Desvalorizam completamente a posição de vulnerabilidade física e emocional em que os professores ficam, a sensação de abandono total em situações de agressão de alunos e de traição a todos os princípios pedagógicos escritos em todas as cartas e regulamentos escolares, bem como na lei.
Às vezes fazem acareações entre o aluno e o professor, como se a escola fosse um tribunal e a palavra do aluno e do professor estivessem ao mesmo nível - estes alunos por norma, têm antecedentes que estão registados no seu processo. Nesses casos, o aluno pede a dois ou três vassalos entre os colegas (geralmente têm-nos) que testemunhem a seu favor contra o professor e o professor é que ainda fica com problemas e chega ainda a ser alvo de queixas dos pais e hostilidade de colegas.
Aqui há muitos anos, fiquei com uma turma do 12º ano, numa disciplina de opção. Logo na 1ª reunião do Conselho de Turma, no 1º período, uma professora da turma relatou o caso de um aluno que desde o 10º ano lhe fazia bullying nas aulas e que tinha chegado ao ponto de andar numa rede social a chamar-lhe puta e outras coisas piores, a inventar calúnias acerca dela e a ameaçar que ia dar cabo dela, etc., de maneira que ela não se sentia segura com ele na aula. Fiquei estupefacta e perguntei, como era possível o aluno andar nisto desde o 10º ano e nada ter sido feito? (Tudo isto se devia à professora não lhe ter atribuído as notas de 18 que ele exigia) O DT começou a desculpabilizar o aluno dizendo que mais ninguém se queixava e que ele tinha boas notas a outras disciplinas. Fiquei incomodada e naturalmente apoiei a colega, pois esse argumento é um pouco como dizer, 'olha, Putin não faz nada de mal, porque nunca fez mal a Portugal e a Espanha'. A maioria das pessoas fora das escolas não sabe, mas é muito comum um aluno ou às vezes uma turma, escolher um professor para fazer bullying e com os outros portar-se bem.
Enfim, por sorte, algumas alunas da turma mostraram à professora as mensagens dessa rede social onde ele ameaçava a professora e lhe chamava tudo quanto é palavrão e confirmaram as 'bocas' ordinárias e agressivas que ele dizia contra a professora dentro das aulas e que o próprio negava - de maneira que ela fez queixa na polícia com essas provas. O rapaz já tinha 18 anos.
Nessa reunião decidiu-se tirá-lo da disciplina da professora e puseram-no na minha - um aluno desses dentro de uma aula onde faz bullying ao professor, estraga o trabalho à turma toda porque o professor vai estar em constante estado de alerta e de tensão para se defender do aluno - uma aula onde não há segurança ninguém consegue ensinar e ninguém aprende. É o mesmo que mandar alguém para um palco e dizer-lhe para fazer o seu melhor, avisando que está alguém na plateia que ameaçou atacá-lo.
O ambiente nos CT durante o resto do ano era de cortar à faca, porque o DT estava explicitamente do lado do aluno e era hostil para com a colega e a maioria dos professores não queria meter-se para não ter chatices, nomeadamente com o aluno. Decidiu-se fazer um Conselho Disciplinar, porque o comportamento dele inscrevia-se numa situação de maior gravidade e ele era maior de idade. O aluno foi suspenso na punição máxima. Penso que nunca cumpriu um dia, sequer, de suspensão, mas já não tenho a certeza. Lembro-me de andar, durante muito tempo, a perguntar ao DT porque razão ele continuava a ir às aulas e nunca mais cumpria a ordem de suspensão. No entretanto, a encarregada de educação do aluno fez queixa da professora nos termos mais contundentes.
O caso foi a tribunal e aí ele confessou tudo. Fez-se de vítima, disse que estava arrependido, que não tinha sido por mal (foi por bem...), etc. Foi condenado. A juíza pediu à professora para permitir que ele não ficasse com cadastro, dado ser a 1ªa vez e ela concedeu (eu não tinha concedido porque ele fez tudo com grande malícia). A juíza obrigou-o a escrever uma carta à escola, para ser divulgada, a assumir os comportamentos de que estava acusado e a pedir oficialmente desculpa à professora.
Não consta que o DT tivesse ido ter com a colega e lhe pedisse desculpa por ter apoiado o aluno durante anos, contra ela. O stress em que a professora andava e a sensação de traição que tinha por parte dos colegas (o DT tinha uma posição importante na escola) durante todos esses anos em que foi vítima da maldade do aluno, era evidente. Essa professora foi-se embora da escola. Ele era muito apreciado em certos meios da escola.
Isto é a realidade de muito professores. Tem que ver com o ataque à autoridade dos professores por parte das tutelas e da sociedade em geral e com a conivência das lideranças das escolas, por razões várias, na maioria dos casos, cobardia e interesses mesquinhos.
O próprio ME desincentiva a responsabilização dos alunos e pais por comportamentos de violência: é proibido expulsar um aluno, seja em que circunstância for; a suspensão é mal vista, quando é evidente que um aluno destes não pode voltar a frequentar a aula do professor e deixá-lo sob constante ameaça física ou verbal.
Reparo que neste vídeo a professora diz que mandou chamar a segurança, só que em Portugal, são raras as escolas com seguranças e os professores são deixados completamente sozinhos ao abandono, dentro de salas com 30 alunos, onde muitas vezes há 1 aluno ou mais, violentos e agressivos ou cheios de malícia. Dependem de estar alguma professor perto que venha ajudar.
Por isso, aprecio os vídeos que ponho aqui do director de uma escola americana que anda pelos corredores, com outras pessoas da administração da escola, a espreitar para dentro das aulas e das casas-de-banho, para ver se há problemas e agir em cima da situação, protegendo todos: professores e outros alunos.
Aqui há muitos anos, antes da minha escola ter seguranças (agora já não os tem) uma colega DT, na reunião de pais, foi atacada por um pai que saltou para cima dela e lhe apertou o pescoço. Valeu-lhe ter gritado e um professor que estava na sala ao lado ouvir e vir socorrê-la.
Dou apoio na sala a uma colega do terceiro ciclo, porque as turmas que ela tem são muito complicadas. Há cerca de um mês parece que separei os alunos à entrada da sala que se estavam a "engalfinhar". Passados quatro dias, a professora titular telefonou-me aflita a dizer que um dos alunos me acusava de lhe ter apertado o pescoço. O caso foi tão marcante que ainda hoje não me lembro de nada, nem de ter separado os miúdos em questão. A DT soube da acusação dos alunos e disse à turma que redigisse uma participação contra mim. Não me disse nada,não averiguou nada, zero. Apenas os incentivou a fazer queixa. Foi por isso que a outra colega me telefonou. Em suma, a turma não escreveu nada e eu ainda continuo por cá. Caso contrário, estaria agora em muitos mais lençóis.
ReplyDeleteIsso é chocante! Desde que a Lurdes Rodrigues pôs os pais contra os professores (e assumiu-o) que essas situações são comuns nas escolas, infelizmente. Se essas coisas se soubessem, ainda havia menos candidatos a professor do que há.
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