Ontem fui visitar as Caves do José Maria da Fonseca, na Casa Mãe, em Azeitão.
Os vinhos José Maria da Fonseca são dos mais antigos do país e foram os primeiros a ser engarrafados. Estão quase a fazer 200 anos e sempre na mesma família - a Casa foi fundada em 1834.
Os seus vinhos mais conhecidos são o Periquita e o Moscatel, sobretudo o roxo, uma originalidade da casa.
Entre os moscatéis, o mais famoso é o Torna Viagem. No século XIX, quando o comércio internacional era feito por navios, a José Maria da Fonseca enviava uns barris para o Brasil e dava ao comandante do navio uma comissão por cada venda. Como nem todos eram vendidos, parte do vinho tornava à Casa Mãe.
O que foi notado logo da primeira vez que fizeram a viagem de volta foi que o vinho, que tinha viajado uns seis meses, entre ir e vir do Brasil, tinha envelhecido o equivalente a vários anos. O vinho tornava mais complexo, denso e aveludado. Depois disso, fizeram o vinho dar uma volta ao mundo, em 11 meses e confirmaram que o vinho vinha envelhecido, como se tivesse passado aí uns 10 anos nos cascos de carvalho. Esse é o vinho Torna Viagem.
Pensa-se que esta reacção do vinho se deve à combinação de três factores: as grandes amplitudes térmicas durante a viagem (quanto mais vezes passa a linha do equador mais envelhece), o sal do mar que altera a madeira dos barris e o balanço do navio que influencia os níveis de oxigénio dentro dos barris.
No ano 2000 a José Maria da Fonseca retomou as viagens com cascos de moscatel de Setúbal. Em parceria com a Marinha Portuguesa, em específico com o Navio Escola Sagres, inicia a ‘Época Moderna dos Torna Viagem’, tendo já realizado oito edições, a última em 2020.
Estes, 'Torna Viagem', contemporâneos, ainda estão nos barris e não se sabe se, e quando, serão postos à venda. Por enquanto vendem-se alguns dos antigos. Na
garrafeiranacional, por exemplo, pode comprar-se uma garrafa de 50cl -sim, cl e não dl- por 1390€.
Esta porta digna de um filme de terror é a entrada da garrafeira particular da família que, como se vê pelas teias de aranha, raramente é aberta. A porta fica no fim da cave chamada dos Velhos Teares, onde chegamos depois de passar por corredores ladeados de barris de moscatel, alguns Torna Viagem, em casco de carvalho onde o vinho envelhece, ao som de Canto Gregoriano. Sim, o ambiente dentro da cave é místico. Entramos lá dentro e a música, combinada com cheiro de madeira, vinho doce e terra cria uma atmosfera única. É uma experiência.
As aranhas servem para comer os bichos que atacam a madeira. Também há morcegos para comer as aranhas. É todo um ecossistema, ao som de Canto Gregoriano.
Disseram-nos que se imagina que as vibrações do Canto Gregoriano imitam, de algum modo, o balançar do navio nas ondas e o seu efeito no vinho. Humm... parece-me que é mais a reverência religiosa que têm pelos vinhos... o que se explica muito bem porque os vinhos são excelentes.
No fim tivemos direito a uma prova de dois vinhos, um Periquita tinto de castas Castelão e Touriga Nacional e outro de Moscatel Roxo. Por 600 euros ou assim, podíamos ter provado um vinho do ano do nosso nascimento - não valemos assim tanto...
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