Pese embora a Internet e os media livres não nos deixem esquecer a cronologia das coisas, de Kaja Kallas a Ursula von der Leyen, passando por Emmanuel Macron, Keir Starmer e Friedrich Merz, e incluindo, como é óbvio, Mark Rutte, há uma quase unanimidade na condenação seletiva dos abusos iranianos sem que qualquer palavra seja dada acerca da violação inicial do direito internacional por parte dos seus tradicionais aliados. Ao ignorar os factos, estamos a construir ativamente realidades alternativas sobre as quais pensamos, agimos e atuamos, produzindo novos contextos e linhas temporais que podem parecer inevitáveis, mas que são por nós construídas. Ou percebemos isto, ou vamos ter o grande privilégio de poder olhar para trás e dizer que tínhamos razão quando provocamos corridas armamentistas, guerras, distúrbio, desordem, radicalismos (externos e internos) e a derrocada das instituições e normas internacionais que têm pautado, gerido e moderado as nossas relações.
Joana Ricarte in Condenar os EUA sem apoiar o Irão, publico.pt/
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Estas pessoas que dizem (só agora) que condenam o regime iraniano mas que pensam que não se devia fazer nada a não ser protestos que sabem ser inócuos por causa da violação do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, estavam onde quando o Irão violava todos os dias o Direito Internacional ao financiar terroristas para fazer a guerra a Israel? Ou o seu argumento é: se for a Israel não faz mal e fechamos os olhos às atrocidades?
Estavam onde quando o Irão, todos os dias violava barbaramente os Direitos Humanos da Carta das Nações Unidas que assinou, mandando violar, torturar e assassinar o seu povo?
Estavam onde quando os mesmos iranianos foram escolhidos para presidir ao Conselho dos Direitos Humanos na ONU?
Estavam onde quando Putin invadiu a Ucrânia em grosseira violação do Direito Internacional?
Estavam onde quando tantas pessoas da esquerda disseram que Putin tinha razão porque talvez Zelensky fosse nazi?
Estavam onde quando Putin raptou milhares de crianças ao pais em grosseira violação da Carta das Nações Unidas?
Onde estavam quando a Rússia, no Conselho de Segurança das Nações Unidas pervertia todo o Direito Internacional e a Carta das Nações Unidas?
De que «factos» fala esta senhora? Ela escolhe a dedo os factos que lhe interessam e ignora os outros, como fazem tantos que dizem que criticam o Irão mas não se pode fazer nada a não ser apelar à diplomacia. Diplomacia com quem? O Irão não é uma ditadura como era a de Salazar. O Irão é uma teocracia apocalíptica liderada por criminosos irracionais.
Aliás, o argumento desta senhora contra o ataque dos EUA ao Irão não tem que ver com factos e violações do Direito Internacional mas com o medo (que partilho) da corrida ao armamento e do caos internacional:Ou percebemos isto, ou vamos ter o grande privilégio de poder olhar para trás e dizer que tínhamos razão quando provocamos corridas armamentistas, guerras, distúrbio, desordem, radicalismos (externos e internos)
Este era o argumento de Salazar para não deixar mudar o país: estávamos na ordem (podre, mas ordem) e não se podia arriscar a mudança com medo do caos. Esta comentadora usa o mesmo argumento. Não fazer nada com medo do caos.
Porém, escolher não agir é ainda uma acção. E quando a escolha de não agir se faz perante ditadores irracionais, terroristas ou totalitários ela é entendida como permissão tácita com o status quo. É o que acontecido.
Não estou a defender o ataque de Trump ao Irão. Penso que foi mais um impulso daquela horda de cowboys mafiosos que governa os EUA neste momento. Porém, vejo que a situação é muito complexa porque desde há uns anos que não é possível agir no quadro das Nações Unidas ou fazer pressão para os Estados totalitários baixarem o seu nível de agressão porque Guterres comprometeu as Nações Unidas.
Neste momento, se um grupo alargado de nações quiser intervir no sentido de pressionar e obrigar os países em clara violação do Direito Internacional a recuarem, como o podem fazer se a única instituição que tinham -a ONU- passou a apoiar esses mesmos países violadores do Direito Internacional?
E onde estava esta senhora e todos os outros que estão com ela enquanto Guterres destruia a ONU e promovia países violadores do Direito Internacional? Ou estes factos de ter à frente do Conselho de Segurança da ONU e do Conselho dos direitos humanos os países que mais violam o Direito Internacional e a Carta dos Direitos Humanos não são factos que levam à destruição da Ordem Internacional?
É por isso que não levo a sério estes discursos: não são sérios, são hipócritas, não consideram todos os factos -escolhem a dedo os que interessam- e propõem como solução a continuação do status quo, ou seja, a destruição da Ordem Internacional, desde que não seja com bombas e não se veja. Estão dispostos a que outros povos paguem o preço da sua escolha de não agir, não fazem ondas para não perturbar as nossas vidas.
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