estruturas coloniais de poder; o abuso de poder e o assédio sexual são o legado de estruturas patriarcais. Quais são então as semelhanças?
Viver em mundos paralelos: em ambos os casos, por vezes sinto que navego entre dois mundos paralelos. Depois do nosso primeiro evento do #metoohistory na Alemanha, uma professora (sim, uma mulher!) aproximou-se de mim e disse: “É fantástico o que estão a fazer, mas, sinceramente, quão comum é o assédio sexual e o abuso de poder na academia? É tão raro!” Olhei para ela, espantada.
Viver em mundos paralelos: em ambos os casos, por vezes sinto que navego entre dois mundos paralelos. Depois do nosso primeiro evento do #metoohistory na Alemanha, uma professora (sim, uma mulher!) aproximou-se de mim e disse: “É fantástico o que estão a fazer, mas, sinceramente, quão comum é o assédio sexual e o abuso de poder na academia? É tão raro!” Olhei para ela, espantada.
Será mesmo isso que ela acredita? Creio que sim. Ela está na posição privilegiada de nunca ter experienciado abuso de poder ou assédio sexual. Ainda bem para ela! Mas não é essa a minha realidade. O alarmante é que, aparentemente, ela nunca tinha sequer ouvido falar desses casos.
Esta é a primeira semelhança: duas realidades paralelas. Por um lado, existem as “redes de sussurros” de pessoas que foram abusadas e dos seus aliados. Falamos uns com os outros, apoiamo-nos mutuamente, mas algures fora do olhar público. Muitas vezes, as histórias que ouvimos ou contamos são partilhadas em confidência. Por outro lado, existem as redes dos perpetradores, dos espectadores que sabem o que se passa e daqueles que são privilegiados pela ignorância.
O mesmo acontece com aqueles que são afectados pelo colonialismo russo. A colega ucraniana que entra no seu gabinete a 25 de fevereiro de 2022 numa instituição ocidental: um professor aproxima-se dela e diz: “Lamento tanto! É horrível! Eu adoro tanto a Rússia!”
O mesmo acontece com aqueles que são afectados pelo colonialismo russo. A colega ucraniana que entra no seu gabinete a 25 de fevereiro de 2022 numa instituição ocidental: um professor aproxima-se dela e diz: “Lamento tanto! É horrível! Eu adoro tanto a Rússia!”
A colega ucraniana numa instituição ocidental a quem os “académicos russos em risco” se dirigem continuamente em russo: ela responde em inglês, mas eles não percebem a mensagem.
A colega ucraniana que permanece em silêncio enquanto “académicos russos em risco” lamentam como as suas carreiras académicas foram prejudicadas pela “guerra na Ucrânia” (enquanto os pais dessa colega ucraniana são bombardeados diariamente).
A colega ucraniana que vê o seu colega russo receber uma bolsa muito melhor do que a sua — mas estará ela numa posição em que possa queixar-se? Permanece em silêncio; não está exatamente numa posição de poder.
Quem ouve estas histórias? Quem ouve as histórias daqueles que foram vitimizados por professores poderosos? Quem ouve as histórias daqueles que são tratados com desrespeito por académicos russos ou pelos seus colegas ocidentais russocêntricos? Se tivesse sido afectado, com quem partilharia o seu trauma? Só partilharia a sua história com alguém que sabe que a reconheceria. O que não precisa de ouvir depois de ter sido agredido ou assediado por um professor é que “ele pode ser muito simpático”, ou que “a maioria dos professores homens é perfeitamente normal”, ou que “ele sempre foi simpático comigo”. A quem contaria a sua dor depois de um colega russo, pela milionésima vez, ter desvalorizado a sua experiência e ter feito tudo girar em torno de si próprio? Contaria a alguém que lhe explicaria que está a ser injusto para com os russos? Ou que provavelmente entendeu mal o que foi dito? Que talvez esteja a exagerar? Que têm a certeza de que esse colega russo não teve intenção de o magoar e que deveria tentar ver tudo da perspectiva dele? Essa é precisamente a reacção de que não precisa.
Quem ouve estas histórias? Quem ouve as histórias daqueles que foram vitimizados por professores poderosos? Quem ouve as histórias daqueles que são tratados com desrespeito por académicos russos ou pelos seus colegas ocidentais russocêntricos? Se tivesse sido afectado, com quem partilharia o seu trauma? Só partilharia a sua história com alguém que sabe que a reconheceria. O que não precisa de ouvir depois de ter sido agredido ou assediado por um professor é que “ele pode ser muito simpático”, ou que “a maioria dos professores homens é perfeitamente normal”, ou que “ele sempre foi simpático comigo”. A quem contaria a sua dor depois de um colega russo, pela milionésima vez, ter desvalorizado a sua experiência e ter feito tudo girar em torno de si próprio? Contaria a alguém que lhe explicaria que está a ser injusto para com os russos? Ou que provavelmente entendeu mal o que foi dito? Que talvez esteja a exagerar? Que têm a certeza de que esse colega russo não teve intenção de o magoar e que deveria tentar ver tudo da perspectiva dele? Essa é precisamente a reacção de que não precisa.
Precisa de alguém que compreenda que isto faz parte de uma história maior, de um problema estrutural. Precisa de alguém que reconheça a sua dor e o seu trauma. Seja o tipo de académico a quem as pessoas confiariam o seu trauma. Se todas estas histórias são novas para si, então algo está errado.
Privilegiamento estrutural: fui inspirada a escrever este texto por um concurso para bolsas na Universidade do Ruhr, em Bochum, destinado a investigadores afectados pela “guerra na Ucrânia”. A formulação do anúncio deixou-me perplexa. As bolsas destinam-se a “investigadores que foram forçados a deixar os seus países devido à repressão e perseguição políticas”.
Privilegiamento estrutural: fui inspirada a escrever este texto por um concurso para bolsas na Universidade do Ruhr, em Bochum, destinado a investigadores afectados pela “guerra na Ucrânia”. A formulação do anúncio deixou-me perplexa. As bolsas destinam-se a “investigadores que foram forçados a deixar os seus países devido à repressão e perseguição políticas”.
Ora, os ucranianos (exceto aqueles que vivem em territórios ocupados pela Rússia) não estão sujeitos a “repressão e perseguição políticas”. O problema deles é que estão a ser bombardeados pela Rússia. Assim, é pouco provável que sintam que este concurso se dirige a eles.
Uma breve pesquisa revelou rapidamente que a maioria destas bolsas parece, até agora, ter sido atribuída a russos. Isto dificilmente é surpreendente, dada a forma como o anúncio foi formulado. O facto de a Universidade do Ruhr cooperar com a fundação russa Zimin para financiar esta bolsa provavelmente afastará ainda mais muitos ucranianos.
Eu (como outras pessoas) chamei a atenção dos responsáveis pelo programa para este facto, mas eles não viram necessidade de agir. A única alteração desde então foi que a expressão “guerra na Ucrânia” foi substituída por “guerra de agressão da Rússia”.
Eu (como outras pessoas) chamei a atenção dos responsáveis pelo programa para este facto, mas eles não viram necessidade de agir. A única alteração desde então foi que a expressão “guerra na Ucrânia” foi substituída por “guerra de agressão da Rússia”.
Quando perguntei com base em que critérios as bolsas tinham sido atribuídas no passado, disseram-me que foi exclusivamente com base no mérito académico, independentemente da nacionalidade. Então vejamos: uma universidade publica um concurso que discrimina os ucranianos e, logicamente, acaba com sobretudo bolseiros russos (a bolsa foi anunciada da mesma forma em 2025). No entanto, a universidade nega discriminar os ucranianos com o argumento de que os bolseiros “não eram exclusivamente” russos. A questão de saber se a maioria era russa permanece sem resposta (pelas informações públicas que consegui reunir, parece bastante claro que a maioria era de facto russa). Isto não é de modo algum um caso isolado, mas sim um sintoma de um problema estrutural mais amplo.
As trocas de mensagens com o coordenador deste programa fizeram-me lembrar debates sobre discriminação contra as mulheres. As instituições perpetuam condições que desfavorecem as mulheres. Depois, como seria de esperar, os homens ficam mais fortemente representados, mas ninguém quer admitir isso. Se questionar essas estruturas, a resposta é: “Não há discriminação! As decisões foram baseadas apenas no mérito académico.”
As trocas de mensagens com o coordenador deste programa fizeram-me lembrar debates sobre discriminação contra as mulheres. As instituições perpetuam condições que desfavorecem as mulheres. Depois, como seria de esperar, os homens ficam mais fortemente representados, mas ninguém quer admitir isso. Se questionar essas estruturas, a resposta é: “Não há discriminação! As decisões foram baseadas apenas no mérito académico.”
Outro paralelo é que os cientistas ucranianos servem como folha de figueira. A resposta “Tivemos um bolseiro ucraniano, portanto não há discriminação” lembra-me: “Bem, temos aquela investigadora no nosso instituto, portanto não temos um problema com estruturas sexistas.”
Este paralelo não é surpreendente. Em ambos os casos trata-se de estruturas de poder estabelecidas. Precisamente por causa do colonialismo russo — a dominância da Rússia no estudo da Europa de Leste — os russos têm melhores redes; as fundações russas têm mais dinheiro e estão melhor estabelecidas no Ocidente.
Esta assimetria de poder não existe apenas em relação à Ucrânia, mas também em relação a outros países e regiões colonizados pela Rússia. Isto é um problema ético porque é simplesmente injusto; mas também é um problema do ponto de vista académico.
Esta assimetria de poder não existe apenas em relação à Ucrânia, mas também em relação a outros países e regiões colonizados pela Rússia. Isto é um problema ético porque é simplesmente injusto; mas também é um problema do ponto de vista académico.
Tais estruturas consolidam uma visão russocêntrica, porque os especialistas fora dos centros coloniais são marginalizados. Todos beneficiaríamos de um campo mais inclusivo, não apenas do ponto de vista intelectual. Naturalmente, o mesmo se aplica ao abuso de poder e ao assédio sexual. Não beneficiaríamos todos de um campo em que os perpetradores fossem responsabilizados e em que todos tivéssemos a possibilidade de florescer?
Acredito no trabalho/ensaio produzido por Franziska Davies. Como acredito que, a haver um estudo da mesma natureza no mundo do ensino superior em Portugal, a discrepância não seria muita, ainda que, no nosso pequeno mundo, a cunha tenha valor que considero acima do assédio. Fazem-se concursos, mas antes da prova já existe o/a vencedor/a. Do resto ignoro o que não for contado. Como aluna não senti benefício ou prejuízo, mas observei alunas e professores que usavam o assédio, uns em relação aos outros. Era uma forma de chegar ao objectivo e até de suplantá-lo.
ReplyDeleteO peso das "estruturas tradicionais de poder" é enorme. Tão grande que, por exemplo em relação às mulheres e à sua afirmação como iguais, a maioria dos homens afirma convicto que em Portugal não existem problemas, elas são mesmo iguais aos homens em oportunidades e direitos. São afirmações convictas, ingenuidade perversa que não vê o que não quer ver: viver é, neste âmbito, extensa planície, perpetuam-se valores da tradição, aqueles em que nasceram para o pensamento. São mentalidades infantilizadas, com defeito, anquilosaram num ideal rasteiro e só delas, que apenas a morte destrói. Mas são demais. Tantas.
Bom dia!
Haver tantas alunas como professores a fazer assédio não corresponde ao que os números mostram. Por cada aluna que cede ao assédio quantas dezenas há que tiveram de navegar a sua recusa com dificuldade e em silêncio para não serem prejudicadas nas notas e promoções - ou foram-no? Pondo as coisas em perspectiva, em vez de perguntarmos se uma mulher obteve as notas por andar com um professor, seria melhor perguntar quantos professores (e outros em situação de poder) condicionam as notas e as promoções das mulheres à cedência do seu assédio.
DeleteBom dia.
Delete*ao seu assédio.
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