April 19, 2026

Por falar em cultura e a propósito das leituras escolares obrigatórias

 


Não vejo razão para tirar Saramago do programa. Quer dizer, é o único Prémio Nobel da nossa cultura. Talvez muitos preferíssemos outro nome com esse título -a mim ele perde-me com aquela maneira feia de escrever- mas é ele que o tem e algumas das suas obras são importantes, fazem pensar. 

Nós temos alguns grandes escritores de prosa mas acima de tudo somos um país de poetas e a mim parece-me que faltam poetas na educação escolar. 

O que quero dizer é que o programa podia organizar-se em torno de grandes textos da língua/cultura portuguesa. Isto para dizer que faz sentido dar alguns autores mais extensamente, com a leitura de uma obra na totalidade, mas outros podem ser abordados de outra maneira: escolher contos ou crónicas ou poemas sem ter que dar a obra toda ou um livro inteiro do autor.

Os poemas podem começar a entrar na educação logo na escola primária. Todos nós que estudámos antes do 25 de Abril tomámos contacto com a poesia ainda na escola primária, com poemas e quadrinhas adequadas à idade - a escola primária era obrigatória, não era uma educação de elite e todos apendíamos esses mesmos poemas de cor - e é por isso que as pessoas de uma certa idade, independentemente da sua condição social, sabiam poemas de cor e sabiam ler os poetas.

Há autores que têm que estudar-se lendo uma obra ou partes extensas de obras, como Camões ou Eça, Pessoa ou Saramago e mais alguns que marcaram épocas, mas os outros escritores podem aparecer ao longo de todo o percurso escolar em forma de textos e poemas que marcaram a nossa cultura sem ter que ler-se uma obra inteira deles. Os alunos são muito sensíveis a certos temas de certas poesias na adolescência. Só não o sabem porque não contactam com elas. Quer dizer, contactam muito pouco. Lêem uma coisinha aqui e outra ali. Temos tantos poetas, mas tantos...

Para além dos autores obrigatórios, há outros que têm textos que para mim são incontornáveis, não apenas na escrita mas também na vivência da nossa cultura, como por exemplo, assim de repente e sem nenhuma ordem, José Régio, Florbela Espanca, Miguel Torga, Sophia, Aquilino, Lídia Jorge, Ruy Belo, Lobo Antunes, Vergílio Ferreira, Agustina, David Mourão Ferreira, Alexandre O’neill, Herberto Helder e outros que não me vêm agora à cabeça.

Quando fiz exame no ano propedêutico -agora 12º ano- as obras obrigatórias de Português a exame eram 14. Talvez fosse demais, mas a questão é que dava-se muita literatura ao longo dos anos de escola e começava-se logo na 1ª classe de maneira que ninguém a estranhava mais tarde. Habituávamo-nos à complexidade da língua, ao pensamento profundo, à reflexão sobre a nossa cultura e os seus vultos.

É na literatura que aprendemos a língua e a cultura do nosso povo, não é na TV, nos Big Brothers, ou nos programas da Cristina. Não me parece que as pessoas agora nasçam menos capazes, de tal modo que só se lhes possa dar papinhas nestum: um textinho aqui, outro ali, pequeninhinhos, para não ficarem traumatizados... um exame só com espacinhos para preencher com palavras que estão ao lado e é só escolher ou para pôr cruzinhas e no fim um textozinho com palavrinhas simples. Nenhum esforço, nenhum pensamento. Uma educação miserabilista. 

Os alunos de hoje gabam-se de nunca ter lido um livro e não são capazes de dizer umas quadrinhas ou um pequeno poema, referir um texto de autores portugueses. Não conhecem nada, não têm palavras... são como as pessoas com Alzheimer quando já não conseguem exprimir-se ou pensar porque já perderam as palavras, mas ao contrário: nunca as tiveram.

A quem é que isto beneficia? Ao país não certamente, nem aos portugueses do futuro.

Portanto, não vejo razão para diminuir o número de textos e penso que deviam aumentá-los logo desde o 1º ano.

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