August 30, 2026

Uma perspectiva interessante

 

Opinião de um professor de teatro (especializado na Europa Oriental): Uma perspetiva muito interessante sobre a representação que Nolan faz de Ulisses como um homem moral (em contraste com a forma como Homero o retrata). Isto também me faz pensar na definição aristotélica do herói trágico, cuja falha trágica (hamartia) é eventualmente reconhecida e expiada através do reconhecimento e da reversão — como no caso de Édipo —, em contraste com o herói épico, que simplesmente age no mundo sem o mesmo acerto de contas moral.

Aplicado à política, podemos ver essa diferença entre as visões trágica e épica dos líderes ao compararmos a Rússia e os Estados Unidos. Na Rússia, os líderes, por mais sanguinários que sejam, são frequentemente vistos como heróis trágicos («ele queria o melhor para a Rússia, mas os seus subordinados corruptos mantiveram-no afastado do verdadeiro conhecimento», «ele não sabia, mas tinha boas intenções»). A Rússia transforma os seus repetidos fracassos de liderança (Lenin, Estaline, Putin) numa tragédia que depende de alguma forma de redenção política ou moral (e de auto-consciência) para que a crise se resolva. O discurso de Khrushchev sobre «O Culto da Personalidade e as Suas Consequências», proferido em 1956 sobre as atrocidades de Estaline, pode ser considerado um gesto de auto-redenção em nome do regime soviético. 

É claro que isso conduziu a novas atrocidades perpetradas no antigo Bloco Soviético e, por fim, ao neoimperialismo da era de Putin. A auto-consciência simbólica do poder não conduz necessariamente à justiça sem intervenção externa. 

Nos Estados Unidos, temos tradicionalmente tratado os nossos líderes mais como heróis épicos, cujo comportamento requer correção externa através de processos legais e políticos e de infra-estruturas institucionais, em vez de auto-iluminação. Pelo menos, costumávamos fazê-lo.

Magda Romanska

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