March 01, 2026

Direcções aprovam shows de influenciadores pornográficos nas suas escolas




Inacreditável... o ME gosta destas direcções de cabeças ocas...


Escolas recebem influenciadores que fazem da sexualização das crianças um negócio

Público

A coberto da animação de campanhas de associações de estudantes, 79 escolas permitiram nos dois últimos anos lectivos a entrada de influenciadores que fazem da sexualização das crianças um negócio.

João Pinhal, Ariana Fernandes, Carolina Ramalhão(texto), José Carvalheiro e Marta Sofia Ribeiro (multimédia)

A coberto da animação de campanhas de associações de estudantes, 79 escolas permitiram nos dois últimos anos lectivos a entrada de influenciadores que fazem da sexualização das crianças um negócio.

“Agora vou ver um homem em tronco nu”, comentou entre professoras a directora adjunta Elizabete Costa. Eram 11h20 da manhã quando o influenciador entrou nesta escola de Ferreira do Zêzere. A presença de Gonçalo Maia, 24 anos, foi anunciada nas redes sociais pelo próprio num vídeo em que exibe o corpo musculado. Veio participar na campanha da lista que acabou por ganhar a presidência da associação de estudantes.

Embora o frio tenha quebrado a tradição de mostrar os músculos abdominais (a sua imagem de marca), segundo os vídeos publicados nas redes sociais, reinava a euforia dentro da Escola Básica e Secundária Pedro Ferreiro, que junta alunos dos 9 aos 18 anos. Os mais novos não arredavam pé do pátio onde o influenciador dançava em cima de mesas, ao som de músicas sexualmente explícitas. Para o delírio de dezenas de crianças, distribuía autógrafos, assinava camisolas e multiplicava-se nas fotografias que eternizaram o momento.

Gonçalo Maia, que se apelida o “mais boneco”, não produz apenas conteúdos para crianças, é também protagonista de vídeos para adultos. E a vida dupla do influenciador está à vista de todos: é no Instagram, onde mobiliza mais de 42 mil seguidores, que alterna a partilha de vídeos em escolas com a promoção da conta de Onlyfans, onde vende pornografia. Às danças virais com crianças, seguem-se imagens sugestivas, com links directos para os conteúdos sexuais que produz.

“Quando vi os nomes que os alunos me entregaram para a direcção autorizar, fui ao TikTok e vi-o sempre em tronco nu”, recorda a directora adjunta. Acaba, porém, a admitir entre risos que foi apenas nos dias seguintes à vinda do influenciador que soube, pelos alunos, que Gonçalo Maia “faz filmes pornográficos”. “E eu disse-lhes: Oh, não tenho nada a ver com isso. Ele aqui portou-se bem”, justifica Elizabete Costa, de forma descontraída.

Gonçalo Maia “não é um caso isolado ou aberrante”: sintetiza a diluição das fronteiras entre um público infantil e a “mercantilização do corpo nas plataformas”, observa Maria João Faustino, especialista em violência sexual e representações mediáticas. Quando expostas a este tipo de comportamentos, as crianças “tentam reproduzir o que vêem e consomem, incluindo determinadas posições e expressões sexuais que não são próprias para a sua idade”, detalha Vânia Beliz, doutorada em Estudos da Criança. Este fenómeno, conhecido por adultização ou, mais concretamente, por sexualização/erotização das crianças, “retira-lhes” a infância, alertam estas duas especialistas.

Mais do que sexualização, para Maria João Faustino o que está em causa é a “pornificação da cultura”, que consiste num “extravasar da pornografia para outras esferas da sociedade”. Estando “as crianças imersas no mesmo mundo que os adultos”, ficam reféns de entretenimento que banaliza o sexismo e a violência contra as mulheres — imaginário importado da pornografia. A investigadora acredita que o caso de Gonçalo Maia representa o culminar deste processo, que “queima etapas do desenvolvimento das crianças”, acrescenta, por seu lado, a psicóloga Margarida Gaspar de Matos.

No contentor onde funciona a direcção desta escola básica e secundária, as gargalhadas de boas-vindas da directora adjunta dão lugar a risos de desconforto, depois de confrontada com a vida dupla do influenciador. Mas não é isso que a impede de conduzir o PÚBLICO ao gabinete de Psicologia, onde o nome de Gonçalo Maia surgiu há pouco tempo em consultas com alunos. “Quando pesquisei pelo nome desse influenciador, até achei que pudesse ter encontrado a pessoa errada”, admite a psicóloga da escola Rute Portela. “Antes de chegarmos a um Gonçalo Maia, passámos por vários tipos de consumo de música e influenciadores, permitidos pelos pais”, mas que, segundo a psicóloga, promovem “uma banalização da intimidade, da vontade própria e do consentimento”.

Gonçalo Maia mobiliza multidões de alunos

A conversa fica a meio, interrompida pela campainha do intervalo. Na biblioteca está a presidente da lista vencida que, depois da passagem de Gonçalo Maia pela escola, fez queixa do influenciador à direcção. “Quando começaram a surgir os boatos de que era ele que vinha à escola”, foram crianças de 12 anos que “nos disseram que o Gonçalo Maia tem vídeos pornográficos a circular e acabaram por nos mostrar os vídeos”, relata a jovem de 16 anos.

O primeiro relato de que um vídeo pornográfico do influenciador terá ficado viral nas redes sociais, em 2024, chegou ao PÚBLICO pela voz de um aluno de outra escola. “Se abrias o Instagram, aparecia”, garante. Não foi possível aferir se o vídeo em causa circulou nesta rede social, mas várias publicações apontam para que, entre Novembro e Dezembro de 2024, tenha circulado no X um vídeo de Gonçalo Maia a masturbar-se.
Influenciador oferece conteúdos pornográficos

A temporada de participações em campanhas de listas escolares tinha terminado há uma semana, quando a 2 de Dezembro de 2024 o mesmo influenciador, numa conta pública do X, começou a prometer o envio gratuito de fotografias e vídeos sexuais explícitos a quem partilhasse e comentasse as publicações. Nos primeiros dois meses, fê-lo 25 vezes. Vários utilizadores daquela rede social confirmam ter recebido os conteúdos pornográficos. Entretanto, entre Dezembro de 2025 e Janeiro de 2026, Gonçalo Maia já fez sete transmissões em directo no X, durante as quais se masturba em público. Não há nesta plataforma mecanismos suficientes que impeçam crianças de interagirem com este tipo de publicações.

A Polícia Judiciária (PJ) tem “detectado que crianças de cada vez maior tenra idade contactam com conteúdos inapropriados”, como “pornografia, maus tratos a animais e discurso de ódio”, alerta Carla Costa, da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica. É por volta dos 11 anos que as crianças interagem, pela primeira vez, com estes conteúdos, detalha a inspectora-chefe da PJ.

“O facto de terem sido os miúdos mais novos a contarem aos mais velhos mostra a gravidade da situação”, sublinha a psicóloga da escola Rute Portela, depois de retomada a conversa. “Uma coisa era, há 20 anos, um miúdo ver numa revista pornográfica uma mulher nua. Outra coisa é estar a ver um vídeo de um influenciador — que esteve presente na escola — e que se masturba [nas redes sociais] para toda a gente ver.” Este acontecimento “tem um grande impacto na forma como os jovens se vêem a eles próprios e vêem a sexualidade”, conclui.

“Nós não sabíamos”, foi a resposta da lista que contratou Gonçalo Maia a todas as questões sobre os conteúdos para adultos protagonizados pelo influenciador. Os motivos por detrás desta escolha para a campanha são simples: “Ele é conhecido” e a fama é, no contexto escolar, um trunfo eleitoral em particular nos mais novos. Marta Carlos, professora de Educação Visual e Tecnológica desta escola, recorda um “dia agitado” e de grande “exaltação” entre os alunos do quinto ano. Quando conseguiu acalmar os ânimos, percebeu a opinião prevalecente dentro da sala: “Tudo o que ele faz é fixe”. “É um personagem que eles seguem com frequência”, lamenta.

Playlist misógina anima escolas

Em Cascais, é dia de votação na Escola Básica e Secundária da Cidadela. “És da lista V? Vou votar em ti!”, aponta, cheio de convicção, um rapaz de dez anos. A futura presidente da associação de estudantes sobe as escadas em contramão, enquanto dezenas de alunos do segundo ciclo se precipitam para o intervalo. “Tínhamos que ter alguma coisa que chamasse os mais pequeninos. Muitos deles só têm TikTok, daí termos chamado o Zézinho”, nome artístico de José Sousa, que nesta rede social acumula quase 120 mil seguidores.

“Ela quer montar em cima de mim / Ela pirou de vez / Tá pensando que eu sou seu cavalinho.” É ao som desta música que o influenciador de 21 anos contagiou a multidão de crianças que o rodeavam. Juntos saltavam com o braço no ar, cantando em coro “vai no cavalinho”, como mostram os vídeos disponíveis nas redes sociais. Zézinho passa em todas as escolas uma playlist especial para estas ocasiões com 33 músicas: 15 das quais têm letras sexualmente explícitas. Para além da linguagem obscena, todas objectificam as mulheres, havendo também espaço para a normalização da violência sexual: “As vaqueirinhas tudo bêba[da], já tudo endreada [desinibida]”; “pegar o meu dinheiro e comer umas quatro puta”; “Vem mostrando esse bundão de academia”. Desta breve selecção não fazem parte as letras mais gráficas.

No bar desta escola de Cascais, Paula Rocha, assistente operacional, não poupa nos elogios ao influenciador, garantindo que não se apercebeu “de qualquer letra que tenha sido um exagero para uma escola”. Os alunos contam que esta funcionária chegou a participar efusivamente nas coreografias. “Eu, que sou de outra geração, já ouvi muito pior”, remata.

A investigadora Maria João Faustino reitera que as letras destas músicas têm “gramáticas absolutamente pornificadas”. E ressalva que não se trata de um fenómeno exclusivo do funk brasileiro, sendo necessário ter uma discussão sobre muitos géneros musicais, nomeadamente, a música pimba: “Querem uma letra mais explícita do que Chupa Teresa, do Quim Barreiros?”

“Muitos pais dizem-me que eles não percebem as letras, mas qual é o limite entre não perceber e começar a perceber?”, assinala a psicóloga Beatriz Pereira. A também influenciadora digital na área da psicologia infantil nota que se as letras se tornam parte do imaginário, a criança passa a ver este tipo de comportamentos como o normal ou o padrão a seguir.

Zezinho dança músicas misóginas com alunas

Beatriz Pereira é autora de uma petição com mais de 17 mil assinaturas, que visa a proibição de músicas com “conteúdos hipersexualizados em contextos e eventos destinados” a crianças. A petição que foi em Dezembro passado admitida na Assembleia da República propõe também acções de “fiscalização e sensibilização”, preconizando ainda a “promoção de alternativas culturais que respeitem os direitos das crianças”. Entretanto, a 21 de Janeiro, esta petição foi objecto de discussão na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto.
“Mas tenho de pesquisar sobre quem vem à escola?”

“Eu dei liberdade às listas. Não me quis intrometer”, justifica José Gonçalves, director da escola de Cascais que recebeu o influenciador Zézinho. Na escola básica e secundária de Ferreira do Zêzere, a directora adjunta Elizabete Costa admite que autorizou a entrada de Gonçalo Maia, porque receava “perder os miúdos”. “Nós não podemos ir completamente contra. E isto também lhes faz bem: eles verem o que é bom e o que é mau.”

A investigação do PÚBLICO identificou 79 escolas em que, pelo menos, um destes influenciadores esteve presente durante os dois últimos anos lectivos. Entre estas, apenas 15 direcções responderam às repetidas tentativas de contacto. “A responsabilidade é dos estudantes que organizam as campanhas, de forma autónoma”, é a reacção mais usada. De norte a sul do país, e também nas regiões autónomas, direcções de escolas públicas ou do ensino particular e cooperativo tentam justificar as suas decisões, entre a irritação e a surpresa: “É assim, mas eu tenho sempre de fazer uma pesquisa sobre quem é a pessoa que vem à escola? Vem aqui um escritor e nós temos de estar a pesquisar?”; “Nós não controlamos individualmente quem vem à escola”; “Para ser muito sincero, está-me a dar uma novidade. Não tomei atenção a isso”, foram algumas das respostas recebidas.

Nas dezenas de vídeos publicados online pelos influenciadores, milhares de crianças surgem com o rosto identificado. A não ser que todos os pais tenham autorizado a divulgação da imagem dos filhos, “podem apresentar queixa”. “Mas os pais não se queixam porque não acompanham os influenciadores que os filhos seguem”, contextualiza Carla Costa, inspectora-chefe da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica.

Em choque” com os resultados desta investigação, Mariana Carvalho, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), confessa estar muito “preocupada” e insiste que “a responsabilidade de quem entra dentro da escola é sempre da direcção”. Confrontada com um vídeo do influenciador Gonçalo Maia, a representante da CONFAP afirma que “não esperava ver isto dentro das escolas, muito menos sob a supervisão de adultos”. “Se todos cumprirmos as leis e os regulamentos, isto não acontece”, realça, desmontando o argumento de defesa das direcções: “Os alunos não podem ter autonomia para isto”.

O Ministério da Educação, Ciência e Inovação foi questionado sobre os factos identificados durante esta investigação. Desde 15 de Dezembro do ano passado que o PÚBLICO procura saber se a tutela tem conhecimento do que se tem passado nas escolas, como avalia o ministério a conduta das direcções, o que fará daqui em diante perante estes acontecimentos ou, por exemplo, se as escolas não deviam ter zelado pela protecção da imagem das crianças a seu cargo. Cinco tentativas de contacto depois, o ministério liderado por Fernando Alexandre não se pronunciou sobre o impacto de acontecimentos dentro das escolas que, entre outros problemas, levam à normalização da violência contra as mulheres.

O PÚBLICO tentou também entrevistar os influenciadores Zézinho e Gonçalo Maia. Depois de se identificar, José Sousa desligou a chamada de imediato assim que ouviu a palavra “reportagem”. Gonçalo Maia começou por aceitar, mas deixou de responder antes de confirmar uma data. No final de Dezembro, o PÚBLICO enviou por escrito várias questões aos influenciadores, confrontando-os com os factos apurados durante este trabalho. Até ao fecho da edição, não recebeu resposta a nenhuma das perguntas. José Sousa continua em silêncio. Gonçalo Maia escreveu que só responderia às questões se o jornalista do PÚBLICO apostasse dinheiro no combate de boxe em que se preparava para participar, juntamente com outros influenciadores como Numeiro — investigado pelo Ministério Público por discurso de ódio contra as mulheres.

“O que está a escola a ensinar?”

“Os miúdos já conheciam estas músicas, antes de termos convidado o Zézinho, porque as ouvem todos os dias em casa”, argumenta a presidente da lista vencedora das eleições na Escola Básica e Secundária da Cidadela, em Cascais. É a professora de Filosofia quem acende o debate no bar do estabelecimento de ensino. Depois de ter ouvido os alunos e assistentes operacionais a aplaudir a actuação do influenciador, questiona: “O que está a escola a ensinar?”. “Se isto fosse apenas uma secundária, seria diferente. Agora, estão aqui alunos acabados de sair do quarto ano.”

“Nalgumas turmas do quinto [ano], reparámos que temos muitos rapazes machistas”, conta Joana Pedro, professora de Educação Musical desta escola. “No outro dia, um miúdo queria mais espaço na mesa que partilhava com uma colega. E ele virou-se e disse: ‘Se queres mais espaço, arranjo-te uma cozinha maior’.”

Um relato semelhante ouve-se na sala de Educação Visual e Tecnológica (EVT) da escola de Ferreira do Zêzere identificada na investigação. Nas mesas acumulam-se cartões e acessórios. Há maquetes penduradas no tecto. “É aqui, quando os alunos do 6.º ano andam todos em pé, uns a martelar, outros a serrar, a interagir de forma mais descontraída, que vou ouvindo frases do género ‘Vai lavar a louça, o teu lugar é na cozinha’.” A professora Marta Carlos recorda um vídeo recente de um influenciador a dizer que “as mulheres não devem votar porque não têm capacidade para pensar”. “E nós estamos a sentir a influência desse tipo de discurso na sala de aula”, relata.

Zezinho partilha vídeo com insinuação misógina

Mesmo que distantes, as duas escolas somam experiências em comum: em ambas se tem verificado um aumento da partilha de imagens íntimas sem consentimento, como confirmam as respectivas direcções. Relatam inclusivamente a existência de casos recentes entre crianças do sexto ano. “Se falarmos com esse jovem, ele vai dizer-nos que foi uma brincadeira”, o que torna urgente promover a criação de empatia: “As crianças têm de perceber o impacto destes actos na vida da outra pessoa”, defende Carla Costa, da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica. A inspectora-chefe da PJ refere ainda que “outro comportamento que se tornou comum em contexto escolar é ir buscar ao Instagram uma fotografia corrente de uma colega e, com recurso à inteligência artificial, retirar-lhe a roupa e partilhar a fotografia com a turma e com a escola”.

“Ontem, por exemplo, foi dia de tirar fotografias cá na escola”, conta a professora Marta Carlos. “E na minha turma de quinto ano todas as meninas trouxeram maquilhagem.” Na verdade, já a trazem na mochila regularmente como se de um indispensável material escolar se tratasse, repara.

“Até os próprios pais estimulam isso porque acham graça a menina se pintar e se vestir de uma maneira mais sexy.” Mas estas “vivências desfasadas da idade”, aceleradas profundamente pelo digital, tornam as crianças mais vulneráveis a predadores sexuais, destaca a psicóloga da saúde Margarida Gaspar de Matos. “Quando realmente começam a desabrochar para a sexualidade, deixam de ter à-vontade para fazer essas coisas”, o que significa que “estão a ser abusadas, enquanto não percebem o impacto de exporem o corpo”.

“Mesmo há uma década, quando fiz as primeiras investigações com pré-adolescentes, mostravam-me salas dentro dos videojogos onde se falava de sexo e se mostrava pornografia”, recorda Teresa Castro, doutorada em Tecnologia Educativa. “Quem tem más intenções vai querer estar lá e conhece muito bem o meio onde as crianças se orientam.”

“Qualquer criança que esteja a navegar no mundo online, sem monitorização, é uma potencial vítima” de aliciamento e abuso sexual, adverte a inspectora-chefe Carla Costa. No âmbito de um jogo da Missão Cibersegura, aplicado a dez mil alunos no ano lectivo anterior, as crianças aprendem a verificar a confiabilidade de perfis. Os dados recolhidos anonimamente revelam que, “mesmo depois de verificarem o perfil e de lhes parecer suspeito, 6,4% dos jovens partilharam conteúdos íntimos neste jogo”, adianta a PJ.

Luzia Godinho, que trabalha como assistente operacional na escola de Ferreira do Zêzere há 37 anos, desabafa que nunca tinha ouvido os rapazes tratarem tão mal as raparigas como agora. “A linguagem que utilizam entre eles é assustadora”, eles tratam-nas como “lixo”. “Ainda há pouco tempo, chamei a atenção de uma moça e disse-lhe ‘Tu deixas que o teu namorado te trate assim?’. E o que ela me disse foi: ‘Ah, não ligue, a gente costuma falar assim um com o outro’. E eu respondi: ‘Olha, eu estou casada há 30 e tal anos e eu não falo assim com o meu marido, nem ele comigo. Tu já pensaste o que é que vai ser daqui a uns anos?’. E a moça achou aquilo muito natural.”

“Não havendo Educação Sexual, as crianças vão procurar respostas online e nós sabemos que os resultados nem sempre dão uma imagem saudável do que é uma relação amorosa. No universo da pornografia, parece que tudo é permitido”, frisa Teresa Castro, mestre em Estudos da Criança. A educação sexual “não é só saber pôr o preservativo para evitar gravidezes indesejadas”, é também ensinar sobre consentimento e relações saudáveis. Para Margarida Gaspar de Matos, limitar a Educação Sexual é “privar os nossos filhos da ciência do nosso tempo” — “Isso é da ordem do criminoso.”

À saída da escola de Ferreira do Zêzere, as crianças atropelam-se na brincadeira com uma pequena cadela, chamada Mia. Gritam a plenos pulmões: “Mia! Mia! Mia!”. Até que a voz de um rapaz de dez anos, às gargalhadas, sobressai: “Mia Khalifa!”. É o nome de uma ex-actriz pornográfica.

Texto editado por Sérgio B. Gomes

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