July 09, 2026

A desvirtuação da Wikipédia às mãos de governos e bilionários

 



Fui co-fundador da Wikipédia, mas é uma multidão anónima que manda — e agora fui banido

Por Larry Sanger

Fui permanentemente impedido de editar a Wikipédia, o site que criei e dirigi em 2001. Sim, é verdade. Já vos ouço perguntar: «Como? O que se passa por lá?» O incidente revela algo verdadeiramente condenatório sobre «a enciclopédia que qualquer pessoa pode editar». A ironia é que nem mesmo um co-fundador pode editá-la se estiver a tentar implementar o seu programa de reformas.

Este acontecimento bizarro chamou a atenção da Internet a nível global, que ficou surpreendida ao saber que um grupo relativamente pequeno de «administradores» anónimos, aparentemente exerce uma autoridade tão absoluta que um fundador do site pode ser alvo de abusos durante três dias e depois banido, tal como já aconteceu a tantos milhares antes dele.

É verdade que existe uma multidão anónima com um poder praticamente ilimitado na plataforma. Mas essa é apenas uma das dimensões dos problemas da Wikipédia. Deixem-me explicar.

Perguntem aos verdadeiros crentes e eles partilharão as ficções institucionais do site: é neutro. É escrito por voluntários bem-intencionados. Continua a ser a enciclopédia que qualquer pessoa pode editar. O bloqueio de contas é feito através de um processo racional, normalmente de acordo com as regras. E nenhum administrador alguma vez se rebaixaria a aceitar dinheiro em troca de usar a sua influência institucional.

É verdade que a Wikipédia é escrita por voluntários, mas que tipo de voluntários? Mesmo a esmagadora maioria dos intervenientes mais influentes do site é totalmente anónima. Como resultado, a nossa compreensão das dinâmicas de poder na Wikipédia é limitada.

Afinal, não é verdade que qualquer pessoa possa editá-la. Qualquer pessoa pode tentar. Mas, como aconteceu no meu caso, administradores poderosos unem-se regularmente contra quem não segue a linha dominante, impondo e aprovando bloqueios sem qualquer justificação substantiva.

Muitas vezes, as contas bloqueadas recebem a mesma acusação vaga e impossível de provar que eu recebi: «Não está aqui para construir a enciclopédia.» O que significa isto? No meu caso, os administradores disseram que eu não editava artigos em quantidade suficiente, mas isso, evidentemente, dificilmente constitui motivo para um bloqueio. Na realidade, tudo depende de saber se a pessoa está «alinhada» com o espírito — ou melhor, com a inclinação propagandística — da enciclopédia.

Se a Wikipédia não é apenas uma colaboração pacífica entre iguais, como é realmente exercido o poder? Em vez de uma constituição rigorosa, existem «cinco pilares», «políticas», «orientações» e ensaios de comentário, mas ninguém é verdadeiramente responsabilizado perante uma carta comunitária. Em vez disso, os editores e administradores respondem apenas uns perante os outros e, acima de tudo, perante um pequeno grupo de líderes intimidatórios, geralmente administradores, que declaram com firmeza como as regras vagas devem ser interpretadas. A sua autoridade vem da «comunidade», mas a «comunidade» é, na realidade, uma multidão anárquica.

Ao chamar-lhe uma multidão, ou uma massa amorfa, não pretendo sugerir que não exista um centro de poder. Pelo contrário, a Wikipédia é governada por algumas centenas de demagogos anónimos que dominam todos os restantes. Escondem-se atrás de pseudónimos extravagantes. É uma ditadura dos pseudónimos pitorescos. Mas exercem esse poder através do je ne sais quoi das regras vagas, das ameaças vagas e das alianças vagas.

Talvez essas alianças sejam claras para quem está por dentro. Os líderes desta multidão trabalham muito; alguns deles, provavelmente, são pagos por alguém. Por quem? Quem sabe? Talvez grupos diferentes trabalhem para financiadores diferentes.

Sabemos que existem grupos de interesse especial que actuam sobre a Wikipédia a partir do exterior, como os chamados «Guerrilla Skeptics»; é um segredo aberto que operam um grupo de discussão paralelo. 

Da mesma forma, como demonstrou o jornalista Ashley Rindsberg, os padrões de edição revelam a existência de um «Gangue dos 40» — contas que, em conjunto, dominaram os artigos sobre o conflito israelo-palestiniano, com claros indícios de coordenação fora da Wikipédia. 

Também há muitas pessoas que se identificam como «antifascistas» na Wikipédia. É provável que algum financiamento de activismo pague a alguns deles para editarem. Mas, sendo anónimos, como poderíamos saber?

Seja como for, sabemos que a Fundação Wikimedia financia directamente várias organizações sem fins lucrativos que editam artigos de grande interesse para os sectores progressistas. Apenas para dar um exemplo, um desses grupos chama-se Whose Knowledge, que organiza maratonas de edição (edit-a-thons) dedicadas a «colocar no centro a pluralidade das práticas feministas de-coloniais».

Na verdade, não é controverso afirmar que algum dinheiro financia trabalho na Wikipédia; os próprios wikipedistas admitem-no e lamentam o problema da «edição paga», apontando o dedo a empresas de relações públicas como a «Wiki-PR». Mas quantos dos editores e administradores mais influentes são pagos pelo seu trabalho? Pergunto-me. Os administradores negam que a edição paga seja um problema sério nas suas fileiras — mas como poderíamos sabê-lo? Quis custodiet ipsos custodes? («Quem vigia os vigilantes?»)

Os poderosos interessam-se pela Wikipédia. Há quase vinte anos, o WikiScanner, de Virgil Griffith, revelou que computadores de Langley, Virgínia (endereços IP da CIA), tinham editado a enciclopédia. 

A antiga diretora executiva da Wikimedia, Katherine Maher, afirmou com orgulho, num painel do Atlantic Council em 2021, que a Wikipédia tinha adoptado «uma abordagem muito activa à desinformação» na plataforma, «através de conversas com o governo, naturalmente, bem como com outros operadores de plataformas», durante a pandemia de COVID-19 e as eleições de 2020 nos Estados Unidos.

Em Janeiro deste ano, o Bureau of Investigative Journalism revelou que a empresa londrina de relações públicas Portland Communications reescrevia artigos da Wikipédia em nome de governos e de multimilionários. Entre os seus clientes encontravam-se o Estado do Qatar, a Fundação Gates e o fundo soberano da Líbia. Numa investigação separada, o mesmo órgão jornalístico concluiu que um editor anónimo recebeu dinheiro para minimizar, na Wikipédia, as ligações do ministro britânico Peter Mandelson a Jeffrey Epstein.


O que aconteceu à neutralidade da Wikipédia?

Eis, então, o retrato pouco animador que emerge. A Wikipédia está longe de ser um belo projecto idealista, mantido por estudantes, académicos e reformados que apenas desejam partilhar os seus conhecimentos para benefício de todos. É certo que há pessoas envolvidas para quem isso continua a ser verdade. Mas, de forma evidente, o site foi capturado por um pequeno grupo de intimidadores movidos por uma agenda ideológica. Manipulam e intimidam os restantes participantes e qualquer pessoa que não siga a linha dominante — como aconteceu comigo — é banida. Exercem um poder considerável de forma mesquinha e maliciosa. O dinheiro circula claramente; em alguns casos, o sistema faz lembrar uma extorsão. Tendo em conta a dimensão de empresas como a Wiki-PR e outras semelhantes, poderão estar em causa milhões de dólares por ano.

A Wikipédia é uma das plataformas mediáticas mais poderosas da história. Já é tempo de descobrirmos quem a controla realmente.


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