Quando temos uma pequena força face a uma grande força a contrariar a sua narrativa, a consistência é fulcral e chega muito longe. Isto vê-se em todos os movimentos de mudança, desde a ciência à política e da política à guerra e à religião. Vimo-lo em Sócrates (o filósofo), em Galileu, na Reforma, na derrocada do colonialismo, etc.
Quando um pequeno número de pessoas contraria a narrativa dominante, começa por ser ignorado, depois atacado e menosprezado. Daí para a frente, o que acontece depende da consistência e tenacidade da pequena força. Se se mantém fiel a si mesma e aos seus princípios, com verdade e consistentemente vai acrescentando evidências à sua narrativa, aos poucos começa a alargar a sua base de apoiantes e a reforçar a sua capacidade de influência. Se a força originariamente maior mostra inconsistência e infidelidade à sua própria narrativa, há uma altura em que a pequena força derruba a outra.
É o que se está a passar com a Ucrânia e a Rússia. A Rússia era a grande força em cuja narrativa praticamente todos acreditavam. Putin partiu para o jogo com os trunfos todos: tinha uma aura de força e invencibilidade junto da maioria dos líderes, tinha anos de subornos e era dono de muita gente de influência, tinha uma grande rede de agentes de espionagem espalhados pela Europa, em posições-chave para forçar a sua narrativa. Era mestre na desinformação. Em contrapartida, a Ucrânia tinha um Presidente muito novinho, saído do mundo do espectáculo, sem experiência política. Porém, calhou a ser uma pessoa inteligente e muito séria nas suas convicções e começou a trabalhar para mostrar estar do lado da razão e da lei internacional e para revelar as mentiras de Putin. De início quase todos os líderes europeus e americanos não acreditaram na sua narrativa, na sua tenacidade e na sua palavra. Subestimaram-no.
No entanto, ele manteve-se sempre firme, sem vacilar nas suas convicções e resistiu à tentação de jogar o jogo da fabricação de falsas realidades e da falta de ética de Putin.
Consistentemente e com grande tenacidade foi sempre apresentando os factos e as evidências correspondentes à sua narrativa, ao mesmo tempo que dava o exemplo de coragem, sentido de dever, de responsabilidade e de empatia para com o povo. Tudo o oposto de Putin que foi sendo exposto, a partir dos factos, como um criminoso de guerra que há muito tempo era -ou sempre foi- e ninguém via. Aos poucos foi convencendo outros com a sua dignidade e consistência e hoje-em-dia, mesmo os que se põem do lado de Putin por interesse sabem que ele é um merdolas, um cobarde e um mafioso drogado em poder - não um estadista, como gostava de se apresentar. De cada vez que Putin fabrica uma falsa realidade e é exposto, prega mais um prego no seu caixão. O último prego foi este da sua casa de férias ter sido atacada e isso ter sido facilmente exposto como uma fake news para enganar Trump.
A consistência dos ucranianos, juntamente com a firmeza gradual mas consistente do apoio dos europeus uns aos outros e à Ucrânia calou a jactância insuportável de Trump e do Vancing Queen e os ataques contra a Ucrânia, contra o seu Presidente e contra a Europa.
É uma grande lição para todos os ditadores que pensam que o poder de mandar calar, prender ou matar é um poder real sobre as mentes e os corações das pessoas. Não é. É transaccional. Porém, o respeito não é uma categoria transaccional. Deriva de uma percepção de dignidade intrínseca do outro e a consistência no habitar dessa dignidade chega muito longe.
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