Em 1417, na enorme biblioteca de um antigo mosteiro alemão, um ex-secretário papal agora reformado, Bracciolini, encontrou, no meio de milhares de manuscritos, um poema de Lucrécio, De rerum natura (da Natureza das Coisas), com mais de mil anos, que se pensava perdido. Era um poema muito perigoso pois defendia que o Universo era feito de partículas invisíveis, não deuses e não havia vida após a morte. Fala de como somos parentes dos outros animais e das estrelas, porque tudo é uma agregação temporária de átomos que por um tempo estão juntos e depois se separam e vão constituir outras coisas e de como devemos viver a vida de acordo com esta ideia em vez de nos culparmos e atormentarmos com a ideia da morte e do castigo que se lhe segue que ele diz ser uma história da religião para assustar crianças para que se tornem homens assustados. Eram ideias epicuristas antigas, ateias. Ideias que tinham deixado de ser lidas, copiadas, guardadas. Porém, destas ideias tinha sobrado esta cópia esquecida, à espera de ser descoberta por um erudito. Bracciolini copiou-o e divulgou-o. Tornou-se uma obra de cabeceira de muitos durante os séculos seguintes e ajudou a moldar a Renascença. Leram-na, Giordano Bruno, Montaigne, Machiavelli, John Locke, Isaac Newton, Robert Boyle... Benjamim Franklin tinha uma cópia e Thomas Jefferson tinha cinco edições da obra, em Latim, Inglês, Italiano e Francês. Também Darwin a leu. Um poema perdido por mais de mil anos e encontrado por acaso, por um dos poucos homens que podia reconhecê-lo, reconhecer a sua importância e divulga-lo às pessoas certas, digamos assim. De facto, nada é impossível e tudo pode acontecer, o que é uma constatação de esperança e, ao mesmo tempo, assustadora.
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