May 30, 2025

O mundo do islão é o sonho de qualquer mulher...




Entrevista à astrónoma afegã Amena Karimyan

Expresso

(...)

Como foi a jornada de saída do país?

Não foi fácil. Duas horas antes de Cabul ser invadida pelos talibãs, recebi uma mensagem no WhatsApp de uma jornalista da Áustria que disse que gostaria de me levar para a Grécia. Como não conhecia a Grécia, não abri a mensagem, não coloquei como lida, não respondi. Tive aquele convite e também a oportunidade de ir para o Canadá, Espanha, e muitos países do mundo, mas optei pela Alemanha e surpreendeu-me como é que o meu nome também estava na lista. Todo o processo de saída do Afeganistão foi longo.


Teve de atravessar a fronteira terrestre?

Sim. Antigamente não era preciso ter visto para ir ao Paquistão, mas depois de agosto [de 2021], já ninguém concedia vistos, mas eu consegui obter um para a Grécia, com prazo de um ano. (...) Tentei por várias vezes passar a fronteira, mas algumas não correram bem e tive de voltar para trás. Por exemplo, mesmo com visto não me deixaram sair porque precisava de três documentos e faltava um. Nunca estava sozinha, estava com uma irmã, o meu cunhado, e uma criança de ano e meio que viu isto tudo. O meu cunhado trabalhava com o Governo e era uma pessoa conhecida. Da primeira vez foi connosco, mas na segunda não conseguiu porque estava a ser seguido. Quando os talibãs perseguem uma pessoa, podem acabar por matá-la.

Como não tenho irmão, na segunda tentativa fui com um conhecido, a minha irmã e sobrinho. À terceira, os talibãs já estavam de olho em mim e fui apanhada. Levava 11 livros e alguns documentos. Os talibãs não perceberam os documentos porque estavam em inglês, mas os livros tinham imagens de mulheres e não gostaram disso porque são anti-mulheres e anti-ciência. Fui-me muito abaixo psicologicamente, chicotearam-me na rua, levei duas chicotadas em que a largura do chicote era mais ou menos a da base deste copo [aponta para um copo na mesa].

Então encontrei a minha irmã num lugar onde se podia pernoitar, junto da fronteira. Eu estava muito triste, tinha um nó na garganta e a minha irmã quando me viu perguntou-me o que se tinha passado. Não consegui dizer nada, comecei a chorar. Fui seguida por quatro talibãs, um com chicote e os outros armados, e a minha irmã, que percebeu que eu não estava bem, discutiu com eles. O problema era estar sozinha na fronteira sem nenhum mahram (familiar do sexo masculino). A minha irmã estava muito exaltada e disse aos talibãs 'ninguém do povo está de bem convosco, vocês são terroristas, só matam pessoas' e pegou no filho em frente aos talibãs, enquanto gritava: 'se nos querem matar, matem de uma vez, mas não nos façam isto'. O meu sobrinho viu e ouviu tudo. Às vezes penso se no futuro conseguirá ultrapassar tudo o que viu e sentiu.

Outras pessoas vieram em nosso auxílio, tentando acalmar os talibãs, que queriam disparar, e disseram-nos que tínhamos de ir aos serviços secretos. Era meia hora a pé e não era fácil porque tínhamos armas apontadas à cabeça. Se não obedecêssemos, levávamos um tiro. Chegaram a apontar uma arma cabeça à do meu sobrinho, de um ano e meio. Sentíamos fraqueza nas pernas para conseguir caminhar e a minha irmã disse-me que, caso ela caísse, pegasse no meu sobrinho e o levasse comigo. Eu arrastava-me com dificuldade, não estava muito melhor do que ela. Uma voz dentro de mim - não sei se falava comigo ou com Deus - dizia-me que a minha irmã e o meu sobrinho não tinham culpa de nada e se alguém devia morrer era eu. Depois veio um mahram e chegámos ao local. Não tinha muita barba, nem cabelo comprido, parecia uma pessoa normal. Ficou com todos os meus documentos, passaporte, cartão de cidadão… Passada meia hora, regressou e devolveu-me tudo. Quis saber porque ali estávamos, a minha irmã explicou que não tínhamos feito nada de errado, que tínhamos sido levadas até ali. O senhor parecia falar persa, que não é a língua dos talibãs.

Expliquei-lhe que precisava de ir para a Grécia continuar os estudos e que o meu marido - não tinha, mas menti - me esperava lá. Porque era impossível uma mulher passar a fronteira sem ter nenhum homem a acompanhá-la. E deixou-me passar a fronteira. A nossa sobrevivência foi um milagre. As pessoas à nossa frente estavam preparadas unicamente para disparar e matar, não tinham nada que as impedisse. Mesmo no caminho de Cabul até à fronteira, viam-se pessoas que tinham sido baleadas nos cruzamentos. (...) Mal atravesse a fronteira com o Paquistão, tiraram-me todo o dinheiro e pertences, só consegui reaver o dinheiro...

Excerto

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