Continua a surpreender-me a, amplamente bem distribuída, dificuldade em pensar ou aceitar que uma coisa possa ser simultaneamente outra coisa, ou várias coisas, ao mesmo tempo. Os argumentos simplistas e binários em todo o espectro político sobre o Irão parecem de novo ter esquecido a conjunção coordenativa copulativa “e”, ignorando ser possível querer a libertação de um povo “E” não querer que esse mesmo povo seja bombardeado “E” que tenha direito à sua autodeterminação. E que se condene um regime autoritário “E” que se condenem os regimes genocidários norte-americanos e israelitas que o pretendem desmantelar. A escritora iraniana no exílio Sahar Delijani resume perfeitamente a possibilidade de pensar a simultaneidade ao defender que: “Enquanto viver, jamais defenderei que as bombas caiam sobre um povo enquanto estou confortavelmente sentada na segurança do meu apartamento em Brooklyn. Enquanto viver, nunca estarei nessa mesma segurança a exigir que um povo suporte uma ditadura brutal em nome da preservação dos meus próprios argumentos 'anti-imperialistas'. Enquanto viver, jamais chamarei complicado a um massacre. Enquanto viver, nunca chamarei libertação a uma guerra. Enquanto viver, jamais chamarei resistência a uma ditadura.” Luísa Semedo in publico.pt/
Depois, cita uma iraniana que diz que jamais defende as bombas sobre um povo enquanto estou confortavelmente sentada em Brooklyn. Mais uma vez, mostra a sua binamonaria: ou estás disposta a ir para lá ou defendes que nada se faça - a não ser uns protestos inócuos.
Em primeiro lugar, quando há centenas de vídeos de iranianos dentro do Irão a pedir a intervenção de Israel e dos EUA para os libertarem do governo bárbaro dos Ayatolas, ela vai buscar para citar uma das poucas vozes que defende a manutenção do regime com os argumentos das bombas estarem a ser lançadas para cima do povo, o que é falso (temos vídeos dos iranianos a celebrar na rua, enquanto as bombas caem nos alvos militares - se as bombas estivessem a ser lançadas sobre o povo, o povo escondia-se, não ia para a rua ver; se as bombas estivessem a ser lançadas sobre o povo as cabeças do regime não tinham caído todas no 1º bombardeamento)
Em segundo lugar, dizer que não se pode ajudar quem pede ajuda por estarmos sentados longe é o mesmo que dizer que estou em casa a ver pela janela um homem atacar uma mulher que pede socorro mas não chamo a polícia a não ser que esteja disposta a ser eu a ir lá defender a mulher. E segundo esta articulista devemos deixar que os Ayatolas mantenham o seu regime bárbaro e totalmente incivilizado se não vamos lá em pessoa e, como não vamos, temos que apenas protestar enquanto os vemos continuar os crimes.
As voltas binárias que esta senhora dá para defender que nada se faça e se deixe o regime iraniano continuar a espalhar o terror dentro e fora do seu país.