Apanhei agora este filme na TV. Um filme introspectivo e brutal, sobre a vida depois da sentença de morte que são certas doenças.
O filme é sobre um enfermeiro particular de cuidados paliativos. Durante o tempo em que cuida desse doente, passa todo o tempo com ele, vive em casa dele quando piora ou quando está sozinho, como a última doente de quem trata, que tem um cancro mestastizado por todo o lado e de quem a família se afasta.
Ele é muito profissional, cuidadoso e empenhado no trabalho. Depois vamos vendo que ele funciona como uma esponja que absorve o sofrimento mental dos doentes que são postos de frente para o abismo da morte e estão a lidar com a transformação da vida em uma preparação para a morte e com o sofrimento físico da doença. Por vezes também absorve a angústia das famílias que não sabem lidar com as doenças e que usam os doentes, inconscientemente, para se validarem a si mesmas.
As famílias nem sempre percebem que ele não está ali ao serviço delas mas dos doentes. O seu objectivo é aliviar-lhes o sofrimento físico e mental, torná-los confortáveis e possibilitar-lhes um fim de vida digno e não vazio. Ele é verdadeiramente estóico, alinha-se emocionalmente com os doentes e acompanha-os ao mesmo tempo que supervisiona a sua experiência de doentes.
Vemo-lo a lavar e vestir, uma última vez, uma doente que morreu, a tratar de um arquitecto que teve um AVC e está acamado sem quase conseguir mexer-se, etc. Ele nunca mente aos doentes ou sequer disfarça a realidade.
Durante algum tempo acompanhamo-lo sem o perceber bem. Vemo-lo a ir ao ginásio ou a outros sítios. O realizador filma-o como se ele fosse uma pessoa qualquer nas rotinas da vida. Sempre calmo e circunspecto. Depois, ao poucos e à medida que ele vai morar para perto da filha -que está a estudar medicina- e da ex-mulher, vamos percebendo a sua motivação.
Ele teve um filho que morreu com um cancro aos 16 anos. Já quase no fim do filme percebemos que ele terá ajudado o filho a morrer, quando a doença provocava tanto sofrimento que o filho já só chorava de dores. A filha sabe disso, desse sacrifício supremo dele. A única vez que o vemos emocionalmente afectado é quando fala desse filho com a filha. A sua vida profissional é o pagamento dessa dívida que ele sente que tem.
A última doente terminal de quem cuida é a que tem o cancro. Há uma cena em que ele está com ela no consultório e a médica oncologista lhe diz que o cancro se espalhou por vários orgãos e pelos ossos. A brutalidade daquela conversa, no entanto, dita e ouvida num tom profissional e contido, é ele quem a absorve. Absorve o choque emocional da doente e da médica, que tem de dar aquelas notícias e é ele quem dá coragem à mulher para ligar à filha e dizer que está tudo bem, pela mera presença calma e verdadeira.
Enfim, esta doente pede-lhe para ajudá-la a morrer, o que ele inicialmente se nega, mas depois pensa no sofrimento do filho e acaba por aceder.
O último doente dele é um rapaz de 16 anos com paralisia cerebral que vive numa cadeira de rodas. Ele é contratado para tomar conta dele durante uma semana enquanto a cuidadora dele está fora da cidade. É mais do que consegue suportar, porque o reverso deste cuidado extraordinário que ele presta aos outros é o seu vazio interior.
A última cena do filme é ele a fazer jogging. A câmara filma-o de frente a correr por um passeio até que ele, sem pausas e depois de olhar para a esquerda, atravessa a rua e é atropelado.
Até nisso ele é um cuidador: sendo enfermeiro sabe muito bem como acabar com a vida e tem todos os meios ao seu dispor, mas não quer deixar esse sofrimento à filha.
Fiquei com um outro respeito pela dedicação dos enfermeiros de cuidados paliativos.
Não vi o filme. Mas alguém que se entrega como esse senhor - se acaso existir -, só pode terminar da mesma forma. Parece ser filme um tanto pesado. Quem trabalha nos cuidados paliativos e se empenha no que faz, tem todo o meu apreço. Não consigo entender-lhes o mecanismo de desligar; julgo que serão pessoas especiais, estão acima da média.
ReplyDeleteGosto bastante do actor; conheço-o doutros filmes.
É um bocadinho denso, sim, mas é um filme que fica connosco.
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