May 11, 2021

Estas malas agora fizeram-me lembrar uma história do Verão de 1974

 


É que na semana passada eu e a minha irmã estivemos a lembrar dela e a rir. Tenho tantas histórias destes anos do 25 de Abril e do PREC que devia escrevê-las todas. Esta foi no Verão de 74 quando Spínola e Vasco Gonçalves (o PC em geral) faziam um braço de ferro para ver quem mandava mais e que culminou na intentona ou inventona, como lhe chamavam, do 28 de Setembro, que não vou aqui explicar o que foi, mas que fez fugir daqui, sobretudo para o Brasil, toda a gente que tinha 3 tostões, porque já aí se adivinhava o PREC que havia de vir.

Enfim, nesse Agosto, fomos passar uma semana de férias ao sul de Espanha. Íamos lá encontrar-nos com uma espécie de primos que não são primos que já estavam a viver quase todos fora de Portugal, no Norte da Europa. E já lá estavam todos os que eram para estar (o meu pai ficou a trabalhar) e faltavam, eu (ainda estou para saber porque é que nestas histórias ficava sempre para trás...), a minha irmã mais nova a seguir a mim e a mãe. A tia que já lá estava em Espanha pediu-nos se aproveitávamos para levar coisas pessoais que tinha deixado cá em Portugal antes que fosse tudo nacionalizado pelos amigos do Otelo e do camarada Vasco. Jóias e outras coisas mais volumosas. 

É evidente que não podíamos ir de avião que era tudo revistado, de modo que tínhamos que ir de carro. O problema era que a mãe não guiava. Tinha motorista. Então pedimos à C. uma amiga comum, bastante mais nova que a mãe que fosse connosco. O carro dela era um mini. Ela tinha tirado a carta há 3 dias (já me estou a rir). Era final de Julho ou Agosto, já não lembro ao certo mas penso que era Agosto (a minha irmã lembra-se), um calor de morte, as estradas não eram auto-estradas como agora. Até ao Caia a estrada era apertada e um solavanco constante. O carro, muito pequeno, ia atafulhado de malas como se fossemos dar a volta ao mundo - as malas escondiam muita coisa lá dentro entre roupas. Entre mim e a minha irmã, que íamos atrás, havia malas a ocupar todo o espaço e havia coisas debaixo dos bancos que não queríamos que descobrissem. A bagageira ia aberta porque era pequenina e as malas não cabiam todas lá dentro. 

Íamos lá dentro as 4 a estrafegar com o calor e a combinar o que fazer na alfândega com os guardas. A C. não acertava nas mudanças e estivemos várias vezes paradas com o carro a não querer andar. Nessa altura havia piquetes nas estradas e na fronteira, então, aquilo era tudo esquadrinhado... não me lembro ao certo do que se passou na fronteira. Lembro-me de se ter que abrir malas, de tirar tudo da bagageira e de estar ali uma confusão, haver muitos discussão e aquilo ter durado muito tempo, mas nós éramos todas muito descaradas e não tínhamos medo nenhum. Sei que passámos. Na Andaluzia o calor era uma bigorna, o carro deitava fumo e a gente estava há horas enfiadas num espacinho atafulhado -na altura as viagens pelas estradinhas mal-amanhadas eram como fazer um safari em África. De vez em quando parávamos para pôr gasolina e despejar garrafas de água pela cabeça abaixo. Comíamos qualquer coisa e seguíamos. Íamos em grande risadas, tudo a falar alto ao mesmo tempo, acho que da adrenalina de termos passado com as coisas todas debaixo do nariz dos indivíduos e a C. largou-se com o carro à desabrida. De repente passa um carro por nós a fazer sinais frenéticos. Eram dois espanhóis a avisar que lá mais atrás as malas da bagageira tinham caído para a estrada.      ahahah

Tivemos que voltar para trás à procura das malas. Demos com elas espalhadas no meio da estrada. Lá as fomos apanhar. Só ríamos, porque, quer dizer, tanta coisa para passar as malas e depois perdíamos as malas pelo caminho sem dar por isso. Essa viagem foi um filme tipo italiano. Chegámos ao hotel de noite, esbaforidas, tudo preocupado connosco - na altura não havia telemóveis e não tinham maneira de nos contactar e saber onde estávamos e se estávamos bem, podíamos ter sido presas- e a gente só ria.






imagem da net

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