Todos os sites e descrições faziam referência ao típico filme do macho sobrevivente, o que não me interessava, mas tinha visto imagens bonitas e fui ver o trailer. Paisagens de neve e gelo num silêncio Rothko. A isso não resisto. Seja como for, o filme não é nada sobre sobrevivência - embora seja. Não vi nenhum macho man. Vi humanidade. No meu entender o filme é sobre a relação do ser humano com a Natureza e com a sua própria humanidade.
Estamos sós no silêncio da vida e face à morte e embora conheçamos a Natureza e tenhamos muitos instrumentos de controlo, estamos sempre a um passo dela nos esmagar. A Natureza, sobretudo nestas paisagens tão extremas é tão esmagadora que não admira que os povos primeiros emprestassem espírito sobrenatural ao seu poder.
O filme é sobre um homem que se despenha no Ártico, no meio de um infinito de gelo e neve ventosos. Vemos que é alguém habituado àquela paisagem porque não se atrapalha. Faz um perímetro à volta da avioneta, escava um SOS gigante no gelo, faz um buraco e pesca peixes que guarda num outro buraco de gelo. Dentro do avião constrói um refúgio onde dorme e faz a comida - tem um pequeno fogão a gás e utensílios apropriados. Tem um geringonço que emite um sinal de rádio, de maneira que ao fim de 15 minutos de filme, que correspondem a vários dias naquela situação, aparece um helicóptero a responder ao seu pedido de socorro. Parece que o filme vai acabar ali, só que o helicóptero despenha-se.
O piloto morre mas sobrevive a ajudante, que é uma nativa e quase não fala inglês. Está em muito mau estado físico com ferimentos graves e vai alternando entre períodos conscientes e inconscientes. O homem vai cuidando dela mas rapidamente percebe que o estado dela não permite esperar ali pela próxima ajuda e resolve levá-la até à povoação ou assentamento mais próximo. Ele tem um mapa da região e vemos que sabe para onde vai e como lá chegar. Nem com os ursos brancos se atrapalha.
Só que, transportar a mulher naquele estado, de maneira a que sobreviva naquela paisagem tão hostil e sem a maioria dos instrumentos que tem de deixar na avioneta por causa do peso, é um desafio permanente onde constantemente dá um passo à frente e dois atrás.
Sempre que a mulher acorda, ele diz-lhe, 'não te preocupes, não estás sozinha'. Em suma, depois de muita luta contra a Natureza, já completamente exausto e sem os geringonços que lhe permitiriam sobreviver, há uma altura em que ele percebe que se a deixar -ela está cada vez pior- sobrevive e que se não a deixar, morre, a não ser que tenha a grande sorte de aparecer um socorro.
Na cena seguinte vemo-los os dois em grande plano, de mão dada e um helicóptero a pousar atrás deles. Não sabemos há quanto tempo estão ali e se ainda estão os dois vivos ou apenas um ou nenhum, mas isso não interessa. Percebemos que ele fez a escolha moral de ser fiel à sua humanidade e não abandonar a mulher.
O que é a vida de um ser humano se é construída sobre o abandono dos outros nas alturas que mais precisam? É uma vida de abandono de si mesmo enquanto humano.
O filme é muito meditativo (a música sublinha-o), não só porque a imensidão e o poder da Natureza lembram quão frágil somos mas também pela força da vontade humana, autónoma e livre, mesmo diante de obstáculos intransponíveis.
Todo o filme evoca aquela frase de Kant,
"Duas coisas me enchem o espírito com uma admiração e respeito sempre novos e crescentes: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim."
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