December 01, 2021

O Alentejo descaracterizado




Sem diversidade biológica e, provavelmente, sem água.

Oil Dorado: o retrato de um Alentejo desfigurado pelas monoculturas intensivas


Ao longo de quatro anos, num Alentejo descaracterizado pelas monoculturas intensivas e superintensivas de olival e amendoal, o geógrafo e fotógrafo André Paxiuta desenvolveu o projecto Oil Dorado. "Hoje, a homogeneidade de culturas domina numa região que está, em mais de 70%, na mão de grupos estrangeiros. Sem respeito pela paisagem ou tradição dos locais, os custos para a região são imensos.”

Ana Marques Maia

Ferreira do Alentejo, 2020. A sobrecarga do sistema ambiental estende-se ao sector industrial, onde cerca de 600 mil toneladas de bagaço de azeitona (cascas, resíduos da polpa e fragmentos do caroço da azeitona), sobrante dos lagares da região, é transformado em unidades fabris, cujos subprodutos causam a degradação da qualidade do ar e a contaminação de cursos de água. ©ANDRÉ PAXIUTA

“Qualquer pessoa que conheça minimamente o território alentejano percebe que, de há vários anos a esta parte, a paisagem se alterou de forma abismal.” Hoje, refere o fotógrafo e geógrafo André Paxiuta em entrevista ao P3, as culturas intensivas e superintensivas de olival e amendoal imperam sobre todas as outras. “Antes existia grande variedade de culturas de sequeiro e de prados. 
Hoje, a homogeneidade de culturas domina numa região que está, em mais de 70%, na mão de grupos estrangeiros. Sem respeito pela paisagem ou tradição dos locais, os custos para a região são imensos.” E é sobre esses custos que versa o projecto Oil Dorado, com enfoque no olival, que procura financiamento para a sua materialização em formato de fotolivro na plataforma de crowdfunding IndieGogo
O projecto de Paxiuta descreve "a mutação silenciosa" do "território prometido do Alqueva". "Regado a partir do maior lago artificial da Europa, onde crescem oliveiras aos milhares, azeitonas aos milhões, enriquecem-se pioneiros e abrilhanta-se o orgulho da nação", pode ler-se na introdução do livro. "Na sombra desta corrida, encontrei a morte anunciada da paisagem alentejana que um dia conheci."

Num ano excepcional para a produção de azeite – a maior produção da história do país devido à rentabilidade dos olivais superintensivos plantados a sul do Tejo, que são geridos, em 65%, por seis grupos financeiros estrangeiros ou luso-estrangeiros – “faz sentido olhar atentamente para o que está a acontecer”. “Visto de longe, um olival acabado de plantar parece um cemitério americano”, observa Paxiuta. “Ele domina o manto de verde em quilómetros e quilómetros até perder de vista. Esta é a nova realidade no Alentejo, sobretudo em Beja, Serpa, Moura, Ferreira do Alentejo.”

De forma sucinta, quais as implicações deste tipo de culturas para a região? São inúmeras e tocam as vertentes ambientais, económicas e demográficas. Paxiuta começa por referir a transformação dos terrenos em olival, que “implica a remoção de tudo o que pudesse lá estar anteriormente” e a “reformulação tendo em vista o favorecimento da plantação, do funcionamento das máquinas e da apanha”. As culturas anteriores são substituídas por monocultura, eliminando a biodiversidade, alterando o habitat de inúmeras espécies animais. “Vegetação e comunidades de aves vêem os seus habitats destruídos.”

A proximidade dessas culturas de núcleos habitacionais, de aldeias e conjuntos de casas, obriga as populações ao convívio regular com fitofármacos e química correctora desses olivais, que contaminam as águas. “Há famílias que abandonam as suas casas quando sabem que vão existir pulverizações, não querem estar presentes.” As implicações para a saúde, as consequências directas do convívio com estes agentes químicos, ainda carecem de avaliação. 
Porém, Paxiuta afirma que “a qualidade de vida das populações é afectada”. Não apenas pela proximidade das culturas per se, mas também pela proximidade de unidades fabris de transformação do excedente da azeitona – cascas de resíduos da polpa e fragmentos do caroço da azeitona – em óleo de bagaço de azeitona e biomassa. “No processo de transformação, estas unidades utilizam o próprio bagaço seco como combustível, emitindo das suas chaminés gases particulosos gordurentos, altamente poluentes, com cheiro muito intenso, nauseabundo”, pode ler-se no interior do livro Oil Dorado.

Em Fortes, no concelho de Ferreira do Alentejo, os 100 habitantes, maioritariamente idosos, vivem a cerca de 300 metros da fábrica de queima de bagaço de azeitona Azpo, que pertence ao grupo espanhol Migaza. 

A fábrica trabalha ininterruptamente, 24 sobre 24 horas, sete dias por semana. “Isto significa que os habitantes da aldeia e redondezas sofrem com o cheiro e fumo poluente desde a sua abertura, em 2009”, lê-se no livro. “Certas condições atmosféricas trazem o fumo (…) que irrita os olhos e a garganta, provoca tosse, lacrimejar e falta de ar.” 
Rosa Dimas, habitante da aldeia de Fortes, disse a Paxiuta que a chegada dessa indústria destruiu o seu modo de vida. “Fui obrigada a desistir de semear as minhas culturas, de onde obtinha a minha factura para o ano inteiro de feijão, batata, nabiças, couves, melancia. Tudo se acabou.”

A monocultura de olival no baixo Alentejo, alavancada pela construção da barragem do Alqueva e pelos inúmeros fundos europeus destinados a este tipo de negócio, produziu mudanças também ao nível demográfico. Mas não da forma que seria desejável. 
“Os censos de 2020 foram claros”, refere o geógrafo. “O desenvolvimento do Alentejo que se seguiu à construção da Barragem do Alqueva não contribuiu para a fixação da população na região.” Contribuiu, sim, para a importação de mão-de-obra. “O interior de Portugal está desprovido de população activa para trabalhar no campo”, argumenta o fotógrafo lisboeta. “Os portugueses não querem realizar esses trabalhos porque os salários são muito baixos, as jornadas de trabalho são muito longas e duras e não querem submeter-se a estas novas formas de escravatura.”

Há, no entanto, quem não tenha outra opção. “O conceito de importação de mão-de-obra que já existia em Espanha foi adaptado à realidade portuguesa – através das empresas espanholas sediadas em Portugal – e trabalhadores da Europa de Leste, inicialmente, e mais tarde da Índia, do Paquistão, do Bangladesh, do Nepal, começaram a realizar estes trabalhos. 
“Alguns trabalham com todas as condições, têm bons empregadores.” Ao longo de quatro anos de desenvolvimento do projecto, André Paxiuta viu um pouco de tudo. “Há uma fatia que se queixa de excesso de carga horária, de más condições de trabalho, documentos sequestrados, ameaças de denúncias junto do SEF, de contratos anulados. 
Uma das queixas mais recorrentes está relacionada com a habitação.” O fotógrafo faz referência à existência de casas sobrelotadas e armazéns agrícolas sem condições de habitabilidade onde 40 a 50 trabalhadores imigrantes dormem em colchões no chão. Os seus testemunhos estão incluídos nas páginas do livro, que aguarda impressão.

Qual a factura a pagar, no futuro, pela “revolução” em curso no Alentejo? “Estamos a falar de culturas intensivas que dependem grandemente do consumo de água”, realça o fotógrafo. “Existe um ponto de interrogação sobre a sua escassez no futuro, o que poderá colocar em causa a sua sustentabilidade.” Paxiuta acredita que a presente corrida ao “oil dorado” deixará marcas permanentes na região. “Poderá levar ao esvaziamento da riqueza ambiental e cultural do território (...) e ao colapso dos sistemas que o suportam.”




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