Um homem passou vinte minutos explicar-lhe o seu próprio livro — e ela foi educada demais para interrompê-lo mas aquele momento mudou tudo.
O ano era 2008. Rebecca Solnit, já uma escritora e historiadora reconhecida, quando, numa festa em Aspen, um homem rico e mais velho lhe perguntou em que estava trabalhar no momento. Ela respondeu que acabara de publicar um livro sobre o fotógrafo Eadweard Muybridge.
O rosto dele iluminou-se. «Já ouviu falar do livro muito importante sobre Muybridge que foi lançado este ano?»
Antes que ela pudesse responder, ele começou a explicar-lhe essa obra inovadora. Como era significativa e que ela deveria lê-la porque mudou completamente a compreensão de...
A amiga dela tentou interromper: «Esse livro é o dela. »Ele continuou a falar. «É o livro dela», disse a amiga novamente, em voz mais alta. Ele continuou a explicar, sem se deixar intimidar, certo da sua autoridade.
Foram necessárias três tentativas para que ele finalmente parasse. E mesmo assim, ele não pediu desculpa, apenas desanimou um pouco e mudou de assunto.
Rebecca foi para casa e escreveu um ensaio sobre o assunto. Chamou-lhe, «Os homens explicam-me as coisas».
E com esse ensaio, ela deu ao mundo uma palavra para algo que as mulheres sempre experimentaram, mas para o qual não tinham nome: mansplaining.
O padrão por trás da festa
O ensaio não era realmente sobre um homem pomposo numa festa, era sobre um padrão que Rebecca tinha notado ao longo de toda a sua vida: homens a explicar às mulheres coisas que elas já sabiam. Homens medíocres a falar para mulheres com uma autoridade vazia de mérito. Homens a assumir que o seu conhecimento é superior, mesmo quando confrontados com evidências em contrário.
Em poucos anos, «mansplaining» entrou no Oxford English Dictionary — embora Rebecca nunca tenha usado exactamente essa palavra. Simplesmente descreveu o fenómeno com tanta clareza que outra pessoa nomeou-o com facilidade.
Mas o ensaio revelou algo mais profundo do que apenas um comportamento masculino irritante. Expôs um sistema de padrões que ninguém questionava. Revela a arquitetura da desigualdade.
No seu trabalho, ela escreve o que talvez seja a sua observação mais devastadora:
Foram necessárias três tentativas para que ele finalmente parasse. E mesmo assim, ele não pediu desculpa, apenas desanimou um pouco e mudou de assunto.
Rebecca foi para casa e escreveu um ensaio sobre o assunto. Chamou-lhe, «Os homens explicam-me as coisas».
E com esse ensaio, ela deu ao mundo uma palavra para algo que as mulheres sempre experimentaram, mas para o qual não tinham nome: mansplaining.
O padrão por trás da festa
O ensaio não era realmente sobre um homem pomposo numa festa, era sobre um padrão que Rebecca tinha notado ao longo de toda a sua vida: homens a explicar às mulheres coisas que elas já sabiam. Homens medíocres a falar para mulheres com uma autoridade vazia de mérito. Homens a assumir que o seu conhecimento é superior, mesmo quando confrontados com evidências em contrário.
«Os homens ainda me explicam coisas e nenhum homem jamais pediu desculpa por explicar, erroneamente, coisas que eu sei e eles não.»Todas as mulheres reconheceram o sentido desta expressão.
Em poucos anos, «mansplaining» entrou no Oxford English Dictionary — embora Rebecca nunca tenha usado exactamente essa palavra. Simplesmente descreveu o fenómeno com tanta clareza que outra pessoa nomeou-o com facilidade.
Mas o ensaio revelou algo mais profundo do que apenas um comportamento masculino irritante. Expôs um sistema de padrões que ninguém questionava. Revela a arquitetura da desigualdade.
No seu trabalho, ela escreve o que talvez seja a sua observação mais devastadora:
“Os homens inventaram padrões que podiam cumprir e chamaram-lhes universais.”Páre e pense nisso.
Os livros didácticos de história são chamados de «História», mas tratam principalmente de homens. Assim, a história das mulheres torna-se uma sub-categoria, um tópico de interesse especial, histórias, enquanto a história dos homens é 'A' história. O padrão. O universal.
As antologias literárias são chamadas de «Grande Literatura», mas estão repletas de autores homens. Assim, a escrita das mulheres torna-se «literatura feminina», um sub-conjunto, enquanto as perspectivas masculinas são apresentadas como 'A' experiência humana.
A filosofia é ensinada como raciocínio humano universal — mas foi desenvolvida quase inteiramente por homens. Assim, as formas de pensar das mulheres são descartadas como emocionais, subjectivas, irracionais.
A «experiência humana universal» era, na verdade, apenas a experiência masculina, vendida como verdade neutra.
Rebecca pergunta: e se deixássemos de aceitar isso? E se reconhecêssemos que a «objectividade» e os «padrões universais» eram, eles próprios, construções de género concebidas para excluir as mulheres?
Tudo muda.
De repente, as regras não são naturais ou inevitáveis. São apenas... escolhas. Escolhas feitas por pessoas com poder. E as escolhas podem ser contestadas.
Outro padrão que Rebecca desmonta: a ideia de que o silêncio significa paz.
Somos ensinados que mulheres que não reclamam estão satisfeitas. Que comunidades sem protestos são harmoniosas. Que a ausência de conflitos visíveis significa que tudo está bem.
Mas, como Rebecca aponta na sua coleção de ensaios “The Mother of All Questions” (A mãe de todas as perguntas), o silêncio muitas vezes significa apenas que a voz de alguém foi suprimida com sucesso.
Ela examina as perguntas que as mulheres ouvem constantemente:
Por que não tem filhos? Por que não sorri mais? Por que está tão zangada?Não são perguntas inocentes. São mecanismos de imposição — formas de policiar as escolhas, as suas emoções, a sua intervenção pública e a sua existência.
E quando as mulheres respondem honestamente, quando dizem «não quero filhos» ou «tenho todo o direito de estar zangada» ou«o que importa são as razões que me levaram a estar zangada», são tratadas como perturbadoras, perigosas. Como se estivessem a criar conflitos onde antes não existiam - mas a verdade é que o conflito sempre esteve lá, só que era apenas invisível porque um dos lados tinha sido silenciado pelo poder do outro lado.
Ela escreve:
O que torna o trabalho de Rebecca tão poderoso é que ela se recusa a separar a sua experiência de vida da análise intelectual.«A questão não é por que as mulheres estão zangadas, mas sim, por que não estamos muito mais zangadas?»
Nas suas memórias, «Recollections of My Nonexistence» (Memórias da minha inexistência), ela descreve como era caminhar por São Francisco quando era jovem, constantemente consciente da violência masculina.
Assédios que pareciam ameaças. Homens estranhos a segui-la. A sensação persistente de ser perseguida em espaços públicos. Como era interrompida em conversas, menosprezada em espaços intelectuais, como os homens diziam que as suas ideias não estavam correctas e, minutos depois, repetiam essas mesmas ideias sob aplausos.
Estas não são apenas queixas pessoais, são dados concretos, comuns às outras mulheres.
Estas não são apenas queixas pessoais, são dados concretos, comuns às outras mulheres.
Dados que mostram que as mulheres navegam pelo mundo de forma diferente dos homens.
Que o «espaço público» não é igualmente público para todos.
Que a autoridade intelectual é influenciada pelo género.
Que a violência masculina estrutura a existência diária das mulheres de formas que os homens nunca têm de considerar.
E aqui está a sua visão crucial: o homem que interrompe uma mulher numa reunião e o homem que comete violência contra as mulheres não são opostos. Fazem parte do mesmo sistema — um sistema que trata as vozes, os corpos e a autonomia das mulheres como menos importantes do que o conforto dos homens.
As pequenas rejeições e a grande violência existem num continuum. Estão ligadas.
Em «Hope in the Dark», ela escreve:
E aqui está a sua visão crucial: o homem que interrompe uma mulher numa reunião e o homem que comete violência contra as mulheres não são opostos. Fazem parte do mesmo sistema — um sistema que trata as vozes, os corpos e a autonomia das mulheres como menos importantes do que o conforto dos homens.
As pequenas rejeições e a grande violência existem num continuum. Estão ligadas.
Em «Hope in the Dark», ela escreve:
«A esperança não é um bilhete de lotaria que se pode segurar sentada no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual se derruba portas em caso de emergência.»Ela documenta vitórias feministas — leis alteradas, atitudes mudadas, vozes amplificadas — para provar que a resistência funciona.
Nomear a injustiça é o primeiro passo para a desmantelar.
Rebecca Solnit mostra que as regras «universais» podem ser contestadas. Que o que foi construído pode ser reconstruído de forma diferente.
A sua mensagem: o sistema não é natural. Foi construído. E a construção pode ser desfeita e refeita.
Rebecca Solnit deu-nos linguagem para experiências que não conseguíamos nomear. Sempre que alguém diz «páre de mansplaining», está a usar vocabulário que ela ajudou a criar. Sempre que alguém questiona se um padrão «universal» é realmente universal, está a aplicar a sua estrutura. Sempre que alguém se recusa a aceitar o silêncio como paz, está a mostrar a sua razão.
Ela provou que o pessoal é político — que as experiências individuais não são incidentes isolados, mas evidências de padrões estruturais e lembrou-nos que a esperança não é uma espera passiva. É um trabalho ativo — a prática diária de recusar aceitar que as coisas são como são porque têm de ser assim.
O homem naquela festa em Aspen não fazia ideia de que estava prestes a tornar-se famoso, pensava que estava apenas a partilhar informações importantes com uma mulher que claramente precisava da sua experiência. Em vez disso, tornou-se um exemplo. Uma ilustração perfeita de um padrão tão difundido que milhões de mulheres imediatamente o reconheceram.
As palavras, como ela provou, são onde a mudança começa. Quando se consegue nomear algo, passa-se a vê-lo em todo o lado e quando se vê em todo o lado, pode começar-se a desmantelá-lo.
Fonte: facts that will blow your mind
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