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May 10, 2026

O Dia das Mães

 

Se pesquisar no Google a história do Dia da Mãe, a Internet dir-lhe-á que o Dia da Mãe teve início em 1908, quando Anna Jarvis decidiu homenagear a sua mãe, mas o «Dia das Mães» — não no singular, mas no plural — começou, na verdade, na década de 1870, quando a enorme dimensão das mortes causadas pela Guerra Civil e pela Guerra Franco-Prussiana convenceu a escritora e reformadora Julia Ward Howe de que as mulheres deviam assumir o controlo da política, tirando-o dos homens que tinham permitido tal carnificina. 

O Dia das Mães não foi concebido para incentivar as pessoas a serem gentis com as suas mães. Fazia parte do esforço das mulheres para ganhar poder e mudar a sociedade.

Os anos da Guerra Civil ensinaram aos americanos ingénuos o que significava a morte em massa na era moderna. Soldados que partiram para a guerra com sonhos de heroísmo descobriram que as armas de longo alcance, então recém-inventadas, transformavam a morte num anonimato atormentado. Homens eram pisados na lama ensanguentada, amontoados como lenha nas valas, ou definhavam até se tornarem cadáveres emaciados depois de a disenteria lhes ter esgotado a vida.

Mas da guerra surgiu também um novo sentimento de empoderamento. As mulheres tinham comprado títulos do Estado, pago impostos, angariado fundos para o esforço de guerra, gerido quintas, colhido os campos, trabalhado nas indústrias de guerra, criado os filhos e prestado cuidados aos soldados. Quando a guerra terminou, elas tinham toda a expectativa de continuar a ser consideradas participantes valiosas nos assuntos nacionais e tinham toda a intenção de continuar a participar neles.

Aconteceu que a Décima Quarta Emenda, que estabeleceu que os homens negros eram cidadãos, não incluiu explicitamente as mulheres nesse direito. Pior ainda, introduziu a palavra «masculino» na Constituição ao advertir os Estados contra a proibição do voto aos «habitantes masculinos». Em 1869, um ano após a adição da Décima Quarta Emenda à Constituição, as mulheres criaram duas organizações — a Associação Nacional pelo Sufrágio Feminino e a Associação Americana pelo Sufrágio Feminino — para promover o direito das mulheres de terem voz no governo americano.

A partir da sua casa em Boston, Julia Ward Howe foi uma figura-chave da American Woman Suffrage Association. Era uma escritora de enorme talento que, nos primeiros anos da Guerra Civil Americana, escreveu “The Battle Hymn of the Republic”, um hino cujas letras faziam questão de assinalar que Cristo tinha “nascido de mulher”.

Howe aproximou-se dos direitos das mulheres porque as leis do seu tempo significavam que os seus filhos pertenciam ao marido abusador. Se se libertasse dele, perderia qualquer direito de ver os filhos — um facto que ele lhe atirava à cara sempre que ela ameaçava deixá-lo. Inicialmente, ela não era uma radical no molde da reformadora Elizabeth Cady Stanton, que acreditava que as mulheres tinham um direito humano à igualdade com os homens. Pelo contrário, acreditava firmemente que as mulheres, enquanto mães, tinham um papel especial a desempenhar no mundo.

Para Howe, a Guerra Civil tinha sido traumática, mas o facto de ter conduzido à emancipação podia justificar o terrível derramamento de sangue. O início da guerra Franco-Prussiana, em 1870, era outra história. 

Mais tarde, recordaria:
Fui tomada por um sentimento súbito do carácter cruel e desnecessário do conflito. Pareceu-me um regresso à barbárie, sendo a questão em causa algo que poderia facilmente ter sido resolvido sem derramamento de sangue. A pergunta impôs-se-me: ‘Porque não intervêm as mães da humanidade nestes assuntos, para impedir o desperdício dessa vida humana cujo custo apenas elas conhecem e suportam?
Howe disse ter tido então uma nova visão da “augusta dignidade da maternidade e das suas terríveis responsabilidades”. Sentou-se imediatamente e escreveu um “Apelo à Feminilidade de Todo o Mundo”. Os homens sempre tinham decidido — e continuariam a decidir — as questões recorrendo ao “assassínio mútuo”, escreveu ela, mas as mulheres não tinham de aceitar “processos que enchem o globo de dor e horror”. As mães poderiam ordenar aos seus filhos — “que devem a vida ao sofrimento delas” — que pusessem fim à loucura.
Levantai-vos, mulheres!, ordenava Howe. Dizei com firmeza: Não permitiremos que grandes questões sejam decididas por meios irrelevantes. Os nossos maridos não virão ter connosco, empapados em carnificina, em busca de carícias e aplausos. Os nossos filhos não nos serão tirados para desaprenderem tudo aquilo que lhes conseguimos ensinar sobre caridade, misericórdia e paciência. Nós, mulheres de um país, teremos demasiada ternura pelas mulheres de outro país para permitir que os nossos filhos sejam treinados para ferir os delas.
Howe mandou traduzir o seu documento para francês, espanhol, italiano, alemão e sueco, distribuindo-o tão amplamente quanto os seus extensos contactos lhe permitiram. Acreditava que o seu Movimento das Mulheres pela Paz seria o próximo grande desenvolvimento da história humana, acabando com a guerra da mesma forma que o movimento abolicionista tinha acabado com a escravatura. Apelou à criação de um “festival a celebrar como dia das mães, dedicado à defesa dos princípios da paz”, a realizar em todo o mundo no dia 2 de Junho de cada ano — uma data que permitiria reuniões ao ar livre.

Howe organizou conferências internacionais pela paz, e os Estados norte-americanos desenvolveram os seus próprios festivais do Dia das Mães. Mas Howe rapidamente percebeu que ainda havia muito a fazer antes que as mulheres se pudessem unir à escala global. Voltou então a sua atenção para os clubes femininos, destinados a “constituir uma feminilidade activa e unida”.

À medida que trabalhava para unir as mulheres, Howe começou a compreender que uma mulher não precisava de centrar a sua vida em torno de um homem, mas deveria antes ser “um agente livre, partilhando plenamente com o homem todos os direitos humanos e todas as responsabilidades humanas”. “Esta descoberta foi como acrescentar um novo continente ao mapa do mundo”, recordaria mais tarde, “ou um novo testamento às antigas ordenações”. Lançou-se então na luta pelo sufrágio feminino, compreendendo que, para criar uma sociedade mais justa e pacífica, as mulheres tinham de ocupar o seu lugar legítimo como participantes iguais na política americana.

Enquanto celebramos a versão moderna do Dia da Mãe a 10 de Maio, neste marcante ano de 2026, vale a pena recordar o Dia das Mães original e a convicção de Julia Ward Howe de que as mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens — e de que devem fazer ouvir a sua voz.

Heather Cox Richardson from Letters from an American