March 21, 2026

Boa sorte com isso

 

Falta de professores: diretores escolares ligam a docentes para aceitarem ir dar aulas 

Escolas entram em contacto com antigos profissionais para tentarem atribuir horas. Alguns também fazem apelos nas redes sociais, promovendo horários a concurso nas suas escolas. DN

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Há falta de professores de um modo dramático, mas o governo faz alguma coisa para promover a carreira dos professores? Não. Faz o oposto.

Hoje-em-dia é muito difícil ser professor. Os alunos chegam às aulas sem respeito pelo conhecimento, impreparados para uma educação escolar em resultado do uso excessivo de telemóveis e redes sociais, carregados de falsos conhecimentos que foram buscar às redes sociais e pensam ser a verdade e sabendo que não é necessário estudar para irem passando de ano e obter certificados. 

Porém, o pior de tudo são os pais. Porque dantes, se os alunos tivessem comportamentos inapropriados, violentos, de constante perturbação ou desrespeito, dizíamos aos pais e os pais colaboravam connosco mas agora os pais suportam esses comportamentos contra os professores e tornam o trabalho um inferno.

Aqui vai um exemplo para se ter um ideia do que é hoje-em-dia normal no comportamento nesse campo. Aqui há uns anos uma directora de turma chamou uma EE porque o filho ia para as aulas masturbar-se. A mãe apareceu na escola e perguntou à DT, 'o que queria saber é para onde a professora estava a olhar para perceber o que ele estava a fazer? Malandra!" Isto hoje-em-dia é típico.

Há pais cujos filhos são ordinários para os professores e colegas e em vez de os educarem aparecem com advogados para fazer bullying aos professores. Não por acaso, quando os candidatos aparecem nas escolas e vêem que o horário tem direcção de turma vão-se embora e não o aceitam.

A mim, quando me perguntam se ser professor vale a pena hoje-em-dia, digo que não - porque é a verdade. E explico: maus salários, más condições, nenhuma carreira séria, burocracias inúteis infernais, total falta de respeito do ME, políticas de sabotagem do nosso trabalho e um grande número de pais extremamente hostis.

O último factor mencionado é um dos que mais pesa. Todos os dias que entro na sala de directores de turma encontro colegas DT num enorme stress, por conta do comportamento de pais a propósito de maus comportamento de filhos. Situações aberrantes e extremamente desgastantes.

Dar aulas é muito desgastante. Entramos numa turma e temos ali 30 adolescentes, sendo que a maioria não quer estar ali e está à espera, ou de ser entretido com 'coisas giras' tipo imagens de vídeo ou de ser alimentado com resumos de resumos que não impliquem nenhum esforço da sua parte, muito menos estudo. E ali estamos nós a gerir o ambiente da sala de aula -para se poder desenvolver experiências de aprendizagem- e todos os comportamentos individuais desses 30 adolescentes. Ao mesmo tempo que desenvolvemos o trabalho, que asseguramos que os alunos estão a assimilar conteúdos e a desenvolver processos correctos de raciocínio, estamos continuamente a absorver toda a energia (positiva e negativa) que exsudam, carregada de problemas, medos, ansiedades, expectativas, jogos de poder, violência, frustrações, necessidades de confronto de autoridade, depressões, picos emocionais, etc. Tudo isto enquanto tomamos dezenas de micro-decisões relativamente a alunos particulares, em que pesamos instantaneamente os prós e os contras das decisões no progresso dos alunos e no impacto na turma. Sai-se de cada aula esgotado deste exercício de fazer de pára-choques dos problemas e da energia dos alunos e ao fim de uma manhã ou de uma tarde de aulas uma pessoa está completamente esgotada e só quer silêncio. E eis que aparece um EE a queixar-se da nota do filho (que não estuda nada), ou a fazer queixa do professor porque o filho é uma criança muito sensível e o EE quer vir assistir às aulas para fazer os trabalhos com o filho e o professor não deixa.

Há falta de professores e andam a ligar a professores para virem assumir turmas? Boa sorte com isso.

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