Este professora americana com mais de três décadas de experiência de ensino preocupa-se, como todos nós que estamos no ramo da educação escolar, com a degradação das capacidades e desenvolvimento cognitivos dos alunos que vêm sendo demonstradas a nível mundial há mais de duas décadas, de modo consistente e gradual, num vector negativo.
Ela sintetiza aqui os pontos principais do artigo de Jared Horvath, We Gave Students Laptops and Took Away Their Brains que acompanhou a publicação do seu livro, The Digital Delusion. Horvath mostra e explica o efeito devastador dos ecrãs no desenvolvimento cognitivo e linguístico das crianças e dos jovens e propõe algumas estratégias de reversão desse fenómeno.
Uma das estratégias que ele propõe dirige-se aos pais e consiste em aconselhá-los a desconfiar das «inovações» que os governos querem impor na educação e que em geral não passam de soluções fáceis como, vamos dar um tutor digital a cada um que é igual a apenas darem acesso a uma OpenAI qualquer, para problemas complexos, muitas vezes por cedência a lobbies de empresas tecnológicas - isto digo eu.
Horvath propõe que essas inovações sejam sujeitas a escrutínio de evidências como em qualquer projecto científico - antes de fazerem dos filhos cobaias com intuitos economicistas, sem respeito nenhum pela educação, dignidade e projecto de vida autónoma dos alunos.
Há outras estratégias propostas: ler em papel, fazer anotações. O acto de anotar um texto, construir notas de um texto ou de uma discussão oral obriga a um trabalho complexo do cérebro que engloba quase todas as áreas do córtex, nomeadamente a tarefa de seleccionar a informação relevante, organizá-la conceptualmente, apresentá-la numa sequência lógica e pertinente, encadear raciocínios de modo lógico, utilizar o vocabulário adequado, etc. Estar a ler num ecrã dispensa todo esse trabalho e pôr uma plataforma de IA a fazer trabalho por si e a dar as respostas é uma burrificação de todas as potencialidades. É como dizer: não é preciso usares o teu pensamento que a IA faz isso por ti, deixa-o aí inerte ou usa-o para te divertires. Não é preciso pensares.
Ontem dei-me ao trabalho de ouvir um podcast, que é uma coisa que detesto porque não é possível passar por cima das gorduras das conversas como se faz num texto, pela razão de ter curiosidade no assunto e querer saber de novidades na área em questão: a inteligência. A tese da psiquiatria especialista é a de que uma pessoa inteligente e muito boa numa área tende a ser muito boa em muitas outras áreas, ao contrário do que em geral se intui.
O estudo da inteligência ainda está na pré-história, ainda se baseia em teorias do início do século XX não desenvolvidas ou testadas e várias razões que ela apresenta para a sua tese não me convenceram porque fui capaz, não sendo nenhuma especialista no assunto, de pensar imediatamente em variáveis que não foram consideradas.
Seja como for, o que me parece é que pessoas que são bastante boas numa área, em geral tendem a pensar que também serão boas em outras áreas só por serem inteligentes naquela, esquecendo que são bons na sua área porque têm conhecimentos sólidos e experiência. De maneira que quando tentam entrar em outras áreas, faltando-lhes os conhecimentos e a experiência cometem imensos erros, dos quais não se apercebem porque partem do pressuposto que a sua inteligência basta.
É assim que vemos governantes decidir sobre assuntos dos quais pouco ou nada sabem como se fossem peritos nessas áreas. Podia acontecer rodearem-se de peritos com provas dadas, mas não, rodeiam-se de 'peritos' da sua confiança política e em consonância com os seus interesses.
No nosso país, o último ministro da educação que fez um trabalho com mérito foi o Roberto Carneiro - que nem sequer gostava de professores. Carneiro tinha respeito pela educação e embora a sua visão da educação tenha um fundamento cristão era virada para o futuro, aberta e pluralista, mas humanista, com respeito pela autonomia da pessoa e não uma manipulação tecnocrata e meramente pragmática de engenharia social como foi apanágio de todos os que se lhe seguiram, até aos dias de hoje. Nesse sentido, investiu na educação: na riqueza do currículo escolar e na na formação continua dos professores. O empobrecimento do currículo escolar foi decidido por Crato (os alunos só têm que saber português e matemática era o seu lema) que se julga um especialista em educação; a destruição da formação contínua dos professores e até da própria, iniciada pelo anterior ministro (caso típico de se pensar um ás em todas as áreas por ter tido sucesso como linguista), está agora em plena destruição por este ministro.
O actual ME, como os anteriores, porque são professores universitários com uma carreira de sucesso, convencem-se que também serão bons em outras áreas, nomeadamente a educação escolar, a psicologia do desenvolvimento, as estruturas cognitivas, os instrumentos digitais, etc.
É assim que decidem com critérios economicistas sem pensar ou sequer perceber o impacto que as suas medidas de merceeiro terão no futuro das crianças e jovens, logo, do país.
Mesmo quando todos os indícios e evidências desde há mais de 20 anos são consistentes a mostrar os efeitos negativos da educação com ecrãs no desenvolvimento da linguagem e capacidades cognitivas vão impô-lo e já começaram a chamar retrógrados aos que advertem sobre os seus perigos, irreversíveis, no desenvolvimento linguístico e cognitivo.
Copiam as priores práticas -como as de Inglaterra cuja educação está um desastre- em vez de olharem para a reversão deste erro em países que consistentemente estão à frente nos índices de competências e conhecimentos dos alunos, como Singapura, Suécia, Finlândia, China.
Se a associação de pais deste país fossem composta por pessoas interessadas na educação dos filhos em vez de sicofantas de ministros, adoptavas algumas das estratégias propostas por Horvath, de cada vez que um governo vem impor mediocridade ao sistema de educação, seja com tutores digitais, seja com empresas a colocarem a leccionar nas escolas pessoas que fizeram uma cadeira de qualquer coisa num curso de qualquer coisa.
Por exemplo, de cada vez que anunciam a imposição de mais tempo de ecrã, perguntar: 'essa medida já foi validada por evidências?'; 'há países que melhoraram o desempenho dos seus alunos nos testes internacionais depois de a adoptar?', 'há evidências de prejuízo no desenvolvimento dos alunos e na sua saúde mental?' etc. Não havendo respostas positivas não deixar que se faça dos alunos cobaias de experimentos economicistas que lhes estragam a vida a eles e o futuro a nós todos enquanto país.
No comments:
Post a Comment