Em Português Nos (Des)entendemos
Portugal é um país extraordinário. Há nações que se dividem por religião, política ou futebol. Nós elevámos a discussão a um patamar muito mais sofisticado: discutimos se é imperial ou fino, sapatilha ou ténis, cruzeta ou cabide. É por estas e por outras que nunca seremos conquistados.
Nélson Mateus e Alice Vieira
Querida avó,
Escrevo-te esta carta enquanto oiço a canção Imperial é Fino, de Ana Bacalhau e Cláudia Pascoal.
Portugal é um país extraordinário. Há nações que se dividem por religião, política ou futebol. Nós elevámos a discussão a um patamar muito mais sofisticado: discutimos se é imperial ou fino, sapatilha ou ténis, cruzeta ou cabide. É por estas e por outras que nunca seremos conquistados. O invasor ainda está a tentar perceber o que é um chuço quando já os do Norte mudaram o nome à frigideira.
Falamos várias versões altamente personalizadas do português, todas convencidas de que são a original e que as outras precisam urgentemente de legendas.
O mais engraçado é que ninguém admite ter sotaque. O sotaque é sempre dos outros. O lisboeta garante que fala “normal”. O portuense responde que fala “como deve ser”. O minhoto acha graça aos dois. O alentejano ainda está a pensar na resposta, mas só chega daqui a meia hora - sem pressas, porque a língua também merece descanso.
Há palavras que mudam de nome mal atravessam o Douro. Outras transformam-se antes de passar Coimbra. Se um extraterrestre aterrar em Portugal e pedir indicações, acaba a beber uma imperial que afinal é um fino, seguido de uma bica que afinal é um cimbalino, enquanto compra uma pastilha que alguém insiste em chamar chicla. Quando finalmente achar que percebeu o sistema, aparece uma senhora a pedir-lhe o aloquete. O pobre ET telefona imediatamente para casa: «A missão foi cancelada. Eles chamam cinco coisas diferentes à mesma coisa e ainda discutem qual está certa».
Esta diferença linguística nunca é uma guerra. Pelo contrário, faz dela uma festa!
Em Portugal, podemos discordar sobre tudo - desde o nome da cerveja até ao da cruzeta -, mas acabamos sempre na mesma mesa, a rir das nossas manias.
Seja imperial ou fino, o importante é que venha bem fresca.
Bjs
Querido neto,
Portugal é um país onde se pode identificar a origem de uma pessoa antes de ela acabar a primeira frase. Bastam três sílabas. É o equivalente linguístico ao ADN.
Vês isso diariamente na TV, nomeadamente com os políticos. Cada um tem uma pronuncia diferente. No entanto, não me parece que seja por isso que se desentendem!
Talvez seja esse o encanto. Enquanto o mundo inteiro caminha para uma uniformização quase industrial, nós continuamos orgulhosamente complicados. Conservamos palavras, pronúncias e expressões como quem guarda receitas da avó: cada região jura que a sua é a verdadeira e que as outras são aproximações simpáticas.
Estrugido é refogado, trolha é pedreiro, bueiro é sarjeta… e podia estar nisto o dia inteiro.
Aqui pela Ericeira, cada vez é mais difícil encontrar portugueses.
Brasileiros e nepaleses são mais que as mães. E depois há russos, ucranianos…
Quando ouvimos falar português até ficamos admirados, “mas donde é que este terá vindo?!”
Quando todas as manhãs desço até à esplanada da praia até penso que estou no estrangeiro, o que não deixa de ser agradável! O estrangeiro mesmo à porta da minha casa! Escuso de apanhar aviões, passar horas e horas em aeroportos…
A chatice é a língua, mas pronto.
E até já há uns que vão arranhando o português.
O Dinis, por exemplo, o nepalês que serve na esplanada da praia do Sul, já fala alguma coisa embora baralhe sempre o “obrigado” e o “se faz favor”. A outra empregada que trabalha ao lado dele é que só responde com acenos de cabeça.
Já sabes, se quiseres ir rapidamente ao estrangeiro - mas um estrangeiro a sério, não é Badajoz! - é só vires até à Ericeira.
Traz contigo a Ana Bacalhau e a Cláudia Pascoal, eu faço-vos a visita guiada. Até nem levo muito caro.
Venham até à minha beira, vai ser uma farra!
Bjs