January 04, 2026

Livros - "O caminho para Wigan Pier" de George Orwell

 


Este livro nasce de Orwell ter recebido do seu editor, Victor Gollancz, em 1936, a incumbência de visitar áreas que sofriam de desemprego em massa, nos condados de Lancashire e Yorkshire, bem como de uma enorme crise de habitação que atirava as pessoas para bairros de lata repugnantes de sujidade, falta de privacidade e convívio com toda a espécie de indigência. Eram áreas fortemente industrializadas e mineiras e é pelas minas que ele começa.
A primeira parte do livro é um inventário da pobreza em Inglaterra, começando pelas cidades mineiras, pelas próprias minas que visita e pelas vidas dos mineiros. 
Ao mesmo tempo que se enoja com as suas casas fétidas e ar pútrido onde tudo é minúsculo, onde dormem 10 pessoas num quartinho, onde tudo está coberto por uma camada de gordura e percevejos e os penicos por despejar estão na cozinha debaixo da mesa de comer, descreve com pormenor, muita admiração e respeito o trabalho e a vida dos mineiros dentro e fora da mina - homens e mulheres (muitas grávidas) debaixo de montanhas 8 horas por dia, em condições sub-humanas, para que os que vivem à superfície possam fazer a sua vida normal, inconscientes do que exigem aos outros. Muito, muito impressionante.
Faz depois o inventário das casas dessas cidades industrializadas cheias de bairros de lata e desempregados vagueando sem destino, desde o número de cómodos que tem cada uma ao conteúdo de cada uma delas e à falta de interesse em as autarquias projectarem casas com racionalidade e conforto. Faz o inventário da condição de saúde das pessoas e das paisagens saturadas e poluídas das cidades industriais e do impacto nas crianças.
Na 2ª parte faz uma reflexão sobre a divisão de classes sociais em Inglaterra -que classifica de país sujo e miserável, que só quando a neve o cobre se disfarça. Faz uma crítica brutalmente honesta aos preconceitos de classe, a começar por si mesmo.
Na 3ª parte fala dos grandes erros dos socialistas e comunistas. Descreve-os como infantilóides, livrescos e desligados da realidade e diz o que pensa sobre o que podem fazer para lutar contra o fascismo que nesta altura em que escreve estava em plena ascensão.
Orwell era um indivíduo muito inteligente e intelectualmente honesto (seria contra estes novos socialistas-caviar) que tirou proveito da sua vasta e rica experiência de vida em ambos os lados da cancela: cresceu na classe média mais confortável, estudou em Eton (ganhou uma bolsa de estudo) e conviveu com a classe alta e a aristocracia, viveu algum tempo na pobreza, teve vários trabalhos, de explicador a livreiro, viveu na Índia, onde nasceu, na Birmânia inglesa, onde trabalhou na polícia, esteve na guerra civil espanhola, andou por toda a Europa. Enfim, um homem do mundo que viu muito, leu muito, experenciou muito e soube reflectir sobre essa experiência.
Um livro muito bom e muito actual em vários sentidos.
Deixo aqui uns excertos da 2ª e 3ª partes sobre os preconceitos de classe e o socialismo. Não deixo da 1ª apenas porque porque são muitos extensos, embora sejam muito impressionantes e instrutivos. 
Quem quiser pode ir ler essa parte e o livro todo, que tem 150 páginas, gratuitamente, aqui (a tradução é em português do Brasil):  

***

Além disso, o hábito de lavar o corpo inteiro todos os dias é muito recente na Europa, e a classe operária em geral é mais conservadora do que a burguesia. Mas os ingleses estão ficando visivelmente mais limpos, e podemos esperar que daqui a cem anos serão quase tão limpos como os japoneses. É uma pena que os que tanto idealizam a classe operária acham necessário elogiar todas as características que ela tem, e assim fingir que a sujeira é, de algum jeito, algo meritório. E eis aqui algo bem curioso: o socialista e o católico democrático sentimental, do tipo Chesterton, às vezes se dão as mãos; ambos lhe dirão que a sujeira é saudável e “natural”, e a limpeza apenas uma moda ou, na melhor das hipóteses, um luxo.***
Eles parecem não ver que estão apenas dando um colorido à ideia de que as pessoas de classe operária são sujas por opção, e não por necessidade. Na verdade as pessoas que têm acesso ao banho em geral o utilizam. Mas o essencial é que as pessoas da classe média acreditam que a classe operária é suja — vemos na passagem acima que o próprio Maugham acredita — e, o que é pior, que essa sujeira deles é, de algum modo, inerente a eles.

(...)

Mas o que dizer do homem de classe média  cujos pontos de vista não são reacionários, e sim “avançados”? Por baixo da sua máscara revolucionária, será que ele é, realmente, tão diferente do outro?
Um homem de classe média abraça o socialismo e talvez até entre no Partido Comunista. Que diferença real será que isso faz? É claro que, vivendo no esquema da sociedade capitalista, ele tem que continuar ganhando a vida, e não se pode culpá-lo se ele se apega a seu status econômico burguês. Mas será que há alguma mudança em seus gostos, em seus hábitos, em suas maneiras, no seu repertório imaginativo — em sua “ideologia”, para usar o jargão comunista? Será que há nele alguma mudança, exceto que ele agora vota no Partido Trabalhista ou, quando possível, no Comunista? É visível que de hábito ele ainda se associa à sua própria classe; fica imensamente mais à vontade com um membro de sua própria classe, que o considera um perigoso bolchevique, do que com um membro da classe trabalhadora, que, supostamente, concorda com ele; suas preferências em matéria de comida, vinhos, roupas, livros, quadros, música, balé, ainda são reconhecíveis como gostos burgueses; e o mais significativo: ele invariavelmente se casa dentro de sua própria classe. Veja qualquer socialista burguês. Veja o Camarada X, membro do Partido Comunista da Grã--Bretanha e autor de Marxismo para crianças. O Camarada X, na verdade, estudou em Eton. Estaria pronto para morrer nas barricadas, pelo menos na teoria, mas você nota que ele continua deixando o botão inferior do colete sem fechar. Ele idealiza os proletários, mas é notável como seus hábitos pouco se parecem com os deles. Quem sabe alguma vez, por mera fanfarronada, já fumou um charuto sem tirar o anel da marca; mas para ele seria quase fisicamente impossível colocar na boca um pedaço de queijo espetado na ponta da faca ou ficar dentro de casa de boné, ou mesmo beber chá no pires. Talvez as boas maneiras à mesa não sejam um mau teste de sinceridade. Já conheci muitos socialistas burgueses, já ouvi horas e horas suas tiradas contra sua própria classe; e contudo nunca, nem uma única vez, conheci algum que tenha assimilado as maneiras de o proletariado se portar à mesa. E, afinal de contas, por que não? Por que um homem que julga que todas as virtudes residem no proletariado deveria continuar fazendo tanto esforço para tomar sopa sem fazer barulho? Só pode ser porque, no fundo do coração, ele sente que as maneiras da classe baixa são repulsivas. 

(...)

Muita gente, porém, imagina que consegue abolir as distinções de classe sem fazer nenhuma mudança desconfortável em seus próprios hábitos e na sua “ideologia”. Vêm daí as impetuosas iniciativas para romper as barreiras de classe que podemos ver por todo lado. Em toda parte há pessoas de boa vontade que acreditam sinceramente que estão trabalhando para derrubar as distinções de classe. O socialista de classe média se entusiasma com o proletariado e organiza “escolas de verão” onde o proletário e o burguês arrependido devem cair um no braço do outro e se tornar irmãos para sempre; e os visitantes burgueses saem de lá dizendo como tudo aquilo é tão maravilhoso e inspirador (os proletários saem dizendo coisas bem diferentes). E há também aquele tipo de burguês piedoso e benemérito, relíquia do período de William Morris e do socialismo cristão, mas ainda surpreendentemente comum, que vive dizendo: “Mas por que deveríamos nivelar por baixo? Por que não nivelar por cima?”, e propõe subir o nível da classe trabalhadora (até alcançar o seu próprio) por meio de higiene, suco de frutas, controle da natalidade, poesia etc. Até mesmo o duque de York (hoje rei George VI ) organiza um acampamento anual onde se espera que jovens das public schools e garotos da favela se misturem em termos exatamente iguais — e, aliás, de fato se misturam nesse período —, mais ou menos como os animais nessas gaiolas do tipo “Família Feliz”, onde um cachorro, um gato, duas doninhas, um coelho e três canários mantêm uma trégua armada enquanto o olho do treinador está bem firme em cima deles.
Todos esses esforços deliberados e conscientes para romper as divisões de classe são, creio, um equívoco muito sério. Às vezes são apenas fúteis, mas, quando apresentam um resultado definido, em geral só servem para intensificar o preconceito de classe. E isso, pensando bem, é o que se poderia esperar. Você forçou o ritmo e armou uma igualdade incômoda, e nada natural, entre uma classe e a outra; o atrito resultante traz à superfície todo tipo de sentimentos que sem isso teriam permanecido enterrados, talvez para sempre. Como eu já disse a respeito de Galsworthy, as opiniões do sentimentalista se transformam em seus opostos ao primeiro toque da realidade. Basta arranhar a superfície do pacifista comum e você encontra um chauvinista pronto para a briga. O sujeito de classe média que vota no ILP* e o barbudo que toma suco de frutas são totalmente a favor de uma sociedade sem classes, contanto que enxerguem o proletariado pela outra ponta do telescópio; basta forçá-los a ter algum contato real com um proletário — entrar em uma briga com um estivador bêbado em um sábado à noite, por exemplo — e eles são capazes de voltar bem rápido a um esnobismo de classe média do tipo mais vulgar. A maioria dos socialistas de classe média, porém, não tem a menor probabilidade de entrar em brigas com estivadores bêbados; e quando fazem algum contato genuíno com a classe trabalhadora, em geral é com a intelligentsia da classe trabalhadora.

(...)

E enquanto isso, o que dizer do socialismo?
Nem é preciso observar que nesse momento estamos em uma situação muito grave, tão grave que até as pessoas mais burras acham difícil não tomar conhecimento do que se passa.
Estamos vivendo em um mundo em que ninguém é livre, em que quase ninguém tem segurança, em que é quase impossível ser honesto e continuar vivo. Para enormes blocos da classe operária, as condições de vida são como descrevi nos capítulos iniciais deste livro, e não há chance de que essas condições mostrem qualquer melhoria fundamental. O máximo que a classe trabalhadora inglesa pode esperar é uma redução ocasional e temporária do desemprego, quando este ou aquele setor é estimulado artificialmente por alguma coisa, como o rearmamento, por exemplo. Até mesmo a classe média, pela primeira vez na sua história, está sentindo que é preciso apertar o cinto. Ainda não conheceram a fome de verdade, porém mais e mais gente dessa classe se vê enredada em uma espécie de rede mortal de frustração, em que fica cada vez mais difícil para alguém se convencer de que é uma pessoa feliz, ativa ou útil.

(...)

Parece que foi ontem que os socialistas, em especial os marxistas ortodoxos, me diziam, com sorrisos de superioridade, que o socialismo viria por si só, ou por meio de um processo misterioso chamado “necessidade histórica”. É possível que essa convicção continue existindo, mas foi abalada, para dizer o mínimo. Vêm daí as repentinas tentativas dos comunistas em vários países de se aliar com forças democráticas, as quais eles vêm sabotando há anos. Em um momento como este, há uma necessidade desesperada de descobrir exatamente por que o apelo socialista fracassou. E não adianta atribuir a atual repulsa pelo socialismo à burrice humana ou a motivações desonestas. Para eliminar essa repulsa, é preciso compreendê-la, o que significa entrar dentro da cabeça do opositor comum do socialismo, ou pelo menos considerar seus pontos de vista com simpatia.

(...)

Pois é preciso acrescentar o fato muito desagradável de que a maioria dos socialistas de classe média, embora em teoria almeje uma sociedade sem classes, se agarra como cola-tudo aos seus miseráveis fragmentos de prestígio social.

(...)

O fascismo é descartado como uma manobra da “classe dominante” — o que, no fundo, é mesmo. Mas isso, por si só, apenas explicaria por que o fascismo apela aos capitalistas. E o que dizer dos milhões de pessoas que não são capitalistas, que no sentido material não têm nada a ganhar com o fascismo, e muitas vezes têm consciência disso, e mesmo assim são fascistas? É óbvio que elas se aproximaram puramente pela linha ideológica. Só foi possível empurrá-las para o fascismo porque o comunismo atacava, ou parecia atacar, certas coisas (patriotismo, religião etc.) que ficam numa camada mais profunda do que o motivo econômico; e nesse sentido é a mais pura verdade que o comunismo leva ao fascismo.

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