O cérebro sente a presença do cancro? E reage? Equipa da Champalimaud vai ajudar a encontrar resposta
Expresso
haydenbird
Em Ciência, quase sempre as descobertas mais complexas começam por perguntas simples. E estas também foram feitas em português: “Será que o cérebro sente que há um cancro? E como reage?”, explica Henrique Veiga-Fernandes, investigador principal da Fundação Champalimaud e elemento da equipa internacional que acaba de ser premiada com quase 22 milhões de euros para chegar às duas respostas.
A distinção, atribuída pelo Cancer Research UK e pelo National Cancer Institute(EUA), vai permitir nos próximos cinco anos estudar em detalhe a comunicação entre o cérebro e os órgãos com cancro. A investigação já estava no terreno e agora recebe financiamento para avançar ainda mais. “O cérebro é capaz de perceber, de sentir, a existência do cancro e tem uma resposta a essa presença” ou, dito de outra maneira, “a presença de um tumor leva a uma reação do cérebro”, resume o investigador.
“É um estudo para o desenvolvimento do cancro alargado ao estudo fundamental, no laboratório. Procuramos conhecimento fronteira, aquele que vai além do que já se sabe. É uma investigação de vanguarda, um salto no desconhecido”, diz Henrique Veiga-Fernandes. Os cientistas, de oito instituições nos EUA, Suíça, Reino Unido e Portugal, vão dar um ‘pulo de gigante’: conhecer as comunicações do cérebro para o cancro e a forma de estas serem sempre no sentido de o destruir.
Cérebro envia instruções para o órgão doente
“O cérebro envia instruções para o órgão [doente] e para o sistema imunitário e nesse intervalo há uma enervação [aumento dos nervos] e um diálogo entre o sistema nervoso e o sistema imunitário para destruir o cancro, mas, por vezes, não funciona e até promove o aumento do tumor”, simplifica o cientista da Fundação Champalimaud. Face a esta constatação, “queremos saber qual é a estrada entre o cérebro e o sistema imunitário e agir nesse caminho para conseguir atuar sobre o cancro”.
Henrique Veiga-Fernandes admite que o cancro do pâncreas é o mais desafiante e, como tal, um dos focos. “Quando há cancro, há um aumento dos nervos em redor do órgão. No caso do pâncreas, aumentam muito e não permitem a entrada de células do sistema imunitário do próprio órgão” para iniciarem as tentativas de destruição do tumor. Os oncologistas chamam a isto um “tumor frio” - “o órgão deixa de ter infiltração das células imunológicas” - , e no caso do pâncreas poder-se-á mesmo dizer que é ‘gelado’.
'Pacemaker' para o cérebro
A ideia de um diálogo entre o cérebro e o cancro que se instala no organismo é pioneira e a forma de intervenção mantém o nível disruptivo. A equipa, que em Portugal deverá ter até seis investigadores, está a preparar um “pacemaker para o cérebro, não para intervir sobre a atividade elétrica do coração, mas dos neurónios envolvidos na atuação sobre o cancro”, ilustra Henrique Veiga-Fernandes. Na realidade, trata-se de “uma prótese neuronal, um implante na espinal medula - já foi utilizado em humanos para regular a frequência cardíaca, por exemplo - para fazer a regulação neuronal, permitindo que as células do sistema imunitário entrem no tumor, ultrapassando a barreira de nervos”, que se vai constituindo e aumentando quando há um tumor. Nuns casos por ação de substâncias produzidas pelo cancro, mas noutros por reação do próprio cérebro à presença do cancro.
Estes estudos têm cada vez menos doses de ficção científica. “Já temos resultados preliminares sobre os alvos terapêuticos e vamos estar em ensaios clínicos dentro de um ano”. Ou seja, a testar um fármaco que regule a ‘conversa’ entre os neurónios e o tumor para que as instruções, do sistema nervoso ao sistema imunitário, sejam contra o cancro e não a seu favor.
Até mesmo o implante não está num horizonte longínquo. “Também já temos prova de conceito [teste prático em pequena escala para atestar a viabilidade] para os implantes neuronais para tumores do pâncreas em animais e muitos resultados. Veremos se se repetem quando chegarmos aos humanos”, sublinha o cientista português. “Com a prótese ou os fármacos vai-se estimular a resposta do sistema e é uma nova classe de terapêuticas, no caso, produzidas pela regulação elétrica dos nervos a partir dos neurónios.”
Benefícios em cancros do pâncreas, pulmão ou cólon
Além do pâncreas, a equipa acredita que implantes semelhantes, direcionados para regiões específicas da medula espinal, vão poder modelar a forma como os nervos comunicam com tumores no pulmão ou no cólon, por exemplo.
“Muitas das descobertas que transformam a medicina começam com investigação motivada pela curiosidade. Este desafio assenta em perguntas profundas e a história mostra que responder a essas perguntas conduz frequentemente ais avanços mais inesperados e transformadores”, relembra Henrique Veiga-Fernandes.
O grupo, InterCANCEption, é um de cinco que receberam financiamento para os seus trabalhos, num total de cerca de 107 milhões de euros, para compreender os mecanismos na base da doença.
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